Sobre amor, amizade e confiança
2 A primeira semana que se foi
Notas iniciais
Eren estava deitado atravessado em sua cama, relendo seu trabalho. Mikasa estava sentada no chão, escrevendo com muita calma. Armin estava sentado na escrivaninha. Ele parou o trabalho e notou os amigos. Eren estava com uma das mãos nos cabelos dela. Nenhum dos dois parecia notar. Armin não pode deixar de sorrir. Um dia, ele pensou, os dois idiotas vão ficar juntos. Quando as coisas se acalmarem, acrescentou com tristeza.
“Eu terminei”, disse Armin. “Revisado e pronto para ser entregue”. Eren se levantou, tirando a mão da cabeça da Mikasa e seu amigo já se arrependera em ter chamado sua atenção. “Já terminaram?”, ele perguntou, no entanto.
“Revisando”, Eren disse. “Eu acho que no final eu enrolei um pouco, mas me surpreendi por ter me saído tão bem”. Ele então espiou a amiga, que prosseguia na escrita. “Mikasa, seu trabalho vai ser maior que o livro”.
“Eu já estou terminando”, ela disse. “Mas vou passar a limpo amanhã”, ela disse. Levi exigira que o artigo fosse escrito à mão. Eren não parara de resmungar sobre isso naquela primeira semana.
“Eu vou te contar, se a primeira semana diz alguma coisa sobre o ano que teremos, é que vamos fazer exercícios até nossos dedos sangrarem”, Eren reclamou. “Um relatório de literatura, exercícios do livro de álgebra, física e geometria e um capítulo de leitura de geografia... Eles acham que não fazemos nada na semana?”
“Pare de reclamar, guri”, disse Hannes, passando pela porta e rindo. “Você parece um velho. E vocês realmente não fazem muita coisa durante a semana”.
“É que os professores confundiram a gente com servos, senhor Hannes”, Eren protestou, mas seu padrinho apenas riu. “Adutos sempre se esquecem como a gente precisa penar na escola”, ele falou emburrado para os outros dois.
“Você reclama demais”, Mikasa disse singelamente, sem tirar os olhos do seu papel.
“Eu tenho que concordar com o Eren nessa, é muita coisa para primeira semana”, Armin colocou. “Vamos ter que trabalhar duro se quisermos ter boas notas lá na escola e...”, ele hesitou, “continuar lá”.
Eren o olhou com confiança. “Não se preocupa, a gente vai tirar de letra. Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço depois do meu pai e Mikasa é boa em tudo. É só vocês me manterem na linha que não vamos ter problemas”, ele deu uma piscadela. Armin riu.
“A bajulação vai te levar longe, garoto”, brincou Armin. Eren ameaçou tacar o travesseiro em cima do amigo, que se esquivou tolamente. Eren riu, com o travesseiro ainda em mãos.
“Terminei”, Mikasa disse após algum tempo. “Aquela sua ideia de pacifismo abriu meus olhos, Armin. Obrigada”.
Antes que Armin pudesse responder, Eren perguntou: “E quanto a mim?”
“Você não ajudou em nada”.
“Eu te dei apoio moral”.
“Isso você sempre dá”.
“E você nunca agradece!”
Mikasa riu. Um sorriso que era reservado apenas aos bens íntimos. Um sorriso aberto. Eren riu logo em seguida. Armin suspirou. Ele sempre pensou em Mikasa e Eren como um casal, embora alguns achassem que eles fossem irmãos. Mikasa viera morar com os Yeager quando ela e Eren tinham nove anos. Logo, os dois ficaram inseparáveis e até já eram antes disso. E, por alguns anos, eles viveram uma vida pacífica, até feliz, ao lado de Armin. Porém, o avô de Armin ficou doente ao ponto de ter que ser internado; e o garoto se viu sem família, já que seus pais se foram quando ele era pequeno. Armin então ficou na mesma situação de Mikasa ao ir morar com os Yeager, embora ele ao menos ainda tivesse seu avô no hospital. E tudo ficou ainda pior quando faleceram os pais de Eren.
“Quanta desgraça a gente vai ter que aguentar?”, Eren perguntara para Hannes antes de se mudar. O homem apenas o olhou com lágrimas nos olhos. E os abraçou.
“Algum problema, Armin?”, Eren perguntou. Armin notou como ele o olhava preocupado, assim como Mikasa.
“Não, nada. Eu fiquei... distraído”, Armin desconversou. “O que vocês acharam dos professores?”
“Eu só não gostei muito daquela... escrota... da professora de geometria”, Eren admitiu. “E pelo visto, ela não gostou de mim também. E Rico nem parece um nome de mulher decente”.
“E qual seria um nome para uma mulher decente?”, Mikasa perguntou, passível.
“Eu, hã... E-eu quis dizer n-nome decente de mulher”, Eren gaguejou. “Mas Mikasa é um bom nome, em minha opinião”, ele acrescentou, com mais confiança. Armin mordeu a língua, segurando o riso.
Mikasa corou ligeiramente. Armin estava espantado... Eren estava tentando flertar com ela? Armin não pode deixar de sorrir, mas Eren propositalmente evitou o seu olhar. Mikasa tornou a falar, ligeiramente desconcertada.
“E-eu gostei do professor de história”.
“O da sobrancelha?”, Eren perguntou.
“Erwin Smith”, disse Armin. “Eu gostei dele também. Um dos meus favoritos, junto com o Dita de artes e Dot de ciências políticas”.
“Ele cheira a álcool”, Mikasa disse baixinho. “E é meio estranho”.
“Mas ele é brilhante”, Armin insistiu.
Logo, a senhora Hannes os chamou para o jantar. Eren ajudou Mikasa a se levantar e os três foram para a sala, onde Hannes já estava sentado à mesa.
“Se vocês não viessem logo, eu não deixaria nada para vocês”, ele disse, rindo. Ele sempre fazia esta mesma piada e sempre ria com a mesma entonação.
“Tim, não implique com eles”, ralhou sua esposa, colocando o último prato na mesa. A comida era macarronada e Armin mal pode deixar de lamber os beiços. Estava faminto, e a senhora Hannes logo percebeu. “Podem atacar, queridos, vocês devem estar cansados. Se meu esposo não for exagerado, parece que o professor de educação física de vocês é pior que um general do exército”.
“Ele faz o professor de ‘Whiplash’ parecer um gatinho assustado”, admitiu Armin. “E nos colocou para correr feito cachorros”.
“Ele está mais para o Hartman de ‘Comando para Matar’, menos os palavrões”, Eren discordou.
“Rá, esse é o velho Keith”, riu Hannes. “Não vai dar moleza para vocês, eu já adianto”.
“E vocês fizeram muitos amigos na escola?”, a senhora Hannes disse.
“Já, alguns”, Mikasa confirmou. Eles fizeram amizade com Reiner, Annie e Bertolt, embora os dois últimos fossem meio calados e frios. Havia outros colegas de classe com quem Armin já conversava e, por consequência, Mikasa e Eren também. A atrapalhada Sasha, o engraçado Connie, o gentil Marco...
“E você, Eren, já causou algum problema? Esse seu gênio...”, a senhora Hannes disse, brincando. O esposo dela, porém, a olhou de esguelha. Eren era admitidamente problemático, assim como Mikasa. De certo modo, Armin também. Sempre estiveram envolvidos em brigas com seus colegas. Mesmo antes do... incidente.
E, para falar a verdade, Eren quase se metera em uma confusão. Quase arrebentara Jean Kirstein no corredor. Fora o outro que começara, para o mérito de Eren. O trio estava conversando tranquilamente no corredor quando foram atropelados por Jean, que corria atrás de Connie. Jean escorregou e caiu, de modo que Connie sumiu de vista.
“Obrigado, imbecis, e saiam da frente”, ele dissera, empurrando Eren e Armin com um único braço. A reação de Eren fora rápida e violenta: ele agarrou Jean pela parte de trás do colarinho e puxou para si. Depois, o imprensou contra a parede.
“Desculpa. E. Dá licença. São bem-vindos”, ele disse, entre os dentes.
Jean vacilara um pouco, e tentou se soltar de Eren, que o segurava pela camisa. “Me solta, seu animal”.
Armin percebera então que já era. Jean não sabia no que havia se metido. Antes que Eren fizesse alguma coisa, porém, Mikasa colocou a mão em seu ombro. Ela também parecia irritada, porém apenas sussurrou: “Eren, não vale a pena. Se ele quiser ser um babaca sobre isso, deixa pra lá. Larga ele e vamos”.
“É, Eren, larga ele”, Armin adicionara nervoso. Alguns alunos transeuntes já pararam para observar a cena.
“Tome cuidado comigo”, Eren disse, soltando-o com um empurrão. Jean olhou para os três um instante, estudando seus rostos devagar e saiu, quase correndo. “Imbecil filho da puta”, Eren dissera, com a voz rouca de raiva.
“Esquece, já passou”, Armin colocou o braço em volta do ombro do amigo. “É melhor deixar essas coisas passarem do que fazer algo que se arrependa”.
“É, você está certo”, Eren admitiu. “Não seria de bom tom ser expulso na primeira semana”.
Os três concordaram em não falar daquilo para Hannes ou para sua esposa. Portanto, Eren respondeu a pergunta da senhora Hannes com um simples: “não, senhora”.
O mais curioso do incidente veio depois. Aquela quase confusão aconteceu numa quarta-feira. No dia seguinte, porém, Jean veio pedir desculpas. “Eu estava irritado com o Connie e descontei em vocês. Foi mal”, ele disse, parecendo um pouco nervoso em estar ali.
“Não tem problema”, Armin disse, com um sorriso sincero. Eren, um pouco mal-humorado, aceitou o pedido de desculpas, mas apenas educadamente. Mikasa também, mas com pura frieza. Armin notara que Jean corou quando ela o respondeu. Pobre idiota, ele pensou, mal sabe que não tem chances nenhuma ali.
“E vocês já conseguiram se acostumar com o novo colégio?”, perguntou Hannes, atraindo a atenção de Armin novamente. “Sei que ele é meio intimador no começo e pode deixar muita gente deslumbrado”.
“É um pouco confuso para chegar às aulas”, Armin concordou, “mas a gente já está pegando o jeito. Os professores parecem ser bem cascas-grossas, porém”.
“É mesmo?”
“Um deles tem o mesmo sobrenome que eu”, Mikasa disse repentinamente. “Ackerman”.
“Ackerman?”, Hannes pareceu confuso. Depois, sua expressão se clareou em entendimento. “Ah, o Levi, professor de literatura. Alguns alunos o chamam de Leviatã, tanto xingando como elogiando. Talvez ele seja um tio perdido, Mikasa. Haha”.
“Muito engraçado”, ela disse com seriedade. “Ele é bem rígido”.
“Aos poucos ele se solta mais ou vocês se acostumam com o baixinho”, Hannes deu com os ombros. “Armin, me passa o molho”.
O jantar com os Hannes passou de forma agradável e Armin se sentiu quase em uma família. Lembrou-se de seu avô. E de seus pais, embora fosse quase pequeno demais para se lembrar. E dos pais de Eren. E até dos pais de Mikasa, que também se lembrava muito pouco.
De noite, Eren e Armin foram para o quarto que dividiam. Eren deitava na cama perto da parede da janela, enquanto Armin deitava na cama perto da porta. Mikasa tinha seu próprio quarto, embora fosse um pouco menor. Era pouco, mas era mais do que podiam esperar. Um dia, pensava Armin, eu vou pagar os Hannes; eu vou retribuir tudo que eles me fizeram em dobro. “Não vou me esquecer”, sussurrou baixinho.
“Você disse alguma coisa?”, perguntou Eren. Armin negou mansamente e, logo, ambos dormiam.
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