Sobre amor, amizade e confiança

3 Interlúdio (um pouquinho de felicidade)


Notas iniciais
Esse capítulo tem algumas ideias que me inspiraram a escrever este humilde texto e, de algum modo, quase cortei ele.

Eren se sentia culpado. Como ele poderia estar tão feliz depois de perder seus pais? Algumas vezes, a tristeza batia tão forte que ele se via prestes a chorar. Outras, a raiva estourava em seu interior de tal modo que ele parecia pronto para arranjar uma briga.

Porém, na maioria do tempo, ele era feliz. Não conseguia evitar.

Eren podia ver que Mikasa e Armin estavam felizes também. Armin se enturmara melhor, claro. Nenhum dos três era exatamente bom em fazer amigos quando criança: Eren era explosivo demais; Mikasa era muito reservada; e Armin preferia a companhia dos livros. Ao menos sempre tiveram um ao outro.

Armin agora estava sempre participando de conversas e sendo gentil com as pessoas. Mikasa, aos poucos, se abria mais com os outros. E quanto ao próprio Eren... Bem, ele sempre fora intenso. Mas também sempre fora leal aos amigos. Já falava com praticamente toda sua turma. Embora discutisse muito com Jean, era quase uma amizade nascida dentro de uma inimizade. Uma vez, Connie dissera: “Não ligue pro Jean, ele é babaca, mas é o nosso babaca”. Jean, para a surpresa de Eren, apenas concordou e riu. Daquele dia em diante, Eren decidiu tentar deixar sua antipatia com o rapaz de lado. E quase sempre dava certo!

E Eren não podia deixar de se divertir com seus novos amigos. Pela primeira vez na vida, ele sentia que pertencia a algum lugar. Nunca perguntou se Mikasa e Armin sentiam a mesma coisa. Talvez por vergonha. Talvez por medo que fosse inteiramente verdade.

Naquele dia, estavam sentados no gramado em frente ao colégio. Era sábado, todos haviam saído da educação física e o ônibus estava atrasado. Era um dia agradável e com sombra fresca. Eren estava deitado usando sua mochila como travesseiro. Mikasa estava sentada apoiando com a perna a mesma mochila. Eren ponderou por um segundo em tirar a mochila e deitar com a cabeça no colo dela, mas não o fez – aquilo era ir longe demais, um abuso. Mikasa era quase uma irmã, embora ele gostaria que não fosse. Claro. Claro que não. Nada disso. Nem por um minuto. Nunca passou pela cabeça de Eren como seria beijá-la.

(Ufa!)

Armin estava sentado encostado no tronco da árvore, um pouco à esquerda de Eren, lendo ‘O Apanhador no Campo’. Sasha, que estava sentada com Connie ao sul de Eren, perguntara se ele já tinha terminado o trabalho. “Já”, ele admitiu, “mas eu estou relendo o livro por conta própria”. Eren apenas riu. Este era o Armin que ele conhecia.

Jean, Reiner, Bertolt, Marco e Ymir estavam brincando com uma bola de futebol à direita, enquanto Krista, Mina e Hitch assistiam e torciam, ocasionalmente zoando os meninos por serem menos habilidosos que Ymir, uma ‘relés’ garota.

“Qual o problema? Ymir é mais durona que qualquer um”, protestou Bertolt.

“Bert, obrigada”, Ymir sorriu, fazendo uma embaixadinha. “Eu vou pegar mais leve com você agora depois dessa. Você merece. Já os outros...”.

Eren riu, assim como seus colegas. Subitamente, notou como Bertolt, Reiner e Annie haviam mudado. Eles foram as primeiras pessoas dali que Eren conversara e pareciam um tanto isolados no começo. Reiner nem tanto, talvez. Agora, os três haviam se enturmado junto com Eren, Armin e Mikasa. Até mesmo Annie. Ela o lembrava de Mikasa, muito reservada. Talvez por isso, ele julgava perceber que a garota parecia mais solta, embora não pudesse afirmar que realmente a conhecia. De algum modo, ele correlacionava às atitudes das duas.

Por falar em Annie, Eren levantou a cabeça para procurá-la. Um pouco afastados de Armin estavam Franz e Hannah, conversando aos risinhos. Eles fingiam que não, mas todos sabiam que eram um casal. Eren suspirou. E então tossiu ao notar o olhar de Mikasa com o canto do olho.

Atrás de Connie e Sasha, que agora conversavam com Mikasa, estavam Marlowe e Boris, olhando algo no celular de um deles. Olhou para trás e então a viu. Um pouco encoberta por Mikasa, Annie estava sentada distraída, ouvindo música no fone de ouvido. Um pouco mais atrás, Mylius e Thomas se aproximavam, vindos da direção do prédio.

“Então é assim que é se sentir tranquilo?”, pensou. Eren não me sentia daquele jeito desde... Aquele incidente, talvez? Não se arrependia de nada nunca, porém. Por Mikasa, faria mil vezes e mais. Mas ele mentia para si mesmo. Ele nunca realmente se sentiu tranquilo, mesmo antes daquilo tudo acontecer. “Aqui e agora é o mais próximo que eu já-”

“Ugh”, Eren foi atirado para fora de sua pacífica divagação por uma bola caindo na sua barriga. Ele levantou tão rápido que sentiu seu pescoço estalar. Porém, percebeu seus amigos rindo. Não de um jeito maldoso, mas de um jeito carinhoso. Divertido. Eren relaxou. “Ou vocês tem péssima pontaria ou acertaram em cheio”, gritou.

“Um pouco dos dois!”, Jean gritou.

“Eren, vem jogar!”, chamou Ymir. “Alguém disse que você não tem fibra moral para dominar uma bola, embora eu tenha lealmente defendido que você seja capaz de fazer isso”.

“Quem disse?”, Eren perguntou. Ouviu Connie soltar um ‘uhhh’, baixinho, provocador.

“Eu não vou dizer que foi o Jean”, Ymir deu uma piscadela marota, “mas foi o Jean”.

“Eren, é mentira dessa maluca...”, Jean disse, desconfortável.

“Bem”, Eren falou com expressão neutra, “hora de provar minha honra. Mikasa, cuida da minha mochila, por favor”. Ele disse. Mikasa deu um leve sorriso e colocou a mochila dele em seu colo. Eren então fez uma embaixadinha e com uma pose exagerada, jogou a bola no peito de Bertolt.

Eren se juntou aos rapazes e Ymir, aplaudido pelas meninas. Até Mikasa e Annie riram com o canto da boca, ele notou ao olhar para as duas. A farra não durou muito tempo, porém. Logo o ônibus chegou.

A turma quase inteira voltava no mesmo ônibus escolar. Era o ‘ônibus da algazarra’, uma vez ele ouviu Petra Ral dizer. Eren achava engraçado o uso da palavra algazarra, uma palavra pouco comum, mas ela servia para descrever bem aquele veículo. A turma ia cantando, fazendo brincadeiras... Rindo.

Ao chegarem ao seu ponto de descida, se despediram dos colegas. Armin, Mikasa e Eren logo encontraram Hannes, sentado na soleira de sua casa. “Finalmente vocês chegaram, o que houve?”

“O ônibus atrasou”, explicou Armin. “Ficamos esperando na escola por um tempão”.

“Se vocês não ficassem reclamando, eu poderia levar e buscar vocês de carro e vocês chegariam bem mais rápido”.

“Tio Hannes”, Eren disse com calma. Ultimamente, os três pegaram o hábito de chamá-lo de tio Hannes. “Você é divertido e tal, mas o ônibus é mais”.

“Ninguém quer vir de carro com seu responsável”, Armin confirmou. “Jean voltava com a mãe antes de a gente entrar e ainda hoje é zoado por isso”.

“Bem, vocês que são os chefes”, ele sorriu. “Agora, entrem logo que Mercedez está cheia de preocupação”.

Notas finais
Uma dica: quando escrever algo e não souber como, tente deixar engraçado. Acho que foi William Shakespeare que disse isso. Ou eu quando estava bêbada. Mas certamente foi uma dessas opções.