Notas iniciais
Is that a motherfucking Scott Pilgrim reference?

Eren e Mikasa sabiam que ouviriam piadas quando chegassem na escola, por isso decidiram pregar sua própria peça ao ‘revelarem’ para turma que estavam juntos. Foi ideia do Armin, na verdade. Ele estava apenas feliz pelos dois amigos. Eles estavam realmente felizes, depois de tudo que eles perderam... ter um ao outro era mais do que um alento.

A aula era a de literatura do professor Levi Ackerman, o Leviatã. Armin foi para a sala antes de o sinal bater, pois ele queria ver a reação da turma – e filmar com o celular se possível. Ficou no canto frontal da sala, de onde poderia ver todo mundo. Cada aluno estava concentrado em seu próprio mundo. Connie e Sasha conversavam, com o rapaz fazendo rostos engraçados e a menina rindo em resposta. Annie, Bertolt, Ymir e Reiner estavam vendo algo no caderno de Bertolt, talvez relacionado a alguma matéria ou dever de casa. Krista contava uma história para Marco que a escutava com calma, enquanto Jean apenas parecia hipnotizado pela beleza da menina. Franz e Hannah estavam apenas sentados em silêncio, com Franz virado para trás segurando a mão da namorada. Hitch caçoava de algo que Marlowe falou ou fez, enquanto o rapaz parecia mortificado e Boris apenas entediado. O professor Levi preenchia sua chamada conferindo quem estava presente na sala.

Finalmente, Eren e Mikasa entraram.

“Eu já disse que você está errada, Mikasa!”, ele disse com a voz alta. Todos da sala se viraram para os dois, surpresos. Armin tirou o celular do bolso e tentou ser discreto ao filmar a turma inteira. “Você sempre faz isso e você sempre está errada!”

“Eu estou errada? Você não sabe de nada, Eren. Esse é seu defeito, você fala de coisas que não sabe e nem compreende”, ela disse. Armin conhecia os amigos e sabia que o tom deles era falso, mas a julgar pelos rostos desconfortáveis dos amigos, parecia que eles acreditavam que era uma briga séria.

“Isso que você falou nem faz sentido! Cara, você é tão... tão... tão...”, Eren fingiu perder as palavras. “Tão estapafúrdia”, completou. Armin teve que morder a língua para não rir. De todas as palavras que Eren poderia usar numa briga falsa, estapafúrdia era a mais improvável.

“Estapafúrdia? E você é um porco chauvinista”, ela respondeu. Armin mordeu a língua com mais força. Como os dois seguravam o riso naquela situação?

“O que deu nesses dois?”, Armin ouviu Samuel sussurrar para Thomas.

“Sabe como eu acho que você vai ter que resolver isso?”, Eren gritou. Desta vez ele quase se quebrou em risadas no final, mas conseguiu se segurar.

“Como?”

“Me dando um beijo”.

“Justo”, ela disse e o beijou. Armin viu a turma arquejar. Depois, Sasha e Mina deram um gritinho, Connie assoviou e vários começaram a gritar ao mesmo tempo. Ao se separarem, Eren e Mikasa estavam sem fôlego e corando. Os dois estavam sem jeito diante os gritos de “parabéns” e “finalmente”.

“Senhor Yeager e senhorita Ackerman”, disse a voz de Levi, cortando a agitação como se fosse uma faca. “O que está acontecendo aqui?”

“Nós, hum...”, Eren gaguejou. “Nós começamos a namorar”.

Levi permaneceu absurdamente sério, mas de algum modo, também parecia divertido com a cena. “Entendo. E vocês quiseram evitar a pegadinha que fizeram com o senhor Kefka e a senhorita Diamant. Bem esperto”.

“Cara, como assim? É por isso que vocês não estavam se falando ontem? Para disfarçar?”, Connie perguntou, animado.

Eren trocou um olhar rápido com Mikasa antes de responder. “A gente estava brigado de verdade. Por coisa boba nossa. Aí a gente fez as pazes...”

“E que paz foi essa pelo visto”, gritou Ymir do fundo da sala. “Uau, au-au!”. Eren e Mikasa ficaram vermelhos enquanto colocavam suas coisas nos seus lugares. O resto da turma explodiu em risos.

“Então esse é o segundo casal oficial da turma?”, perguntou Nac Tias.

“Ei, quem tinha apostado em Eren e Mikasa?”, Ymir perguntou.

“Vocês fizeram uma aposta de verdade, Ymir?”, Eren indagou.

“Sim. Não. Talvez. Eu não sei. Fica a seu critério”.

“Agora resta saber quem será o terceiro casal”, Mina perguntou de repente. Os alunos se entreolharam e soltaram um ‘hum’ malicioso, como se estivessem avaliando as possibilidades entre os colegas.

“Bem, tanta faz qual será o próximo casal, vamos discutir isso depois da aula de literatura. Senhor Springer, senhorita Blouse. Recolham os relatórios e coloquem na minha mesa. E aproveitando o tema romântico, será uma boa hora para falar de ‘Orgulho e Preconceito’, não acham?”

Levi deu um discurso fascinante sobre o livro. Ele tinha um jeito de falar dos livros que passava em sala que instigavam bastante. Ele discutia temas, estilo de escrita e importância histórica do livro de uma maneira que qualquer um via que ele era apaixonado pelo assunto. Ele dava pequenos conselhos aos estudantes, sobre o que procurar no texto ou como se preparar para entender temas e metáforas.

Porém, pouco depois dele começar a colocar a explicar o que os alunos deveriam fazer no próximo relatório – o último do semestre –, uma batida na porta o interrompeu. “Entre”, ele disse, monótono como sempre.

“Ei, Levi”, disse Hange, colocando a cabeça para dentro da sala pela fresta da porta. “Desculpe-me te interromper, mas você poderia me emprestar alguma caneta de quadro? As minhas acabaram”.

“E não tem nenhuma no seu material”.

“Bizarramente, não. Você acredita?”

“Não muito. E nenhum dos professores das salas próximas a sua poderia ter te emprestado?”, Levi parecia cético. Armin olhou com curiosidade para Hange, que tinha um olhar quase empolgado. Parecia que ela estava prestes a ensinar o sistema circulatório para seus estudantes.

“Eu acho que sequer pensei em perguntar a eles”, ela disse. Lentamente, Levi foi até o armário no fundo da sala e para pegar uma caneta.

“Aproveitando a ocasião”, ela disse, entrando na sala, “onde estão Eren e Mikasa? Digo, o senhor Yeager e a senhorita Ackerman?”

A turma demorou um instante para entender as implicações da pergunta da professora Hange, então começou a cair na gargalhada. Ela não pareceu se importar. Eren e Mikasa pareciam prestes a derreter em seus lugares.

“Hange!”, avisou o professor.

“Levi!”, devolveu Hange. Voltou-se para os dois estudantes: “Então vocês finalmente se acertaram? Ah, que maravilha!”.

“Como você sabia, professora Zoë? O tio, digo, o profe-”, Eren perguntou, mas foi interrompido pela professora.

“Levi avisou pelo celular. No grupo dos professores”, ela sorriu torto. “Desculpa se eu quebrei essa sua fachada de durão que não liga para nada, Levi”.

“Ok, culpado”, ele falou em tom sério, jogando uma caneta na direção de Hange. Ela agarrou com uma das mãos. “Pode ser que tivesse uma aposta em jogo e pode ser que Eld me deva um almoço e que Gunther tenha que lavar meu carro”.

A turma ria, mas Eren conseguiu falar mais alto, horrorizado. “Vocês apostaram em... mim e Mikasa?” Mikasa, que usava o velho cachecol que Eren deu para ela – estava anormalmente frio para a época –, enterrou seu rosto na peça de roupa.

“Sim, culpado”, ele disse em tom sério. Armin não conseguia decidir se ele estava brincando ou não. A aposta realmente existia ou ele só estava caçoando de Eren? Com Levi, nunca dava para saber esse tipo de coisa.

Depois da aula de literatura, vários se aproximaram de Eren e Mikasa para saber como eles haviam finalmente ficado juntos. Eren contou uma história vaga, sobre como estavam brigados e como ele percebeu que estava sendo idiota e como ele foi pedir desculpas e acabaram falando seus sentimentos. Perguntaram até a Armin, que fingiu não saber. Eles não queriam entrar em detalhes sobre a situação da moradia dos três. Poderia gerar perguntas... inconvenientes.

Por falar em inconveniente, Eren e Mikasa sofreram bastante com os professores nas aulas seguintes. Professor Mike Zacharias, o Narigudo, fez uma brincadeira de deixar os dois separados para que eles prestassem atenção na aula. Geralmente, ele não era de fazer brincadeiras, então Eren e Mikasa foram pegos de surpresa e ficaram extremamente constrangidos.

No almoço, ouviram piadas dos colegas, mas não pareceram se importar. Armin sabia que eles não faziam o tipo de serem super pegajosos e eles pareciam confortáveis apenas em estar perto um do outro. Na aula de química do professor Oluo Bozado, o Língua, ele toda hora fazia referência ao casal. “A gravidade é, em termos extremamente simples, a força de atração entre dois corpos. Como por exemplo, Eren e Mikasa sendo atraídos um pelo outro. De um ponto de vista da Física, eu digo”, ele chegou a falar, em sua tirada mais marcante.

A absurdamente impessoal professora Rico Brzenska, a Robô, também mencionou. “Seria de bom tom que os alunos prestassem atenção em mim completamente e não no namorado”, ela disse dando uma bronca, num momento em que Eren e Mikasa se distraíram um com ou o outro. A turma riu e Armin calculou que foi a primeira vez que eles riram com algo que ela disse, embora ele não estivesse positivamente certo que ela tentou ser engraçada.

Finalmente, a aula favorita de Armin chegou: professor Erwin Smith, o Sobrancelha. Quando ele viu Eren e Mikasa entrando juntos, abraçados, apenas exclamou: “então é verdade!”. Eren e Mikasa se separaram na hora, vermelhos como tomates. “Opa, peço desculpas se os deixei embaraçados, mas devo admitir que vocês formam um casal bonito”, ele disse. “Mas imagino que deva ser meio assustador que um professor fale sobre isso com os seus alunos, afinal vocês são adolescentes cheios de vergonha. Então, sentem-se e não falo mais disso!”. Ainda assim, ele tinha um ar curiosamente divertido. Armin sempre achou o professor Erwin muito sério, mas de uma maneira muito mais calorosa que Levi ou Rico.

Ao fim da aula, Eren e Mikasa estavam sentados do lado de Armin, que tentava ignorar os abraços e beijos. Ele não queria ser aquele cara que reclama das demonstrações de afeto entre um casal. Finalmente, Mikasa percebeu que Armin estava desconfortável. “Desculpa se a gente está te ignorando um pouco agora, Armin”.

“Ei, não se preocupem”, ele disse. “Não deixe que os outros te atrapalhem”.

“Sabe, apesar dos pesares, hoje foi um bom dia”, Eren disse. “Os professores pegaram no pé, assim como os nossos amigos, mas no fim foi um bom dia”.

“E por que será?”, Armin deu um sorriso malicioso.

“Bem, finalmente poder... estar com a Mikasa ajudou muito”, ele disse, olhando para ela de maneira carinhosa. Mikasa fez um carinho em seu queixo. “Dá aquela sensação de que as coisas estão perfeitas. Nada poderia estragar esse momento, sabe?”

“Espera só o professor Shadis dar sua opinião sobre vocês dois”, Armin brincou. Mikasa e Eren grunhiram, os dois pouco ansiosos pela aula de educação física no dia seguinte.

“Ei, pessoal, o ônibus chegou”, chamou Sasha, ao se aproximar com Connie e Jean. “Vamos?”

“Para que a pressa, Sasha? Não tem um saco de batatas escondido no ônibus. Quando a gente chegar lá, ele vai continuar esperando a gente”, Jean disse rindo.

“Talvez não. Talvez ele tenha partido. Aí como a gente vai embora? Sei que você tem cara de cavalo, mas não acho que serviria para levar a gente muito longe”, Sasha respondeu. Armin, Eren, Mikasa e Connie ficaram em silêncio por instante. Chocados, perplexos. Então, explodiram-se em gargalhadas. Jean corou levemente.

No ônibus, Eren e Connie lideraram as zoações em cima de Jean, que levava tudo razoavelmente na esportiva. Eren, ao descer do ônibus, ainda mandou: “Pessoal, até amanhã. Kirstein... Hi-yo, Silver!”

“Você é terrível”, Mikasa disse quando saíram do ônibus. Armin conseguia ouvir as risadas dos amigos, enquanto o ônibus já começava a se distanciar.

“E você adora”.

“Culpada da acusação”, ela admitiu, levantando o braço em sinal de rendição. Eles trocaram um último beijo antes de entrarem em casa.

Notas finais
Gente, eu adoro fazer do Jean o alvo das piadas.