Notas iniciais
Uma das coisas mais cruéis que já escrevi aqui neste capítulo

Mikasa se sentia indubitavelmente feliz. Ela namorava Eren Yeager! Ela olhava para o passado e não conseguia se lembrar de nenhum momento em que o garoto não fosse uma parte importante de sua vida. Ele esteve lá nos momentos felizes, nos momentos tristes, nos momentos aterrorizantes.

Ela se lembrava de que, quando pequenos, quase todo dia um dormia na casa do outro. Bem, e de Armin. Eventualmente, os pais de Mikasa decidiram que ela era muito grandinha para dormir com outros meninos, então passaram a proibi-la de fazer tal coisa. Decisão esta que Mikasa só foi entender depois. Ela e Eren protestaram veementemente, mas eram apenas crianças. Não deviam ter mais que oito anos.

Então, uma noite, Eren pulou da janela da casa dele e foi até a casa de Mikasa, onde escalou até o quarto de Mikasa. O pai de Mikasa foi quem os encontrou de manhã, dormindo entre os bichos de pelúcia da garota.

Ele ficou de castigo. Ela levou uma bronca espetacular.

Na noite seguinte, foi a vez de Mikasa ser encontrada no quarto de Eren, os dois dormindo no chão depois de brincarem de navio assombrado.

Os dois eventualmente sossegaram, mas era comum encontrar um dormindo no quarto do outro uma vez a cada quinzena. Quando Mikasa passou a morar com os Yeager, eles dormiram no mesmo quarto (em camas separadas) por um tempo, até que os pais de Eren arrumassem o quarto de hóspedes para que Mikasa tivesse seu próprio espaço. Olhando em retrospecto, Mikasa se sentia feliz por eles terem a deixado no mesmo quarto que Eren. Um aliviava os pesadelos do outro.

Quando se mudaram para a casa dos Hannes, não houve nem discussão. Eren ficou com Armin no quarto de hóspedes enquanto o escritório da casa foi transformado no quarto de Mikasa. Claro, ela compreendia a decisão dos Hannes, mas não deixava de se sentir injustiçada – ela ainda ficava sozinha de noite. Nas noites em que os sonhos eram terríveis demais, era comum ela bater de levinho na porta dos dois. Eren acordava – sempre acordava por mais baixo que a batida fosse – e eles ficavam na sala até Mikasa se acalmar. O contrário também acontecia. Muitas vezes era Eren batendo baixinho na sua porta e Mikasa quem o consolava.

Olhando em retrospecto, Mikasa entendia o que Armin vinha dizendo. “Só vocês dois não sabiam que eram um casal”, ele brincara.

E, finalmente, eles estavam juntos!

Mikasa apenas lamentava que seus pais e os pais de Eren não pudessem vê-los. Mikasa tinha uma sensação de que os quatro ficariam felizes. Mas pensar nisso a deixava triste, então ela logo tentava pensar em outra coisa. Ela tinha o direito de ser feliz às vezes.

Naquele dia, encontrou Eren no corredor. Ele saindo do banheiro, de banho tomado. Ela já se encaminhando para a cozinha para tomar seu café-da-manhã. Eles trocaram um beijo casto nos lábios. Em casa, eles tentavam se comportar para evitar o desconforto dos olhares dos Hannes. Nos corredores da escola, eles ainda ficavam um pouco embaraçados em se beijar na frente dos amigos, mas era o que eles tinham. Tentavam se beijar quando ninguém estava olhando ou quando a necessidade de terem um ao outro era tão grande que vencia a timidez.

“Ei, estamos juntos faz uma semana”, ele disse.

“Uma excelente semana”, ela completou.

“Eu comprei um presente”, ele disse. “Mas só vou te entregar à noite”.

“Um presente? Quando?”, ela perguntou, arqueando as sobrancelhas.

“Ontem, quando tia Hannes levou a mim e Armin no supermercado”.

“Bem, eu também comprei um presente, mas só vou entregar quando você entregar o meu”.

“Quando você comprou?”, foi a vez de Eren arquear a sobrancelha.

“Quando você e Armin foram ao supermercado”, ela deu um empurrãozinho em seu queixo. “Eu admito que estava com medo de que eu te desse um presente e você não me desse nada”.

“Não se preocupe, teremos muitos aniversários para eu fazer merda no futuro”, ele disse. Depois de um segundo, os dois ficaram com bochechas vermelhas. Eles tinham treze anos. Eram novos demais para pensar no futuro. Mas mesmo assim, Mikasa brincava de imaginar um futuro com ele. Os dois estudando juntos, indo para a mesma universidade, morando juntos depois da faculdade, se casando, tendo filhos e envelhecendo juntos... Ocorreu a Mikasa que Eren provavelmente imaginava algumas dessas coisas também.

Algumas vezes, Mikasa se sentia uma criança. Outras vezes, sentia-se com a maturidade de uma veterana. Naquele momento no corredor, sentia-se um pouco dos dois. Ele se precipitou, dando mais um beijo casto nela e indo em direção ao seu quarto. Mikasa o observou por um instante e depois foi em direção à cozinha. Armin já estava lá, lendo um livro (que não era o livro do trabalho de literatura, importante notar) e tomando uma vitamina de frutas. Mikasa se serviu de um copo e se sentou junto a ele, enquanto o tio Hannes colocava waffles na mesa.

“Vocês tem certeza que não querem carona?”, Hannes perguntou. “Assim vocês podem sair um pouco mais tarde”.

“Tio, já falamos sobre isso”, Armin suspirou. “Ninguém gosta de ser paparicado pelos pais. E quando seu responsável é seu professor, pior ainda”.

“Além disso, o ônibus é divertido”, Mikasa concluiu o argumento. Hannes apenas sorriu. “O que foi, tio?”

“Nada, nada”.

Alguns minutos depois, o trio estava parado na esquina esperando o ônibus escolar. Eren e Mikasa abraçados, Armin recostado na placa do ponto e lendo seu livro. A sombra da árvore era bem-vinda.

Ao entrarem no ônibus, Eren e Mikasa cumprimentaram brevemente seus amigos e se sentaram no banco de trás. Depois da conversa no corredor, os dois estavam particularmente grudentos naquele dia. Armin os seguiu.

“O ônibus hoje está silencioso”, Armin comentou.

“O que você disse, Armin?”, perguntou Eren.

“O pessoal está quieto hoje, vocês perceberam?”

“Todos estão com sono, talvez”, Mikasa sugeriu.

“É, talvez”. O modo como Armin falou deu uma breve sensação de mau agouro em Mikasa. Ele voltou a ler seu livro e Eren puxou seu rosto para um beijo e logo ela se esqueceu do incidente.

Na escola, os três saíram do ônibus distraídos e foram em direção aos seus armários, que eram convenientemente próximos. “Armin, se você ler enquanto anda, você vai cair e quebrar o pescoço”.

“Obrigado pela preocupação, mãe Eren”, Armin falou em tom de deboche. Eren riu e lhe deu um soco de brincadeira no braço do amigo. O outro riu.

“Vocês são dois idiotas, sabiam?”, disse Mikasa, mas ela sorria.

Ao chegarem na sala da professora Hange, a Biruta, apenas Marco, Connie e Sasha estavam na sala. Eren entrou e cumprimentou os três, que ficaram imediatamente rígidos. “Ei, algum problema? Parece que vocês viram um fantasma?”

Os três se entreolharam, como se estivessem tendo uma conversa telepática. Connie foi quem finalmente falou: “Eren, é verdade? Sobre você e Mikasa?”

“O que tem eu e Mikasa?”

“É verdade que... vocês dois...”, ele parecia suar frio. Mikasa começou a ter a sensação que havia algo de muito errado. Eren parecia apenas confuso, enquanto Armin parecia tentar decifrar as expressões de Connie e os outros. “Bem...”, Connie tentou continuar, mas pareceu ter perdido as palavras.

“Vocês não checaram seus e-mails ontem à noite, checaram?”, Marco perguntou. Seu tom de voz era sério, quase preocupado.

“Não”, Eren e Mikasa falaram juntos. Ela perguntou logo em seguida: “por quê?”. Ela tinha um pressentimento ruim sobre a resposta.

“A gente recebeu um e-mail. Alunos e os pais dos alunos. Sobre vocês dois. Sobre algo que vocês fizeram... quando tinham nove anos”.

Mikasa arfou audivelmente. Ela sentiu como se o chão embaixo dos seus pés tivesse sumido. Não. Não. Não era justo. O quê... O quê estava acontecendo?

“Quem mandou o e-mail?”, Eren disse, visivelmente controlando seu tom de voz. Mikasa via que ele se esforçava visivelmente para não gritar. Ela sentia lágrimas subirem em seus olhos.

“Aqui”, Armin falou baixinho. Seu celular já em suas mãos. Como ele havia reagido tão rápido?

Eren e Mikasa colaram no lado dele para ler. Mikasa podia ouvir que outros alunos chegavam e sussurravam algo. Nenhum dos três realmente se importava com isso no momento. O mundo se resumia a tela do celular de Armin.

Pais, alunos e demais,

Escrevo este e-mail para uma denúncia gravíssima sobre o corpo docente da nossa querida escola Trost. Infelizmente, as pessoas responsáveis pela atual direção acham prudente que assassinos psicopatas façam parte do corpo estudantil desta instituição tão tradicional e outrora grandiosa.

Sim, dois alunos têm essas terríveis manchas... esses terríveis pecados... em seu histórico. Não consigo pensar em algo mais horrendo do que isso, mas não subestimo a capacidade do diretor-geral Darius Zackly, do diretor-docente Erwin Smith e da atual corja que rasga o nome e a honra de Trost diariamente.

Os alunos em questão são Eren Yeager e Mikasa Ackerman, ambos de treze anos. Sim, tão jovens, tão inocentes! Porém, suas mãos são manchadas de sangue. Com apenas nove anos, os dois mataram três homens com facadas. Os detalhes me eram turvos, visto que as reportagens da época (em anexo) não ofereciam detalhes sobre o bárbaro crime. Sequer davam os nomes dos monstrinhos! Porém, nós finalmente tivemos acesso aos documentos policiais (em anexo) do caso e resolvemos que nosso dever era disponibilizar a todos esses chocantes fatos.

Admitimos que nós também erramos. Nós sabíamos que havia um passado criminoso na ficha dos dois ao serem admitidos, mas a extensão de seus crimes era desconhecida. Pedimos desculpas por não termos avisado antes, e apenas por isso! Por quase um semestre seus filhos foram obrigados a dividir a sala de aula com assassinos. Mas entramos em acordo que manter o silêncio seria apenas agravar nossa situação. Já se passou tempo demais e uma tragédia maior com cidadãos de bem só não aconteceu por pura sorte.

Nós, da Associação de Pais e Ex-Alunos, acreditamos que a maior solução seja a expulsão imediata e preventiva dos dois alunos – Eren Yeager e Mikasa Ackerman – e que os rumos do colégio sejam profundamente repensados. Não aceitaremos o sucateamento de Trost, jamais.

Cordialmente,

Associação de Pais e Ex-Alunos (Apex)

Mikasa terminou de ler tudo com as lágrimas escorrendo. Olhou para frente. Eren ainda lia e também chorava. Armin já havia terminado de ler e sua expressão era de quem acabou de levar um soco. Alguns segundos depois, Eren terminou de ler e seus olhos lentamente encontraram os de Mikasa. O ar ficou tenso, a garota a beira de um ataque de pânico.

Perceberam que a sala havia enchido de pessoas. Inclusive, pessoas de outras turmas espiavam pela porta. Mikasa nunca se sentiu em um ambiente tão opressivo quanto naquele momento. Era como se as paredes se fechassem sobre os três. Nos olhos dos seus colegas... seus amigos... Julgamento cruel. Medo. Horror.

“BOM DIA PESSOAL NESTA QUINTA-FEIRA MARAVILHOSA!”, a professora Hange chegou gritando. “Estão prontos para mais uma maravilhosa aula de biologia, a melhor ciência!?”

Mikasa mordeu o lábio. Teve um bizarro impulso de soltar uma gargalhada. Que cena bizarra! Que contraste! O mundo havia acabado para eles três e aqui estava aquela maldita Biruta achando que o mundo ainda girava. Qual o problema dela?

Mikasa se virou e saiu rápido pela porta. Alguns alunos saíram rapidamente de seu caminho. Ela não se preocupou em olhar seus rostos. Ouviu Eren correr. Ele a alcançou logo, segurou sua mão e seguiu com ela. Sim! Ao menos isso! Ela ainda tinha Eren. Se ela ainda o tinha, o resto não importava. Certo?

“Ei, esperem vocês dois!”, Armin gritou e os alcançou. Eles estavam se caminhando para a porta de saída do colégio. Não trocaram uma palavra, mas de algum modo haviam decidido mutualmente a cabular aula. Fugir.

“Onde você acha, Armin!”, Eren quase gritou, enfurecido.

“Hannes!”, ele conseguiu dizer. Arfava. Exercícios físicos não eram o forte dele. “Procurem Hannes! Por favor, não façam nada idiota. Apenas procurem Hannes e mostrem para ele esse... essa... essa merda”, ele quase cuspiu as últimas palavras.

“Do que adianta? O que ele vai poder fazer com monstros como nós?”

“Vocês não são monstros!”, Armin gritou. Era raro vê-lo gritando, especialmente contra Eren e Mikasa. “Vocês são as vítimas, meu Deus! As vítimas! Eu me lembro de tudo. E vocês são boas pessoas! Bons amigos! Se não fosse por vocês, eu seria apenas um nerd arrogante sem amigos que apanharia todo dia!”

Eren e Mikasa apenas o olharam, perplexos. Mikasa foi a primeira a falar, com mais calma: “Hannes, então?”

“Sim”, Armin falou. “E eu... Eu vou encontrar a senhorita Petra Ral e mostrar a ela. Tudo bem?”

Eren e Mikasa se entreolharam e acenaram lentamente em afirmativo. Armin estava certo. Ele sempre estava certo.

Eren entrelaçou os dedos com Mikasa e os dois foram até Hannes. “Ao menos”, Mikasa sussurrou baixinho quando Armin já estava longe, “temos um ao outro”.

“Para sempre”.

Notas finais
A parte do amor já está resolvida. E a amizade?