Sobre a Armadura

1 Antes dos Juramentos


Antes dos juramentos, existia o silêncio.

Não o silêncio solene das salas do trono nem o silêncio pesado das igrejas, mas o silêncio simples dos pátios ao amanhecer, quando a pedra ainda guardava o frio da noite e o dia não tinha decidido quem seria. Era nesse intervalo que ele existia melhor sem armadura, sem dever, sem nome gravado em promessas que não se podiam quebrar.

Era apenas um rapaz então. Demasiado novo para compreender o peso da espada que treinava todos os dias, demasiado consciente para ignorar o mundo à sua volta. Limpava a lâmina com cuidado excessivo, não por vaidade, mas por respeito. O aço reflectia-lhe o rosto sério, fechado e, por instantes breves, perguntava-se se algum dia aprenderia a sorrir sem sentir culpa.

Foi ali que a viu pela primeira vez.

A princesa atravessava o pátio acompanhada por duas damas, o vestido claro a roçar o chão, o cabelo solto porque ainda não havia cerimónias, nem olhares atentos suficientes para exigir perfeição. Ria-se de algo pequeno, insignificante, e o som atingiu-o como uma coisa estranha e inesperada.

Riso não fazia parte do treino.

Ele baixou a cabeça, como lhe tinham ensinado, mas não foi rápido o suficiente para evitar que ela reparasse. Os olhos encontraram-se por um instante breve demais para ser proibido, longo demais para ser esquecido. Ela inclinou ligeiramente a cabeça, curiosa, e sorriu-lhe não como princesa, mas como alguém que ainda não aprendera a separar-se do mundo.

Ele sentiu algo deslocar-se dentro do peito. Não soube dar-lhe nome.

A partir desse dia, passou a reconhecer-lhe os passos. Sabia a hora a que atravessava o pátio, quando parava junto à fonte, quando se demorava a observar os treinos como se procurasse entender aquela violência ordenada. Nunca falou com ela. Nunca se aproximou. Mas passou a existir em função daquele espaço partilhado.

Antes dos juramentos, ainda acreditava que o amor era escolha.

Que a vida podia ser uma soma de vontades pequenas, alinhadas com cuidado. Ainda não compreendia que alguns sentimentos nascem antes da permissão e sobrevivem apesar dela.

Quando finalmente ajoelhou na sala do trono, semanas mais tarde, a espada pousada nos ombros, os votos preparados na língua, sentiu o peso verdadeiro descer-lhe sobre a coluna. Não era o aço. Não era o dever.

Era a certeza súbita de que tudo o que sentia teria de caber debaixo da armadura.

E quando se levantou, já cavaleiro, procurou-a instintivamente entre a multidão. Ela estava lá. Não sorriu.

Limitou-se a assentir, com uma gravidade nova nos olhos, como se ambos soubessem sem nunca o dizer que algo tinha terminado antes mesmo de começar.

Antes dos juramentos, havia possibilidades. Depois deles, restava apenas ficar.