Sobre a Armadura

2 A Noite da Promessa


A noite da promessa chegou sem aviso, como chegam as coisas que mudam uma vida inteira.

Não houve música nos corredores nem celebração aberta. Apenas velas acesas em excesso e vozes baixas que ecoavam pelas paredes do castelo como segredos mal guardados. Ele encontrava-se de guarda no corredor exterior da câmara real, imóvel, a armadura recém-polida a reflectir a luz trémula. O elmo estava debaixo do braço. Ainda não aprendera a esconder completamente o rosto.

Soube o que ia acontecer antes de alguém lho dizer.

Os servos moviam-se com pressa contida, as damas evitavam cruzar-lhe o olhar, e os conselheiros falavam entre si com aquela solenidade que antecede decisões irreversíveis. Quando as portas se abriram, por breves instantes, viu-a passar.

A princesa estava vestida de escuro.

Não era luto. Ainda não. Mas havia algo definitivo na forma como o tecido lhe cobria os ombros, como o cabelo estava preso com rigor excessivo. Caminhava direita, o queixo erguido, como quem se oferece ao destino antes que este a reclame à força.

Ele sentiu os dedos fecharem-se em torno do punho da espada. Não se mexeu.

Dentro da câmara, as vozes tornaram-se inaudíveis. Ficou apenas o tempo a estender-se, cruel, enquanto ele guardava uma porta que não podia atravessar. Quando voltou a vê-la, foi diferente. Algo tinha sido retirado do olhar dela não a dignidade, mas a leveza.

Passou por ele sem o reconhecer. Ou talvez tivesse reconhecido e escolhido não o fazer.

Mais tarde, já a noite avançava, foi chamado ao pátio interior. O rei encontrava-se junto à fonte, envolto num manto pesado, o rosto marcado por sombras duras. Não houve preâmbulos.

— Amanhã partirás com a comitiva — disse-lhe. — A princesa precisa de escolta constante.

Ele ajoelhou-se por instinto, o juramento ainda quente na memória.

— Até à última gota de sangue.

As palavras saíram-lhe sem esforço. O peso, esse, instalou-se depois.

Quando se levantou, ousou erguer o olhar. O rei já se afastava, deixando para trás a fonte e a certeza de que aquela promessa não era sobre protecção. Era sobre contenção.

Nessa noite, ele não dormiu.

Ficou de vigia junto às muralhas, observando as luzes apagarem-se uma a uma nas janelas do castelo. Quando finalmente viu a vela apagar-se no aposento dela, sentiu algo semelhante a uma despedida.

Prometeram-lhe lealdade, honra, glória.

Ninguém lhe falou do que acontece quando a promessa exige silêncio. Ninguém lhe explicou que amar alguém que não pode escolher é um acto contínuo de renúncia.

Naquela noite, sob o céu pesado, ele compreendeu que a armadura não serviria apenas para proteger o corpo.

Serviria para esconder tudo o resto. E, sem o saber ainda, começou ali a vigiar não apenas uma princesa mas o próprio coração.