Sobre a Armadura
8 A Revelação do Coração
O silêncio que se instalou após a febre não era vazio. Era denso, carregado de tudo o que não fora dito ao longo dos anos.
A princesa recuperava lentamente. Já conseguia sentar-se junto à janela, envolta em mantas, observando o pátio interior do castelo onde os soldados treinavam sem descanso. O som metálico das armas ecoava como um lembrete constante do que se aproximava.
Ele permanecia ali, à distância suficiente para respeitar, perto o bastante para proteger.
— Não precisas de ficar — disse ela, sem se virar. — Tens deveres.
— Tenho — respondeu ele. — Mas este também é um deles.
Ela respirou fundo antes de falar novamente.
— Durante a febre… eu disse coisas.
— Disseste verdades. — corrigiu ele, com suavidade.
Ela virou-se então. O rosto estava mais pálido do que o habitual, os olhos cansados, mas havia uma lucidez nova no olhar.
— Sempre foste o único que me viu sem o peso do título. — disse. — Não como princesa. Não como problema. Apenas… eu.
Ele hesitou. O cavaleiro que enfrentara batalhas sem hesitação parecia agora preso a um momento simples, mas decisivo.
— Porque sempre foste mais do que aquilo que te impuseram. — respondeu. — Mesmo quando não acreditavas nisso.
Ela sorriu, mas havia tristeza no gesto.
— E mesmo assim, nunca disseste nada.
— Porque não me cabia dizer. — confessou ele. — Fui treinado para obedecer, não para desejar.
Ela levantou-se com cuidado e aproximou-se, cada passo um esforço controlado.
— E se eu disser que também desejei? — perguntou, a voz baixa. — Durante anos.
Ele ergueu o olhar, surpreendido.
— Isso não muda o mundo. — disse, quase num sussurro.
— Talvez não — respondeu ela. — Mas muda isto.
Ficaram frente a frente, separados apenas por um espaço frágil. Não houve toque imediato. Apenas a consciência mútua de algo que sempre existira, agora finalmente reconhecido.
— Tenho medo do que vem depois — disse ela. — Da guerra. Do meu pai. Do que esperam de mim.
— Eu sei — respondeu ele. — E não posso prometer que nada te acontecerá. Só posso prometer que estarei ao teu lado enquanto puder.
Ela assentiu, os olhos brilhantes.
— Isso basta.
Não se beijaram. Não houve gestos grandiosos. Apenas um toque breve das mãos, como um juramento silencioso, carregado de tudo o que não precisava de palavras.
Lá fora, o som das armas continuava. A guerra aproximava-se.
Mas naquele quarto, por um instante, o mundo pareceu suspenso e o silêncio, finalmente, deixou de ser um fardo.
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