Sobre a Armadura
9 A Guerra
A guerra não chegou com trombetas gloriosas. Chegou com lama, cansaço e o cheiro metálico do medo.
O campo estendia-se diante deles como uma ferida aberta. A terra estava pisada antes mesmo da batalha começar, marcada por botas, cascos e a ansiedade de homens que sabiam que nem todos regressariam. O céu permanecia cinzento, pesado, como se também ele aguardasse o impacto.
O cavaleiro ajustou a armadura em silêncio. O peso familiar era agora diferente não apenas metal, mas tudo o que deixara para trás. O rosto dela surgiu-lhe na memória com uma clareza inesperada: o olhar cansado, a mão a apertar a dele, a promessa que não fora dita em voz alta.
— Mantém a formação — ordenou o capitão.
E depois, o mundo quebrou-se.
O primeiro choque foi brutal. Escudos contra escudos, o som seco do impacto a atravessar o ar. Gritos misturaram-se com ordens confusas, o cheiro a sangue substituindo rapidamente o da terra húmida. Ele avançou sem pensar, o corpo a agir por instinto treinado, a lâmina a subir e a descer num ritmo que não permitia hesitação.
Cada golpe era sobrevivência.
Não havia honra nos rostos que enfrentava, apenas o mesmo terror que sentia. Um homem caiu a seus pés, os olhos arregalados, a vida a escapar-lhe num suspiro curto. Não houve tempo para desviar o olhar.
O inimigo pressionava com força. Eram muitos. Demasiados. O barulho era ensurdecedor aço, ossos, vozes humanas a desfazerem-se em desespero. O chão tornava-se escorregadio, difícil de firmar.
Ele lutou como sempre lutara. Mas desta vez havia algo novo: o medo de não regressar.
Uma dor aguda atravessou-lhe o flanco. Não percebeu de imediato de onde viera o golpe. Apenas sentiu o impacto, o ar a fugir-lhe dos pulmões. Cambaleou, mas manteve-se de pé, apoiado no ódio puro de cair ali.
Avançou mais uma vez.
Quando a batalha começou finalmente a ceder, o campo estava irreconhecível. Corpos espalhados, armas quebradas, o silêncio pesado que se instala depois da violência extrema.
A vitória fora alcançada. Diziam-no os estandartes erguidos, os gritos cansados dos sobreviventes.
Mas ele mal os ouvia.
Caiu de joelhos, a visão turva, o sangue a infiltrar-se por baixo da armadura. Pensou nela não como princesa, mas como a mulher que lhe pedira apenas presença.
— Ainda não — murmurou, mais para si do que para o mundo.
Quando o retiraram do campo, semi-inconsciente, o céu começava a escurecer.
No castelo, ela sentiu o vazio antes mesmo de receber a notícia.
A guerra tinha sido vencida. Mas o preço ainda estava a ser pago.
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