Sobre a Armadura

10 O Retorno Ferido


Ele regressou ao castelo ao cair da noite, envolto num silêncio pesado que nenhuma vitória conseguia dissipar.

Não houve celebrações. Apenas passos apressados, ordens sussurradas e o som abafado da maca a atravessar os corredores de pedra. A armadura estava manchada de sangue seco, o rosto pálido, os olhos fechados como se o mundo tivesse exigido demasiado.

A princesa estava à espera.

Não soube explicar como, mas sentira-o antes mesmo de o ver. O aperto no peito, a inquietação constante, o medo que não a abandonara desde a manhã. Quando o trouxeram, o coração quase lhe falhou.

— Está vivo — disse alguém, rápido, como se isso bastasse.

Ela aproximou-se, ignorando as vozes, os olhares, o protocolo. Pousou-lhe a mão na que estava descoberta, fria, pesada.

— Ouves-me? — murmurou.

Nenhuma resposta.

Os medicos trabalharam durante horas. Água quente, ligaduras, ervas amargas. O quarto encheu-se do cheiro a sangue e a medicamentos, da tensão de quem sabia que um erro podia custar tudo.

Ela não saiu.

Sentou-se ao lado da cama, as mãos apertadas no colo, os olhos fixos no movimento irregular do peito dele. Cada inspiração era uma vitória silenciosa. Cada pausa, um medo renovado.

— Disseste que estarias ao meu lado — sussurrou, inclinando-se para mais perto. — Não te atrevas a quebrar isso agora.

A madrugada avançou lentamente. O castelo dormia, exausto, enquanto ela permanecia ali, vigilante, recusando-se a ceder ao cansaço.

Quando ele se mexeu, foi quase imperceptível. Um leve franzir da testa. Um gemido baixo.

Ela endireitou-se de imediato.

— Estou aqui — disse, antes mesmo de ele abrir os olhos.

Ele tentou falar, mas a voz não saiu. Os olhos abriram-se por um instante, confusos, procurando algo.

Encontraram-na.

— Vencemos — murmurou ele, com dificuldade.

Ela sorriu, as lágrimas finalmente a escapar.

— Eu sei. Mas isso não importa agora.

Ele tentou mover-se, falhou. O corpo não obedecia.

— Pensei… — começou, mas o esforço fez-lhe perder o fôlego.

Ela pousou-lhe a mão no peito, firme, impedindo-o de continuar.

— Descansa — ordenou, com uma ternura que não escondia o medo. — Lutaste o suficiente por hoje.

Ele fechou os olhos novamente, mas desta vez com a certeza de que não estava sozinho.

Ela ficou ali, a segurar-lhe a mão, enquanto o amanhecer começava a clarear as janelas altas do castelo. A guerra podia ter terminado no campo de batalha, mas ali travava-se outra silenciosa, paciente, feita de espera e esperança.

E ela estava preparada para não abandonar esse combate.