Sobre a Armadura
7 A Febre
A febre não chegou de repente.
Instalou-se devagar, como tudo o que a vinha a quebrar por dentro. Primeiro foi o cansaço que não passava, depois o frio que persistia mesmo junto à lareira acesa. A princesa dizia que era apenas exaustão, que o corpo estava a reagir aos dias de tensão e noites mal dormidas. Mas o cavaleiro percebeu antes de todos que algo não estava bem.
Foi numa madrugada silenciosa que a encontrou sentada na cama, os joelhos junto ao peito, a respiração curta. O rosto estava pálido, os olhos demasiado brilhantes.
— Não devias estar acordada — disse ele, aproximando-se.
— Não consigo dormir — respondeu ela, a voz baixa, rouca. — Tudo dói quando fecho os olhos.
Ele pousou a mão sobre a testa dela sem pensar. Retirou-a de imediato, como se tivesse tocado em algo proibido, mas o calor era inegável.
— Estás a arder.
Ela tentou sorrir.
— Sempre disseste que eu exagerava.
O cavaleiro virou-se e chamou os criados, mas a sua atenção nunca se afastou dela. Quando regressou com panos húmidos e ervas, a febre já lhe fazia tremer o corpo.
— Não faças isso — murmurou ela quando o viu a ajoelhar-se ao lado da cama. — Não me olhes assim.
— Como?
— Como se eu pudesse desaparecer.
Ele não respondeu. Limitou-se a passar o pano fresco pelo rosto dela, com uma delicadeza que contrastava com a dureza da armadura. Cada gesto era medido, contido, como se o simples toque fosse um compromisso que não se atrevia a assumir por completo.
A febre trouxe-lhe delírios leves. A princesa murmurava palavras soltas, memórias de infância, o nome da mãe, fragmentos de conversas antigas. Por vezes chamava pelo pai, mas a voz nunca encontrava resposta.
— Ele não vem — murmurou numa dessas vezes, os olhos semicerrados. — Nunca vem.
O cavaleiro sentiu o peso daquela frase como um golpe silencioso. Apertou o pano entre os dedos, controlando a respiração.
— Estou aqui — disse, baixinho. — Descansa.
Ela abriu os olhos por um instante, focando-o com dificuldade.
— Sempre estiveste — sussurrou. — Mesmo quando ninguém mais esteve.
A febre agravou-se durante a noite. O calor do corpo dela era excessivo, quase assustador. O cavaleiro não saiu do quarto. Retirou a armadura peça por peça e ficou ali, sentado numa cadeira dura, vigiando cada respiração, cada movimento involuntário.
Quando ela começou a tremer de frio, foi ele que a cobriu melhor. Quando gemeu de dor, foi ele que lhe segurou a mão, mesmo sabendo que não devia.
— Não vás — pediu ela, sem abrir os olhos.
— Não vou.
— Promete.
Ele fechou os olhos por um breve momento.
— Prometo.
Ao amanhecer, a febre começou finalmente a ceder, deixando para trás um corpo frágil, exausto, mas vivo. O cavaleiro permaneceu imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar aquele frágil equilíbrio.
Ali, entre paredes de pedra e lençóis ensopados de suor, algo se alterara de forma irreversível. A doença não tinha sido apenas do corpo. Fora também do silêncio, da rejeição, do abandono acumulado.
E ele compreendeu, com uma clareza dolorosa, que já não era apenas um cavaleiro a cumprir um dever.
Era alguém que ficaria mesmo quando tudo o resto partisse para a guerra.
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