Valverde, 18 de abril de 2017

Por alguns instantes, surpresos, a respiração suspensa, Lara e Carlos ficaram parados frente a frente, sem saber o que fazer, até ela se lembrar de respirar e estender a mão em um cumprimento.

— Muito prazer em conhecê-lo, Carlos.

Ele vacila por infinitos segundos e faz o mesmo. Estende a mão, depois de tanto tempo, as peles se tocam em um fugaz e rápido movimento.

— O prazer é todo meu — Relutantes, as mãos deslizam para se soltarem e caírem inertes ao lado do corpo.

Por sorte, um garçom passa servindo bebidas, mesmo sem saber o que eram, aceitam, em um movimento sincronizado levam o copo a boca e sorvem um grande gole, aliviando a garganta seca. Lara aperta o copo com força para disfarça a mão tremula, sentindo o vidro gelado. Felizmente, ninguém percebeu o constrangimento deles, pois, quem poderia imaginar o que aconteceu entre eles, no último verão em uma linda cidade da Catalunha.

— Carlos, eu já falei de Lara para você, a minha amiga corajosa, que não teve medo de enfrentar o mundo e ir embora dessa cidade – Roberta relata, animada.

— Não exagere, Roberta, só fui atrás dos meus sonhos – Lara retruca desviando o olhar para a amiga.

— Quantas mulheres fazem isso? – Roberta rebate.

— Você fez isso, Roberta. Afinal, vai se casar com um homem maravilhoso – uma mulher mais velha afirma.

— Sim, é verdade. Mas, foi muito difícil convencer Carlos a se casar comigo, me deu muito trabalho, precisei ser bastante persistente.

— Com licença, estou vendo algumas pessoas ali, que não falo, há muito tempo — Lara deu uma desculpa para se afastar.

— E quanto a você, querido. Vamos circular e cumprimentar os nossos convidados – Roberta se pendurou no braço do noivo e saíram para salão.

O desejo de Lara era sair dali correndo, ir embora daquela cidade e nunca mais voltar, mas não podia fazer isso por causa dos seus pais. Porém, podia inventar uma desculpa e fugir daquela festa. Naquela enorme casa, ela encontrou um canto solitário, uma pequena saleta, para se esconder e apaziguar sua mente confusa. Lembrou-se do copo esquecido na sua mão e tomou um grande gole da bebida adocicada e enjoativa.

— Olhe quem eu achei aqui, sozinha – Só faltava essa para piorar a noite, quando Ricardo a encontrou.

Ele podia ter envelhecido um pouco nesses últimos anos, porém, ainda tinha a bela figura que encantou aquela adolescente há tempos, alto e másculo, com seu queixo quadrado erguido, o olhar duro de quem não admitia ser contrariado.

— Eu já estou indo – Lara se apressou para não ficar ali, sozinha, com ele.

— Por favor, Lara, não vá. Você não sabe como senti saudades suas.

— Ricardo, pare com isso. Aquela história foi um erro. Eu era uma menina boba, encantada por ter sua atenção — ela sussurrou.

— Você era um anjo inocente, mas, agora é uma mulher. Uma mulher linda e sexy, que eu desejo muito, você não sabe o que poderia fazer para tê-la, eu te daria o que quisesse.

— Para ser sua amante? Não, obrigada. Eu tenho outra vida, longe daqui e sou feliz.

Antes que Ricardo abrisse a boca, um rapaz de cabelos escuros, alto e magro entrou. Tio Ricardo, a tia Joana está chamando senhor para começarem a servir o jantar e os brindes.

— Já estou indo, Reginaldo – o homem respondeu, contrariado, dando uma última olhada para Lara ao deixar o lugar.

— Reginaldo, você se lembra de mim? – Lara pergunta com ar divertido.

— Por favor, Regis. Claro que eu me lembro, Lara! Você é minha inspiração! Fugindo desse lugar, fazer o que quis fazer.

— Eu não sou inspiração para ninguém, só precisei ir embora.

— Eu sei – Ele olhou para a porta, por onde o tio saiu, Lara imaginou se ele saberia de alguma coisa do passado dela. – Mesmo assim, você se libertou e não precisa fingir ser o que não é.

— Por que você precisa fingir?

— Porque só o mais perto do filho homem que meu tio sempre quis ter, mas não sou exatamente o que ele desejava.

— Nunca somos.

— Talvez, o novo genro dele. Você viu o cara? Que homem... Desculpe, não devia dar tanto na cara

— Quanto a mim não tem problema nenhum – Lara deu de ombros.

— Imagino. Por quanto tempo você ficará por aqui?

— Não sei, mas vou embora assim que puder.

— Que pena! Mas, podíamos sair algum dia para conversar, para você me contar as novidades do mundo de lá. Agora, preciso ir para assistir toda aquela cafonice e puxação de saco. Por que não vem comigo? Assim todo mundo vai ficar feliz por eu ter uma mulher nos braços, mesmo sendo de mentirinha.

Barcelona, 16 de julho de 2016

A claridade de um novo dia invade a janela, Lara desperta, se espreguiça, a seu lado, Carlos ainda dormia profundamente. E agora, o que aconteceria? Poderia esperar ele acordar, se despedir e dizer como foi bom, o que era a pura verdade, e rezar para que ainda achasse a sua vaga livre no albergue. No entanto, nesse momento, precisava ir urgentemente ao banheiro. Pegou a camiseta dele caída no chão e vestiu, era quase um vestido, e correu para se aliviar. Lavou o rosto, achou uma pasta de dente esquecida no armário, deu uma geral. Quando saiu, encontrou Carlos, sentado na cama, ainda zonzo de sono, esfregou a cabeça.

— Eu pensei que você tinha ido embora – ele falou com a voz arrastada.

Por um instante, ela refletiu naquela frase. Era isso ela já deveria ter partido, foi só uma relação prazerosa e fugaz, que não precisaria se alongar mais.

— Eu já estou indo – Lara não conseguiu disfarçar o seu incômodo.

— Não, por favor, não me entenda mal – ele se levantou em um pulo, nu diante dela. – Eu não quero que vá embora.

— Mas, já está na hora de eu ir.

— Por quê? Por que não fica aqui comigo?

Ela foi pega de surpresa com aquela proposta.

— Assim tão de repente? Nós mal nos conhecemos.

— Pelo que você me disse, também, não conhecia seus colegas de apartamento em Madrid.

— Era diferente, eu não dormir com eles.

— Melhor para mim. Fique comigo, Lara.

Ela ficou indecisa, pois aquilo seria uma loucura, dividir o apartamento e a cama com um homem que conheceu no dia anterior, mas, ela era uma garota corajosa, nunca deve medo de desafios. O que poderia acontecer de pior? Só ela ter que encontrar outro lugar para ficar. Nesse momento, ela não sabia que o pior que poderia acontecer era se apaixonar.

— Eu fico – ela se decidiu, ele deu um passo à frente, a ergueu no colo e se atiraram na cama, entre beijos e carícias.

Horas depois, os estômagos esquecidos reclamaram.

— Não podemos ficar o dia inteiro na cama, por melhor que seja – Lara determinou.

— Por que não? – Carlos rebateu, Lara o encarou franzindo a testa. – Eu sei, precisamos conhecer a cidade. Aonde deseja ir, senhorita?

— Que tal o parque Güell, depois a La Barceloneta, na praia?

— O que a senhorita quiser, você fez de mim um seu escravo.

Levantaram-se preguiçosamente, com uma vontade de ficar na cama. Na geladeira, Lara encontrou ovos, presunto, cebolas e pimentões, deixado ali para os hóspedes, fez uma omelete que havia aprendido com seus amigos em Madrid, comeram com café. Juntos arrumaram a cozinha, se aprontaram e saíram a rua.

Se perderam na exuberante arquitetura do parque Güell, com seus mosaicos de azulejos, colunas inusitadas e as casinhas de açúcar na entrada.

— Sabe o que essas casas me fazem lembrar? – Carlos olhava para ela pensativo.

— Não.

— A história de João e Maria. Parecem serem feitas de doce, paredes de biscoitos enfeitadas de confeitos e glacê colorido – Lara riu da ideia, contudo não dava para negar que ele estava certo.

Mais tarde, ao anoitecer, caminharam junto amar Mediterrâneo, jantaram em um restaurante ali mesmo, voltaram correndo para o apartamento para mais uma sessão de exploração recíproca, entre os lençóis da cama.