Barcelona, 17 de julho de 2016

— Por que, simplesmente, não nos esquecemos desse seu roteiro e nos perdemos pela cidade, Lara? – Carlos propôs, alongando-se, naquela manhã, durante o café.

— Eu não sei, tem tantos lugares que quero conhecer.

— Vamos conhecê-los. Mas se, de repente, toparmos sem querer com algum deles, terá o elemento surpresa, será mais emocionante.

— Sendo assim, podemos nos perder pelo bairro gótico.

Então eles fizeram, andaram pelas estreitas ruas pedras ladeadas por prédios antigos de paredes escuras e lojas, algumas delas centenárias. Por vezes, as vielas se abriam em praças quadradas, com uma igreja em estilo gótico ou era cercada de restaurantes com mesas na calçada e um chafariz no meio. Paravam sem presa para admirar as cerâmicas de motivo mourisco, a loja de fantoches, tomaram sorvete de casquinha, que escorriam pelas mãos devido ao calor intenso.

Sob uns arcos, encontraram o museu de Picasso e foi durante a visita, que um mero detalhe chamou a atenção dela, ao descobrir a diferença de idade entre o maduro artista de 45 anos e sua jovem amante, Marie-Thérèse, na época com 17 anos, Lara revelou:

— É fácil para uma garota se apaixonar por um homem mais velho, carismático, que tem um mundo a lhe apresentar – falava em voz baixa, quase para si mesmo. Carlos não disse nada só esperou – Você está tão cheia de sonhos, no auge da juventude e da vida, então, ele a percebe, nota como você desabrochou, se tornou uma mulher. Para ele, você é a fonte da juventude, que o faz sentir ainda vivo. Para você, ele é a revelação da sua sexualidade, do seu poder de sedução, sentindo-se desejada como uma verdadeira mulher.

— Isso foi com você? — Carlos indagou com cuidado. Ela assentiu com a cabeça. — E você, ficou com esse homem mais velho?

Ela sacudiu a cabeça em negação.

— Bem que ele queria, mas, aí eu percebi os problemas que aquela situação implicaria. Além de ser a morte dos meus sonhos. Eu queria sair da minha cidade, ser alguém diferente da minha mãe e da minha avó. Quebrar o ciclo, sabe?

Carlos assentiu com a cabeça.

— Sim, eu sei, e isso exige muita coragem e determinação. Lara, vamos para casa, eu quero fazer amor com você.

Valverde, 18 de abril de 2017

Em uma das mesas distribuídas pelo gramado, transformado em um elegante cenário de festa, Lara estava sentada, junto a Regis, ouvindo aquela sequência de baboseiras sobre compromisso, fidelidade e amor eterno, testemunhando o sorriso radiante de Roberta, ao lado daquele homem. Não queria, no entanto, seus pensamentos voaram para o ano anterior, para a cidade na Espanha, onde por alguns dias foi feliz.

— Para mim, já chega, vou embora – cochichou no ouvido do seu acompanhante.

— Não vai ficar para o jantar? No mínimo, ficaria estranho, você se levantar e ir embora desse jeito, no meio dos discursos. Você sabe? Cidade pequena, olhos atentos e línguas afiadas – ele rebateu no mesmo tom.

Regis estava certo, seria bem estranho, ela se levantar e sair antes do jantar, abruptamente, assim, resignou-se, colocando um dissimulado sorriso no rosto e palavras vazias na sua boca. Volta e meia, durante o jantar, seus olhos perturbados se encontravam com os de Carlos. Afinal, o que ele queria dela? Ele deveria saber a resposta.

— Se a festa de noivado foi assim, imagine a de casamento – a mulher do delegado, sentada, ao lado dela, comentou, sem disfarçar a pontinha de inveja.

— Um tanto exagerado – respondeu, sem pensar.

— Para quem pode – ela deu de ombros. — Pena que o noivo é órfão de pai e mãe e ninguém da família dele pode comparecer à festa, mas espero que algum parente vá ao casamento.

— Eles morreram há pouco tempo? – Lara ficou espantada com aquele fato.

— Não, muitos anos — Lara estranhou a resposta, pois Carlos havia lhe contado que o pai era médico e moravam em outra cidade. Estaria mentido?

Pelo menos, ela tinha a companhia de Regis ao seu lado, ele era bastante divertido, bem diferente do garoto tímido, dois ou três anos mais jovem, que conheceu na adolescência.

No fim do jantar, ela se virou para ele,

— Agora, eu posso ir embora?

— Agora, sim, é seguro. Eu levo você.

— Não precisa, você vai perder a festa.

— É essa a minha intenção. Não aguento mais tanta feliz. – Ele revirou os olhos e lhe ofereceu o braço, e saíram à francesa.

No estacionamento, um manobrista trouxe uma picape enorme.

— Esse carro não combina com você – Lara declarou, enquanto entraram nele, Regis liga o motor que ronca, furiosamente, e se afastaram da casa, para dentro da noite, sinto um peso sair da minha alma.

— Presente do meu tio. Eu nunca compraria algo assim para mim.

— Você acha que seu tio não desconfia da sua opção?

— Eu não sei, talvez, saiba e finge não saber.

— Quem sabe com o casamento, Ricardo tire a carga de ser o macho da família de cima de você.

— Engraçado você chamá-lo assim de Ricardo, com tanta intimidade. Quase ninguém faz isso, aqui nessa cidade.

Ele a pegou em um pequeno deslize, precisaria ter cuidado no futuro, não queria despertar suspeitas, reavivar o velado falatório do passado, porém, nunca ninguém teve certeza de nada. Lara ignorou o comentário.

— Então, como é a relação do seu tio com o futuro genro?

— Boa, mas Carlos não parece muito interessado nos negócios da família. Ele tem sua própria vida. O coitado não sabe onde está se metendo. Mesmo assim, ele não é da família, esse negócio de sangue.

— Eu tenho um monte de amigos interessantes, que aposto, que você adoraria conhecer e vice-versa. Por que não vem me visitar na minha cidade?

Ele lhe deu um sorriso travesso.

— Pensei que sua cidade fosse essa?

— Você me entende, não é mais – Lara deu de ombros.

— Sim, eu entendo, mas como explicaria as minhas visitas a você? – Ele rebateu, desanimado.

Ela parou, pensativa, por alguns segundos.

— Pode ser uma ideia maluca, mas se nós fingimos que estamos namorando, assim teria uma boa desculpa para me visitar.

— É uma história maluca mesmo, mas pode até dar certo, desde que não precise dormir com você.

Ela deu uma gargalhada.

— Não você não vai precisar dormir comigo, Regis.

— Ótimo. Mas, por que está fazendo isso para mim?

— Porque sei exatamente como se sente. – Ele virou ao rosto para ela e a interrogou com o olhar – Sem saída – Lara respondeu com um sorriso triste.