Sobre Nós Dois
5 Românticos
Barcelona, 18 de julho de 2016
Eles acordaram com o som insistente do telefone de Carlos, que olhou para a tela, e saiu de perto dela para atender, falava baixo para não ser ouvido. Mesmo fingindo não se importar, Lara se importou, imaginando o que aquilo significaria, por que do segredo. Deu de ombros, afinal, deveriam ser assuntos particulares dele e quem era ela para se meter ou cobrar alguma coisa, já que só se conheciam há apenas três dias, mesmo que parecesse que foi durante todas as suas vidas. Depois, Carlos retornou para quarto, com um sorriso triste, colocou o telefone na mesinha do lado e voltou para o lado dela na cama, a envolvendo em um abraço. Ela segurou a vontade de perguntar quem era, quando as bocas se juntaram para mais um beijo apaixonado. Ele a devorava como se fosse a última vez, entre beijos possessivos e carícias indecentes, quase bruscas.
— Eu queria que pudéssemos viver assim para sempre, eu, você e Barcelona.
— O que houve? Aconteceu alguma coisa errada?
— Não, só que a responsabilidades da vida real tocam, despertando-o, pela manhã, e você percebe que seu sonho está terminando. Mas, ainda temos esse tempo só para nós dois, por isso, quais são os planos para hoje?
— Podemos ir as casas Batlló e Mila e depois, andar por aí. Que tal irmos à praia mais tarde?
— Eu só quero ficar com você. O que acha de jantarmos em um restaurante bem romântico e sair para dançar depois?
— O que deu em você, assim, tão de repente? – Ela sorriu, divertida.
— Só estou um pouco romântico, hoje. A lua deve estar cheia.
No céu, a lua realmente estava cheia, como eles constataram, sentados na areia fina da praia, sentindo a brisa do mar na pele aquecida, ao longe, ouvia-se uma música alegre vinda de algum lugar. Na calçada, logo ali adiante, as pessoas andavam de um lado para outro, sem mais nada a fazer, aproveitando o começo da noite.
Em um pequeno restaurante, de paredes vermelhas, a luz de velas, ao som de emocionado violão, eles jantaram e tomaram muito vinho. Mais tarde, foram dançar, voltaram para casa ao amanhecer, entorpecidos pela vida.
Valverde, 19 de março de 2017
Ao sair do carro, em frente da sua casa, Lara não pode deixar de olhar para o céu, era lua cheia. Que ironia! Entrou na casa paterna, silenciosa e escura, tirou os sapatos de saltos altos para evitar o ressoar no antigo chão de madeira. Pensou na proposta que fez para Regis, uma vingança a todo mal que lhe fizeram, ao passar pelo corredor a porta do quarto dos pais se abre e a mãe surge através dela, um velho hábito que ela não perdeu.
Ela saiu e fechou a porta atrás de si, para evitar acordar o marido.
— E aí, como foi? A festa estava bonita? – a mãe perguntou com falsa casualidade.
— Muito bonita, eles têm bastante dinheiro para gastar.
— E tudo correu bem?
— Você quer saber se Ricardo se aproximou de mim? – A mãe não respondeu, no entanto, Lara podia se ver a expectativa nos olhos. – Sim, ele se achegou, com aquela velha história, mesmo depois de tanto tempo.
— Ele sempre tem tudo que quer, não está acostumado a ouvir não.
— O pai melhorando um pouco, eu vou embora daqui, por algum tempo. Se pudesse nunca mais voltava, ainda mais agora.
— Por que agora?
— Nada. Vou dormir, mãe. Boa noite. – Lara deu um rosto na face sofrida da outra mulher e foi para o seu quarto da juventude.
Tirou a roupa com cuidado e colocou sobre a cadeira. Deveria ir embora. Soltou os cabelos. Sabia que seria mais um tormento para mãe, imaginar o que Ricardo poderia fazer com ela. Vestiu a camisola. E a mãe nem sabia que o seu antigo amante, seu amor, sua desilusão estava bem ali, preste a se casar com sua antiga amiga. Sentou-se diante do espelho da antiga penteadeira, que havia sido da sua avó, e começou a tirar a maquiagem, sem muita atenção. Mantendo a rotina, fingindo que estava tudo bem, no entanto, as imagens dos Carlos misturavam-se na sua cabeça. O dissimulado amante amoroso de Barcelona, que a envolveu com tantas mentiras, e o noivo idealizado de fascinada Roberta.
Era melhor tentar dormir um pouco, precisaria de energia para enfrentar a manhã seguinte. Por ela, ficaria o resto da sua estada dentro de casa sem colocar o pé na rua.
Contudo, os problemas vieram a encontrar mais cedo do que ela esperava, na porta da sua casa. Lara havia acabado de levantar, a noite passada lhe parecia só um sonho ruim, mas o vestido sobre a cadeira confirmou a realidade, foi quando sua mãe veio avisar:
— O sobrinho de senhor Hernández está aí fora, procurando por você, Lara – Sua mãe veio avisar um tanto ressabiada.
— Quem? Regis?
— Sim, acho que é esse o nome dele.
Lara foi até ele e o encontrou encostado no seu carro, usando uma roupa elegantemente casual e óculos escuros.
— Regis, o que faz aqui tão cedo?
— Eu vim avisá-la, que somos oficialmente namorados – ele falou, satisfeito.
— Mas, assim tão rápido? – Ela foi pega de surpresa, não esperava que ele levasse aquela proposta tão a sério.
— Por que está decepcionada? A ideia foi sua.
— Eu não estou decepcionada, só que foi muito inesperado, eu pensei que levaria essa história mais devagar.
— Eu também pensei, mas Roberta ficou me enchendo a paciência, depois que voltei para a festa, queria me empurrar para uma amiga dela, então, deixei escapar que ficamos juntos, ontem à noite, e que parecia ser sério.
— E como ela reagiu?
— Ficou, literalmente, de queixo caído. Minha tia adorou, mas o meu tio não pareceu gostar muito, não sei porquê. Por isso, eu vim pegá-la para almoçarmos com a família no clube.
— Não, isso não. Não vou almoçar com a sua família.
— É muito não em uma sentença só. Você tem que fazer isso por mim, senão vou passar por mentiroso.
Lara considerou por alguns segundos, afinal, ele tinha razão, aquela ideia idiota fora dela, não podia pular fora e deixar o rapaz nessa enrascada.
Teria que enfrentar a família Hernández e seus agregados da melhor maneira possível.
— Sua tia e o marido virão almoçar conosco hoje – a mãe comunicou, limpando as mãos no avental, quando saía da cozinha.
— Eu lamento mãe, mas vou almoçar no clube com Regis – revelou, meia verdade, em um tom casual.
— Você vai almoçar com o sobrinho de Ricardo Hernández?
— Sim, somos amigos.
— Lara, você já percebeu onde está se metendo. Não precisamos que a história se repita.
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