Sobre Nós Dois
21 Sozinhos
Barcelona, 16 de julho de 2016
À noite que iniciava, tingindo de púrpura o horizonte, os últimos e teimosos remanescentes frequentadores da praia já recolhiam os seus pertences.
— Podemos jantar por aqui antes de voltar para casa, em um dos restaurantes da rua principal, me disseram que tem uma paella muito boa – Carlos propôs, enquanto limpava a areia do corpo.
— Desculpe-me por hoje mais cedo, Carlos. Eu não queria ser grossa, só não gosto de falar do passado, quando só quero esquecer, deixar para lá.
Ela havia ficado chateada por julgar ter sido áspera com Carlos.
— Eu entendo há fatos do passado que só queríamos esquecer, no entanto, eles ficam esvoaçando sobre nossas cabeças como moscas, não nos deixam em paz.
— Você também tem fatos que quer esquecer, Carlos?
— Todo mundo tem, mas eu não quero esquecer de nada. Isso me impulsiona para frente.
— O quê? O rancor?
— Não, à espera da justiça.
— Qual justiça? A divina? Pois pode esperar sentado – Lara rebate com sarcasmo.
— Chega dessa conversa! Apenas vamos aproveitar o presente, comendo uma boa paella com um bom vinho – Carlos conclui.
Valverde, 23 de março de 2017
Ricardo entrou pela sala, com ar soturno, pisando forte, visivelmente irritado, foi até o bar e encheu o copo com uma boa dose do seu uísque doze anos e tomou um longo gole, olhando o vazio.
Logo depois, Joana apareceu e sorriu para o marido.
— Onde você estava, Ricardo? – perguntou de forma educada.
— Andando por aí – respondeu bruscamente, Joana ficou olhando para o marido, esperando algo mais, mas a sua atenção foi desviada para Carlos e Roberta que descendo a escada juntos.
— O que esses dois estavam fazendo lá em cima? – Ricardo interrogou a mulher, sem disfarçar sua raiva.
— Calma, Ricardo! Eles estão noivos, logo estarão casados – Joana falou, apaziguadora.
— Eu não quero desrespeito na minha casa. Entendeu, Joana!
— Pode deixar, eu falo com nossa filha depois, Ricardo. Mas, por favor, não trate mal o noivo dela. Agora, vamos almoçar. Onde está Regis? — Joana perguntou quando Carlos e Roberta se aproximaram.
— Ele saiu logo cedo, já deve estar voltando — Roberta respondeu, dando de ombros.
— Esse garoto não para em casa desde que começou a namorar Lara — Joana observou, enquanto Ricardo virou o restante do conteúdo do copo na sua boca.
— Vamos almoçar – o homem determinou de modo duro.
O clima durante o almoço estava pesado, quando Régis chegou sorridente,
— Começaram sem mim?
Tomou um lugar à mesa e já começando a se servir.
— Você estava com Lara? – Roberta perguntou a primo.
— Não, sai com uns amigos, mas vou trazê-la aqui hoje à noite, para conversarmos.
— Por quê? – Joana perguntou.
— Porque não temos nada melhor para fazer nessa cidade à noite – Regis respondeu, dando de ombros.
— Talvez, sim, pois, afinal, Lara é uma garota de cidade e não deve estar presa a falsas convenções – Roberta provocou em tom ácido.
— Querida prima, a minha intimidade com minha namorada não é assunto para ser comentado durante um almoço de família – Regis rebateu com um tom dissimuladamente angelical.
— Mas, quer dizer que vocês ainda não fizeram nada? – Roberta insistiu.
— Por favor, Roberta, pare com isso – Carlos pediu sussurrando.
— Mas... – ela tentou.
— Roberta, pare! – A voz de Ricardo soou alto, todos se calaram diante do brado do patriarca — Seu primo tem razão, isso não é assunto para se falar à mesa – completou, abaixando o tom de voz.
Ficaram em silêncio, olhando para seus pratos, só falando o essencial o resto da refeição.
Aproveitando o frescor da noite tediosa, à beira da piscina da casa, o grupo de rapazes e moças conversavam despretensiosamente, quando Régis e Lara chegaram, com um cumprimento geral.
— Vocês demoraram! — Roberta reclamou.
— Não sabíamos que tínhamos marcado um horário, querida prima – Régis respondeu em tom sarcástico.
— Deixe eles em paz, talvez estivessem ocupados de outra forma – uma das amigas de Roberta cujo nome Lara não se lembrava se intrometeu de um jeito malicioso. Régis deu um olhar ferino para ela. Enquanto, Lara sentava em uma cadeira próxima à de Felipe, para que Régis ficasse ao lado dele.
— Pois é, hoje pela manhã, eu e Carlos também estivemos muito ocupados discutindo nosso casamento – Roberta revelou de forma maliciosa, estendendo a mão para acariciar o braço do noivo.
— E o que tio Ricardo achou disso? – Regis ficou surpreso, pois conhecia muito bem as regras da casa.
— Papai não estava em casa.
— E quando o gato saí, os ratos fazem a festa. Mas e a história da virgindade – Régis completou.
— Se quer saber, querido primo, subirei pura como um bebê ao altar — Roberta falou, orgulhosa, Régis ergueu a sobrancelhas.
— Prove isso! — Felipe estendeu encheu dois copos com bebida rosada com frutas flutuando dentro de uma jarra. — É sangria. Carlos faz uma muito boa – ele explicou lhes entregando os copos.
— Muito boa mesmo! – Lara concordou, depois do primeiro gole.
— Ele aprendeu quando esteve na Espanha, ano passado — Roberta explicou.
Institivamente, seus olhos procuraram pelos dele, sentando próximo a noiva.
— Realmente, está muito boa, parabéns, Carlos – Lara fala direto para ele.
— Obrigado, eu tive um bom professor – E sorriu, pois, havia sido Lara que o ensinou a fazer a bebida.
Tiveram que lutar para desviar o olhar um do outro. Carlos maquinava como poderia falar com Lara a sós, teria que ficar atento, esperar um desvio de atenção para se aproximar dela, para apenas lhe fazer uma pergunta.
Estranhamente, quando ao lado de Felipe, Régis se tornara bastante tímido, respondendo as provocações da prima apenas com monossílabos. Ao mesmo tempo que a amiga de Roberta, Paula, mostrava pernas e jogava os cabelos para chamar a atenção do rapaz que parecia não notar aquela tentativa de sedução, enquanto a conversa rolava em torno de assuntos superficiais.
— Quando será mesmo o casamento, Roberta? – Lara perguntou, quase para provocar Carlos.
— Será no dia 16 de setembro. Eu faço questão que venha, Lara.
— Não perderia isso por nada desse mundo – disse, um tom falsamente animado.
Então, Ricardo chegou já com um copo na mão, parou junto ao grupo e cumprimentou a todos, com um formal boa-noite, imediatamente, o clima mudou, todos ficaram mais rígidos diante dele.
— Quer uma sangria, pai? Foi Carlos que fez – Roberta perguntou de forma educada.
— Não, prefiro bebida de homem – E mostrou o copo de uísque na mão.
— Mas, é bastante refrescante, ideal para uma noite quente como essa, senhor Hernández – Lara não conseguia ficar de boca fechada, queria provocar, mostrar-lhe que não se sentia intimidade diante dele.
Todos olharam para ela, inclusive, Ricardo, querendo disfarçar sua expressão de surpresa por Lara tratá-lo de um modo tão formal.
— Fica para a próxima, Lara. Não quero mistura – ele abaixou o tom. — Boa noite a todos.
— Você vai sair? – Roberta perguntou.
— Sim, vou dar uma volta por aí, para ter sono – Ricardo respondeu, deu as costas e se afastou.
— Não demore, pai!
— Ele é seu pai e não seu filho, Roberta — Carlos disse, surpreso.
— Ela está com ciúmes, porque ele pode estar procurando uma puta para transar— Regis falou direito, provocando, Roberta ficou vermelha de raiva.
— Tenha mais respeito, Regis — Roberta falou entredentes, cruzados os braços e fechando a cara.
— Vou até o banheiro — Lara levantou e entrou na casa.
— Eu vou fazer mais disso aqui, para acalmar os ânimos — Aproveitando a deixa e a jarra quase vazia de sangria, Carlos mostrou e sacudiu no ar.
— Deixe que eu ajudo você, querido – Roberta se ofereceu, já se erguendo, mas Carlos a impediu.
— Não precisa, querida. Talvez, eu precise fazer mais um pouco.
E entrou na casa, disposto a interceptar Lara na saída do lavabo, conseguiu.
— O que você está fazendo aqui, Carlos? Sua noiva vai sentir sua falta – falou em tom ferino.
— Queria saber como você está?
— Por quê? Por hoje de manhã? Eu estou muito bem, mas pelo que parece, você está melhor ainda. Duas só em uma manhã, principalmente, depois do que fizemos naquela cachoeira – falou com ironia.
— Eu e Roberta? Não houve nada entre nós.
— Não foi o que ela disse.
— Por favor, Lara, vamos até a cozinha, não há ninguém lá, agora, e podemos conversar e teremos uma boa desculpa – e mostrou a jarra vazia a ela.
— Não preciso de desculpa, não quero conversar com você.
— Por favor, Lara!
Ela vacilou por um breve instante, devia recusar, dizer não e sair ao encontro dos outros, no entanto, queria muito ficar perto dele, mesmo sem nenhum gesto de carinho, mas só a sua presença a deixava feliz, mesmo achando errado, assim o seguiu em direção à cozinha, que estava vazia àquela hora da noite.
— Você fez de propósito, não foi? – ela comentou, quando se viram isolados.
— O quê?
— A sangria. Ele lembra nós dois e Barcelona.
— Eu não quero esquecer.
— É muito cinismo da sua parte, estar falando isso na casa da mulher com quem vai se casar.
A vontade de Carlos era envolver Lara nos seus braços e beijá-la, sentir o cheiro dos seus cabelos, a textura da sua pele, mas não podiam se arriscar, não naquela casa.
— Eu queria beijar você agora – ele murmurou, assim que se sentiram seguros.
— Não podemos, não nessa casa – ela respondeu no mesmo tom.
— Eu sei – disse, resignado — Ajude-me a refazer a sangria, você faz melhor do que eu. A bebida e as frutas estão na geladeira.
Sorriam enquanto trabalhavam juntos, por um lacônico instante, foram remetidos para outra cidade, há quase um ano atrás, um pequeno momento de felicidade congelado no tempo.
— Sabe onde o meu futuro sogro pode estar agora? – Carlos indagou. Ele precisava estragar tudo.
— Não e não quero saber – ela respondeu de um jeito duro.
— Com certeza, assediando outra menina para satisfazer seus desejos
— Eu já disse, que não quero falar sobre isso, Carlos – ela parou de picar a maçã e ainda com a faca na mão e olhou nos olhos.
— Por quê?
— Porque eu só quero esquecer.
— Se realmente quisesse esquecer, não estaria nessa casa, nesse momento.
— Talvez, eu tenha uma outra razão para estar – ela respondeu e os olhos dele dançaram pelo rosto dela, parando na boca, onde queria mergulhar a sua.
— Mesmo assim, o que ele faz está errado.
— Não podemos fazer nada para impedi-lo.
— Sim, podemos. Está errado!
— O que está errado? — Eles se assustaram ao ouvir a voz de Roberta atrás dele, se voltaram e a encontraram com uma expressão de interrogação.
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