Sobre Nós Dois
22 Esquecida
Barcelona, 17 de julho de 2016
— Está boa, mas podia ser melhor – Lara declarou, colocando o copo de sangria sobre a mesa de um restaurante na praia.
— Para mim, está muito boa. Quer dizer que a senhorita é uma expert em sangrias? Onde adquiriu essa vasta experiência? – Carlos indaga de modo ácido.
— Não uma expert, mas tenho um amigo que faz uma excelente e me ensinou, posso ensiná-lo, se quiser.
— Devo ter ciúmes desse amigo? – ele a interrogou com uma expressão divertida.
— Se quiser, mas eu e Pedro somos apenas amigos — Lara deu de ombros.
— E quanto ao outro homem? – A expressão dele ficou mais séria.
— Que outro homem?
— O homem mais velho o qual me falou hoje, mais cedo?
— Não devia ter contado isso para você, era um segredo e, agora, você vai ficar me interrogando a todo momento.
— Claro, que devia, eu quero conhecer tudo sobre você, sobre a sua vida antes de mim.
— Por quê?
— Porque sim, eu não sei quem é esse homem e prometo que não vou julgá-la. Só estou curioso. Quantos anos você tinha quando se envolveu com ele?
— Quinze — Lara murmurou.
— Quinze! E ele?
— Uns quarenta e cinco ou mais? – Lara deu de ombros, como se não se importasse, mas olhando para as frutas que flutuavam sobre a bebida carmesim, ela as chocalhou com a colher e começaram a rodopiar em um rodomoinho.
— Mas, isso é um crime
— Agora, eu sei disso. No entanto, na época, eu não sabia, mas ele não me forçou a nada, pelo menos, não fisicamente. No começo, eu tinha um certo receio, ele era tão poderoso, o homem mais importante da minha cidade, da região. Com o tempo e paciência, ele foi me seduzindo e me envolvendo, então, eu cedi de livre e espontânea vontade, não tinha mais medo dele. Eu o amei de uma certa forma. Mas, sabia que era errado, pois ele me proibia de contar para todo mundo, ameaçava meus pais de uma maneira velada.
— Você ficou refém dele. Isso não era amor. Era uma doença, uma necessidade patológica, quando a refém acha que está apaixonada por seu carcereiro, isso, tem um nome, chamasse síndrome de Estocolmo, quando a vítima se sente ligada ao opressor — ele disse, olhando direto nos olhos dela, Lara desviou o olhar.
— Pode ser, mas, eu fugi e me esqueci de tudo, deixei para trás.
— Deixou mesmo, Lara?
Valverde, 23 de março de 2017
— O que está errado? — Roberta repete a pergunta, de queixo erguido e testa franzida, diante do silêncio dos outros dois, surpreendidos com sua chegada silenciosa, imaginando o risco que correram, há poucos segundos.
Imediatamente, Carlos acordou do transe e sorriu para a noiva e a envolveu em um abraço, para abrandá-la.
— Eu e Lara estávamos discordando a forma de fazer a sangria — ele explica de uma forma casual. — Encontrei com Lara e ela se ofereceu em me ajudar.
Aparentemente, Roberta se dá por convencida, seu sorriso se abriu.
— Vocês demorando demais.
— Já estamos terminando – Enquanto falavam, Lara finalizou a bebida e mostrou a jarra novamente cheia.
— Então, vamos lá para fora, os outros estão esperando — Roberta concluiu, puxando o noivo pela mão.
O trio saiu de volta para a beira da piscina, onde o restante do pequeno grupo os aguardavam e estenderam os copos vazios, ávidos, com expressões de felicidades.
— Sem dúvidas, a sangria de Lara está muito melhor — provocou Régis, depois de ficar a par da falsa disputa.
— Eu não acho, a de Carlos é muito melhor — Roberta rebate, dando um sorriso de conivência ao noivo.
Os adversários sorriem, complacentes, pois saber que a bebida foi feita exatamente igual a anterior.
Valverde, 24 de março de 2017
Já era de madrugada, quando Paula começou a se insinuar para Felipe para que ele a levasse para casa, o rapaz tentou se esquivar, mas não viu saída, então, gentilmente, ofereceu a moça uma carona.
— Você, também, poderia levar Lara para casa, Felipe? Acho que bebi um pouco demais — Régis pediu.
— Claro — Podia-se perceber o alívio na expressão do rapaz por não ter que ficar sozinho com a determinada garota que não gostou em nada disso.
Lara pressentiu que Régis fez de propósito para estragar os planos da sua concorrente, mesmo que achasse que nunca poderia ser um vencedor na conquista de outro rapaz, não queria dar chance a outra.
Após as despedidas, os três saíram em direção onde o carro do Felipe estava estacionado, nesse momento, cruzaram com Ricardo retornando do seu misterioso passeio noturno.
— Boa noite, senhor Hernández – cumprimentaram uníssono.
— Boa noite — respondeu ao grupo, passado direto, mas antes de entrar em casa, ele parou e ficou observando quando os mais jovens se afastavam.
Apesar da expressão de decepção de Paula foi a primeira a ser deixada em casa.
— Acho que eu atrapalhei os planos dela – Lara comentou em tom divertido, assim que ficou sozinho com Felipe, que deu um sorriso de cumplicidade.
— Às vezes, ela pode ser muito insistente, forçando a barra quando quer algo.
— E esse algo é você. Não podemos culpá-la por tentar, afinal.
Felipe deu um sorriso tímido.
— Valverde é uma cidade pequena, ela pode ficar muito exposta, mal falada mesmo.
— Eu sei bem o que é isso, sofri na própria pele, pelo menos, não estava aqui para ouvir.
— Eu admiro sua coragem.
Ou a minha covardia, Lara pensou.
— Temos que ter coragem para viver a vida do jeito que queremos, não da maneira que os outros querem.
— Não sei se teria essa coragem, enfrentar todo mundo pelo incerto.
— Mas, assim você poderá ao menos tentar ser feliz, mas se você se evadir dos seus sonhos, com certeza, nunca será, sempre ficará a dúvida. Sei que não é fácil, mas quem sabe, pode encontrar algum jeito.
— Bem se vê, que você não mora nesse lugar, há muito tempo, Lara. Não dá para esconder essas coisas por muito tempo.
— Você gosta de Régis, não é mesmo, Felipe? – Lara perguntou com segurança, certa da resposta. O rapaz a olhou espantado, pronto para negar, no entanto, desistiu, imaginando que poderia se abrir com aquela mulher.
— Está tão na cara assim? — quis saber, desanimado.
— Não, mas eu vivo em outra realidade, deu para perceber em alguns detalhes sutis, alguns olhares, porém não se preocupe, pois nem o próprio Regis percebeu. E sabe de uma coisa? Ele também gosta de você.
O queixo do rapaz literalmente caiu.
— Mas... mas ele está namorando você! – disse, assim que conseguiu articular algumas palavras, Lara riu.
— Isso, é apenas para despistar, uma fachada, ele estava planejando me visitar, para poder ficar um pouco mais livre, ser ele mesmo. Por que você dois não tentam se entender?
— Lara, eu não sou assim, eu não gosto de homem! – Felipe ficou ofendido.
— Desculpe, mas me pareceu que você gostava de Régis.
— Eu gosto dele, só que....
—Só que não pode assumir isso.
— Eu não sou gay!
— Se você diz... — Lara deu de ombros.
— Você sabe o que poderia acontecer comigo? Se eu ficasse com o herdeiro de Ricardo Hernández? Possivelmente, eu desapareceria do nada e nunca mais ouviriam falar de mim.
— Ricardo...quer dizer, o senhor Hernández não é tão terrível assim.
— Você está brincando?! Meu pai trabalha para ele e você não tem ideia de quantos desafetos dele desapareceram ou sofreram acidentes estranhos. Receio por mim e pela minha família.
Felipe tinha razão, não se podia quebrar as regras impunemente, naquele lugar e sair imune, como ela conseguiu, mesmo não sabendo se o castigo por sua rebeldia, fugindo de Ricardo, ainda estaria por vim. Foi exatamente o que pensava quando o carro parou na frente da sua casa.
— Obrigada pela carona, Felipe.
— Obrigado pela conversa. Foi bom se abrir com alguém, às vezes me sentia sufocado por guardar isso dentro de mim.
— Lamento não poder ajudá-lo mais.
— Não, você já fez o bastante. Só não comete com ninguém, nem com o próprio Régis.
— Pode deixar. Boa noite, Felipe.
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