Sobre Nós Dois
11 Inalcançáveis
Barcelona 22 de julho de 2016
Lara terminou de dar os últimos toques caprichosos na arrumação da mesa e na preparação dos pratos e, finalmente, o jantar romântico de comemoração de uma semana desde que se conheceram estava pronto. Era só esperar por Carlos, que havia saído para compra impreteríveis velas, que julgava essencial para o clima romântico. Pronta para entrar no banho, disposta a ficar bem bonita para a noite especial, Lara percebeu o som de uma mensagem recebida, Carlos havia esquecido seu telefone sobre a mesa de centro. Ela sabia que não devia fazer isso, mas a curiosidade falou mais alto, queria saber um pouco mais sobre o homem por quem estava apaixonada, então pegou o aparelho e leu a mensagem na tela, de um desconhecido amigo dele, chamado Pablo:
“Carlos, afinal, já se livrou daquela vadia que pegou no seu pé e não te deixa em paz? Livre-se logo dela e vamos nos divertir juntos”
Com a respiração acelerada, ela não podia acreditar, leu e releu, até quase decorar aquelas palavras. Em seguida, recolocou o telefone sobre a mesa, sem pensar nem um segundo sequer, foi até o armário, pegou sua mala e atirou seus pertences ali dentro sem cuidado, depois, pegou sua bolsa, foi embora
Parque da cidade, diante do espelho d’água, 20 de agosto de 2016.
Dez e meia da manhã, Carlos verificou mais uma vez, o relógio, os ponteiros quase não se moveram desde a última vez que verificou, o tempo se arrastava em ritmo oposto as batidas do seu coração. A Terra girava em um ritmo mais lento. Mal dormira aquela noite, agarrando-se em uma ínfima esperança que Lara comparecesse ao encontro marcado, no calor da paixão, naquela cama em Barcelona, mesmo que tenha desaparecido subitamente, sem dar nenhum motivo. Ele se apegava àquela improvável possibilidade com todo desespero da sua paixão.
Parado diante do espelho d’água, esperava, volta e meia, seus olhos lhe pregavam uma peça, ao ver uma moça a distância, seu coração acelerava em uma vã alegria, porém em uma segunda olhada, constatava o engano, fazendo-o afundar na mais profunda tristeza.
Depois das onze, querendo ganhar a sua perda, o tempo acelerou, as pessoas alternavam a sua volta, indo e vindo sem notar o homem que esperava, o mundo todo circulava ao redor daquele pequeno lago, menos ela.
Às 12:30 horas, foi atingido pela indefectível realidade, que nunca mais veria Lara, novamente.
Valverde, 21 de março de 2017
Mesmo chegando muito tarde, Lara saiu de casa cedo, na verdade, mal dormiu, cogitando se agiu certo em marcar aquele encontro com Carlos, mas seria melhor por um ponto final naquela história, revelando o motivo de ter ido embora, já havia pendências demais na sua vida, pelo menos, poderia virar essa página de uma vez por todas. Ou seria isso mesmo? Cansada de tortura Carlos com a dúvida, queria exibir que sabia o quão canalha ele era.
A manhã estava cinzenta, a umidade do ar anunciava a chuva que chegaria em breve, esperava que não a alcance no meio do caminho. Imaginou se Carlos lembraria de como chegar lá, mas para seu espanto o carro dele já estava junto ao portão de entrada. Embrenhou-se pela trilha, que lhe pareceu muito mais longa e, por fim, ouviu o barulho d’águas.
Carlos olhava para o nada, para alguns meses atrás, considerando o que fez da sua vida, como chegou até ali, à beira daquele casamento com Roberta, que, no final, o levou a reencontrar Lara, em um estranho ciclo. Ao escutar o barulho das folhas sendo esmagadas, ele se ergueu e olhou direto para saída da trilha e deparou com Lara, nesse instante, seu coração ficou mais leve, dessa vez, ela cumprira a promessa.
Parado ali, de pé, em cima daquela pedra, Carlos parecia um gigante, como em uma fábula infantil, ela iria se aproximar e quebrar o encantamento.
O encantamento que começou em uma manhã de julho, em um trem para Barcelona, onde uma garota conheceu um rapaz e como em um romance antigo se apaixonaram à primeira vista, pelo menos, ela se apaixonou.
— Bom dia. Você chegou cedo.
— Não quis me arriscar.
— Eu prometi, não foi?
— Nem sempre, você cumpre as promessas. Então, vai me dizer por que me abandonou?
— Eu não acredito que você não tenha ideia da razão.
— Não, eu não sei.
Lara soltou o ar com força, sentou-se em uma pedra, olhou direto para ele, que fez o mesmo.
— Você se lembra daquela noite, quando preparávamos o jantar?
— Como poderia me esquecer, estou aqui por causa dela, não estou?
— Pois bem, você saiu para comprar velas, esqueceu do seu telefone.
— O telefone que você roubou.
— Esse mesmo. Eu li uma mensagem nele de um amigo seu chamado Pablo.
— Você xeretou?
— Sim, eu xeretei, devo confessar, que não resistir.
— E o que dizia essa fatídica mensagem?
— O tal de Pablo perguntava se você havia se livrado da vadia, que pegava no seu pé.
Ele a fitou esperando mais alguma coisa, mas o silêncio mostrou que ela havia terminado.
— Só isso? – indagou, incrédulo.
— Precisava mais, eu só resolvi o seu problema, indo embora, eu o livrei da vadia.
Ele deu um sorriso triste e sacudiu a cabeça.
— Você é uma idiota, Lara,
O queixo dela caiu, sem acreditar que ainda por cima, estava sendo ofendida.
— Como se atreve?
Lara se levantou em um pulo, ficando de pé, parada diante dele, com as mãos na cintura, com o queixo desafiador erguido.
— Por que acreditou que ele estava falando de você?
— Porque ... porque eu supunha ser a única mulher da sua vida naquele momento.
— Você criou toda essa confusão por uma suposição? Por que não esperou a minha volta? Por que não me confrontou? Jogou pratos em cima de mim? Por que simplesmente foi embora? – Ele estava confuso e magoado.
— Porque tive medo de descobrir que era verdade, que eu era apenas uma vadia que você pegou no trem para passar alguns dias divertidos.
— Você é uma covarde.
— Como?
— É isso mesmo que você ouviu! Você é uma covarde, fugindo dessa maneira, por uma bobagem. – Ele ficou de pé. – Primeiro: Pablo é um idiota estúpido. Segundo: A mulher de quem ele falava não era você. Ele nem sabia que eu estava com você.
— Então, se não era a mulher, quem ela era? – Lara o confrontou.
— Não vem ao caso, agora.
— Não, não vem mais, já passou muito tempo – Ela enfiou a mão no bolso e tirou de lá o aparelho furtado.
— Isso é seu! – Entregou a ele.
— Não preciso mais, já tem outro! – Carlos respondeu, irritado.
— Faça o que quiser com ele! – Lara retrucou no mesmo tom.
Ele ergueu o braço na iminência de jogar o aparelho na água, mas ela o segurou.
— Não faça isso, vai contaminar a água.
Ele caiu em si e desistiu, colocando o no bolso. Então ficaram, em silêncio, olhando um para o outro.
— Você não tem ideia de como eu fiquei desesperado, quando não a encontrei naquele apartamento – ele falou, quase em um sussurro.
— Você tem razão, fui mesmo uma idiota. Mas, agora...
— Mas agora?
— Mas, agora passou, todo aquele encantamento de um romance de verão, naquela cidade ardente e empolgante. Só nós dois nos descobrindo e o resto mundo muito longe. Éramos inalcançáveis, pairando sobre a terra.
— Então, foi só isso que restou do que vivemos, bonitas palavras vazias?
— Apenas memórias.
— Por que não acredito em você?
— Por que é um tolo teimoso – ela lhe deu um sorriso triste.
— Sempre fui — Ele estendeu o braço e a segurou pela cintura e a puxou para si, suas bocas se encontraram em um beijo ardente, cheio de memórias e saudades, nem sentiram os primeiros pingos que precederam a chuva intensa que caiu.
— Precisamos sair daqui. Isso aqui pode ser perigoso com a chuva – Lara avisou e, de mãos dadas, correram pela trilha escorregadia.
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