Sobre Nós Dois
12 Escondidos
Valverde, 21 de março de 2017
Juntos, correram, pulando pelas poças d’água, se desequilibrando ao tropeçar nas raízes expostas, enfim, Lara e Carlos chegaram nos carros, encharcados e enlameados.
— Preciso ir – Lara declarou, ido em direção ao seu carro, mas Carlos a puxou de volta.
— Você não vai fugir de mim assim, outra vez. Não, depois desse tempo todo, longe de mim.
Sem resistir, ela o deixou levar para o carro dele, no banco da frente, eles continuaram se beijando, todos os beijos perdidos pelo tempo de separação. As roupas molhadas eram só empecilhos, que foram abandonadas bem depressa. As mãos audaciosas, a pele quente, a saudade incontrolável, todo amor represado, escondido, sufocado, liberado como uma enxurrada.
— O que vamos fazer, agora? – Depois, Lara perguntou, quando aconchegada junto ao peito dele.
— Eu termino com o noivado e vamos embora juntos, daqui – Carlos respondeu, com certeza.
— Não dá para ser assim.
— Por que não?
— Porque Roberta morreria de desgosto ou de raiva. A cidade toda falaria mal de mim.
— E daí?
— E daí que meus pais ainda moram aqui. E não se desafia Ricardo Hernández dessa forma.
— Ele não pode ser assim tão poderoso?
— Você sabe como ele é muito rico e influente. Toda região está na mão dele.
— Por que tem tanto medo dele, Lara? Ele não pode alcançá-la.
— Não é medo, e só ... algo difícil para alguém de fora entender.
— Então tente me explicar.
Ela não tinha coragem de confessar o tipo de relação doentia que teve com Ricardo, quando era muito jovem. Carlos tinha razão, ela era uma covarde.
— Eu já falei a você, não quero prejudicar meus pais. Já passaram por uma boa, quando eu fugi de casa, fui chamada de perdida e vadia, mas eles aguentaram tudo, calados, no entanto, agora, meu pai está doente, não sei se suportaria algo parecido, novamente. Por isso, não posso ser a causa do término do noivado da filha do homem mais poderoso da região, seria demais para eles.
— Se você quer assim, podemos esperar. Vou embora no fim do mês, quando minhas férias acabam, preciso voltar para o meu trabalho.
— Eu também irei embora, temos que esperar um pouco mais, e poderemos nos encontrar escondidos aqui, de vez em quando. Só não estou gostando da ideia de você dormir com sua noiva?
— Quem disse que dormimos juntos, nunca tivemos nada. O pai dela nunca permitiria, dormimos em quartos separados. E quanto ao seu namorado?
— Regis? Ele é gay, fizemos isso só para ele ter a desculpa de viajar para poder namorar, longe daqui. Pode se dizer que é uma forma de vingança contra a cidade.
— Eu bem que desconfiava. Você está bancando a defensora dos oprimidos?
— Não é fácil ser minoria em uma cidade como essa.
— Sendo assim, fingiremos por esses dias, até ficarmos a uma distância segura desse lugar.
— Eu preciso ir – Lara o beijou, mais uma vez, pronta para sair do carro.
— Quando a gente se vê de novo.
— A gente combina por telefone.
— Eu não tenho mais o seu número.
— Agora, tem – apontou para o aparelho no bolso dele, com um sorrisinho malicioso. – Tchau – ela abriu a porta e saiu.
Carlos a observou entrando no carro e partir, achando mais prudente dar um tempo, antes de ir. Seu telefone tocou, olhou para a tela e viu o nome de Roberta. Encontrar com Lara, não estava nos seus planos, aquela mulher realmente mexeu com ele, porém não podia perder o foco do seu objetivo.
— Carlos, onde você está? – sua noiva perguntou, irritada, logo depois que ele atende.
— Vim dar uma volta, cansei de ficar em casa, sem fazer nada, enquanto você dormia.
— Mas, está chovendo.
— Não estava quando sai, mais cedo – ele responde, com certa impaciência.
— Por que não me chamou?
— Porque sabia que você não viria.
— Você vai demorar?
— Não, já estou voltando para você, meu bem.
Dentro do carro, Lara não se importava com as roupas úmidas e sujas, o cabelo molhado e grudado na cabeça, só pensava se havia feito a escolha certa, pois, desde que voltara para a sua cidade vivia em uma corda bamba, com seus segredos, mas, se envolver outra vez com Carlos, sabendo que ele era o noivo de Roberta foi um ato inconsequente, afinal, nem sabia se o que sentia por Carlos era amor ou resquícios do puro encantamento de um romance de verão.
Ao entrar em casa, sua mãe se espantou com seu estado.
— Estava dando uma volta e a chuva me pegou no meio do caminho – justificou-se. – Como vai, pai? – Lara se aproximou do homem, sentado em uma cadeira na cozinha, com o olhar perdido em algum lugar desconhecido.
— Seu pai está bem – Sua mãe responde. – Por que não toma um banho e faz companhia a ele, lá na varanda, enquanto eu acabo de fazer o almoço? Ele gosta de ficar lá, vendo a chuva cair.
— Sabe de uma coisa? Deixa o banho para depois. Vamos, pai! Vamos até a varanda!
Lara ajudou o pai a se levantar e a chegar até a pequena varanda diante da casa, onde as antigas cadeiras os esperavam, sentando-o em uma delas e, em seguida, ocupou a outra. Ficaram em silêncio ouvindo e vendo a chuva insistente cair, transformando a terra em lama, pesando as folhas das plantas ordinárias e malcuidadas do pequeno jardim. Ela estendeu a mão e segurou a do pai com carinho, não obteve nenhuma reação dele.
— Pai, eu sinto tanto a sua falta, das suas risadas, da sua conversas e histórias até mesmo das suas broncas. Às vezes, eu me acho culpada por ter ido embora, deixando vocês para trás, mas foi preciso, tinha que sair dessa cidade. – Seria só uma impressão, talvez, um discreto reflexo, mas ela sentiu uma leve pressão nos dedos entrelaçados com os dos seus pais. Uma terrível ideia lhe veio à tona, se seu pai, de alguma maneira, descobriu o que houve entre ela e Ricardo Hernández. Tinha certeza que sua mãe nunca revelaria essa história para ele, elas haviam feito um pacto, pois, tinham medo do seu sangue quente e da sua reação intempestiva.
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