Barcelona, 22 de julho de 2016

Já dentro do trem partindo da estação, Lara sofria com o peso da sua decisão intempestiva. Será que era melhor ter ficado e o enfrentado? Esfregado o telefone na cara dele? Gritado? Berrado? Mas, não, Lara fugiu de novo. Seria sempre assim na sua vida? Na primeira vez, tinha desculpa de ser muito jovem, quase uma criança, mas, agora, era mulher feita, mesmo assim, usou saída dos covardes, mas era melhor dessa maneira, tinha medo do que poderia escutar. Só restava tentar esquecer, por conhecimento de causa, sabia que o tempo apaziguava, mas nunca apagava.

Carlos andou por um tempo de lado para outro, na rua lotada de pessoas de Barcelona, ao cair da noite, atordoado e sem saber o que fazer, já que, seria quase um milagre achá-la por ali. Afinal, por que Lara fizera isso? Por que foi embora dessa maneira? E ainda levou consigo a única forma de poder encontrá-la, pois ele não sabia o número do telefone dela de cor. Voltou para o apartamento, diante da mesa posta, esticou o braço e pegou a garrafa de vinho, virando direto na boca, em um grande gole e mais outro e mais outro, até a última gota, depois, a jogou com toda força, a estilhaçando contra a parede.

Valverde, 20 de março de 2017

A buzina tocou alta e ritmada lá fora, atendendo o chamado, toda arrumada, Lara saiu correndo do seu quarto para a sala.

— Você vai sair? – perguntou a mãe, surpreendida.

— Vou, Regis está me esperando lá fora – respondeu, dando um beijo no rosto da mãe e outro no pai apático, de olhos vidrados nas imagens da TV.

Contudo, antes que alcançasse a porta, sua mãe ficou de pé e a segurou pelo braço.

— Por que está se metendo com essa família de novo, Lara? Não basta o que a fizeram sofrer?

Ela encara a mãe, não sabia o que dizer, pois desconhecia a resposta.

— Preciso ir, mãe. Regis está me esperando – disse, mantendo a calma.

A mãe soltou seu braço, mas não desvia os olhos, à espera de uma resposta que não veio, pois Lara se virou e saiu pela porta.

Ela entrou no carro, encontrando Regis impaciente.

— Você demorou – ele reclamou.

— Um bom namorado sabe esperar pela namorada, sem reclamar – retrucou, em tom de brincadeira. – Aonde vamos?

— Esquentar antes da festa – responde, aumentando o som do rádio. – Tome! – Ele lhe deu uma garrafa.

— O que é isso?

— Álcool. Na verdade, é tequila.

Ela virou um grande gole, depois, ele tirou da mão dela e fez o mesmo.

— Você não devia beber, está dirigindo – advertiu.

— Não se preocupe, porque eu posso, sou sobrinho de Ricardo Hernández.

Lara fechou a cara, lembrando se das palavras da sua mãe.

— Se fosse for ficar com essa cara, eu não bebo, está bem?

— Obrigada. Então para onde vamos?

— Para a Casa Verde.

— Mas aquele lugar é um puteiro!

— Não é mais, agora, é um tipo de barzinho. As putas foram expulsas para o fim da cidade.

Quando Lara era criança, a Casa Verde era um lugar cujo nome só era sussurrado pelos cantos, as crianças e mocinhas de respeitos nem podiam passar na frente da sua porta, mesmo que seus pais fossem frequentadores assíduos e suas mães fechassem os olhos para isso. Mas, segundo, Regis com o progresso da cidade, seria inadmissível um comércio desse tipo, bem na rua principal. Sendo assim, as putas foram escondidas na periferia, para prosseguir com sua função de utilidade pública, e o lugar foi, totalmente, reformando e era frequentado pelos filhos das boas famílias locais.

— E isso que você faz nos fins de semanas? Frequenta esses lugares no centro da cidade? Então como você faz para... namorar?

— Quer dizer transar? Nunca aqui por perto, só quando vou para algum lugar com uma distância segura, onde ninguém me conheça, mesmo assim é arriscado.

— Então, você não pode ter um namorado?

— Não por essas bandas e nunca nada sério. Teve um cara que quis pagar para ver, se assumindo na frente de todo mundo. Levou uma tremenda surra, foi parar no hospital, quase morrer, ficou com a cara toda quebrada. Então...

Regis estacionou o carro um pouco distante, segurou a mão de Lara, quando andavam em direção da entrada, semelhante a um casal de namorado comum.

— Eu adoro ser o centro das atenções – ele sussurrou no ouvido dela, que deu um sorriso de concordância, quando entrava no lugar, bastante frequentado para uma noite de domingo.

Juntaram a alguns amigos de Regis, que já ocupavam uma mesa, trouxeram cerveja, estava bem quente lá dentro, Lara estava empolgada, puxou seu par para dançar, mas sua animação durou pouco, ao ver entrando pela porta Roberta com Carlos a reboque.

— O que eles estão fazendo aqui? – perguntou a Regis.

— Eles vieram se divertir, o que que tem?

Regis continuou dançando animado, enquanto Lara tentava disfarça o seu mal-estar, e para piorar o recém-chegado casal, que se juntou a eles na pequena pista de dança. No exíguo lugar, era difícil evitar sutis toques de corpo, nada demais, se não fosse Carlos bem ali, ao lado dela, fazendo sua pele formigar.

— Vou dar um pulinho no banheiro – cochichou no ouvido de Regis, mentiu só querendo sair dali.

Ao invés de ir ao banheiro, foi entrando pelo corredor, que de certa forma lembrava a antiga função do lugar, com algumas portas dos quartos esquecidos, encostou na parede, fechou os olhos e ficou apenas respirando, criando coragem para botar um sorriso no rosto e voltar para lá.

Abriu os olhos, ao perceber alguém diante dela, bloqueado a luz.

— Carlos, o que está fazendo aqui? – Ele estava tão perto que podia sentir o calor do seu corpo.

— Ainda procurando uma resposta.

— Por que você, simplesmente, não esquece e continua vivendo a sua vida?

— Eu tentei mais não consegui.

— Não parece. Você ficou noivo e vai se casar

— Eu achei que nunca mais a veria, outra vez. – Ele se inclinou sobre ela, que podia ter saído, mas ficou.

— Seria melhor para nós dois.

— Seria – Carlos se aproximou ainda mais, seus lábios se roçaram em um beijo, um beijo cheio de saudades e paixão soterrada em um monte de mentiras, que, no entanto, estava ali, pungente e perigosa, deixando-os levar para uma cidade na Espanha, há menos de um ano atrás.

Conseguindo pensar direito outra vez, ela o empurrou, olhos nos olhos, sem querer ir embora, no entanto, sabia que não podiam ficar.

— Você pode se encontrar comigo, amanhã, na cachoeira e eu darei a sua explicação?

— Por volta das 9. Roberta nunca acorda antes das dez. Você promete que irá?

— Sim, eu prometo.