Barcelona, 22 de julho de 2016

— O que vamos fazer hoje para comemorarmos nosso aniversário de uma semana? – Carlos perguntou logo cedo, quando tomavam café da manhã.

— Eu não sei. Que tal um jantar?

— Que tal um jantar especial, com um bom vinho e boa comida?

— E tapas?

— Um jantar com vinho, tapas e, depois, muito sexo – Carlos completou.

— Toda noite tem muito sexo.

— Então, essa noite teremos sexo muito especial.

— Podemos ir à praia, depois, passamos no mercado e compraremos os ingredientes para o jantar e o vinho – Lara determinou.

Naquela tarde, voltaram para casa, carregados de compras, decidiram que iriam fazer o jantar juntos.

— O que eu posso fazer? – Carlos perguntou, olhando em volta.

— Pique o tomate em pedaços grandes e a cebola em fatias finas, enquanto desfio o bacalhau e pico a salsinha.

— O que vamos fazer mesmo?

— Esqueixada. É uma espécie de salada de bacalhau, podemos comer com pão.

— E as azeitonas?

— Vamos deixá-las inteiras.

— Quer vinho? – Carlos perguntou, abrindo a garrafa, ela assentiu com a cabeça e ele serviu duas taças, entregando uma a ela. – Posso preparar o pão com tomate

— E eu, os calçots e os pimientos

— Acho que está quase tudo pronto. Vou arrumar a mesa – Carlos anunciou, pegando os pratos e talheres. – Velas? Esquecemos das velas!

— Não precisamos de velas.

— É claro que precisamos, para o nosso jantar romântico. Vou sair para comprar algumas.

— Se faz questão, vou tomar um banho e esperar por você.

— Sim, eu faço questão – Ele deu rápido beijo nos lábios dela e saiu apressado.

Lara se preparava para o banho, quando percebeu o som de uma mensagem recebida, Carlos havia esquecido seu telefone sobre a mesa de centro. Ela sabia que não devia fazer isso, mas a curiosidade falou mais alto, queria saber um pouco mais sobre o homem por quem estava apaixonada, e todas suas ligações misteriosas, então pegou o aparelho e leu a mensagem na tela. Não pode acreditar, releu e releu, até quase decorá-la. Em seguida, recolocou o telefone sobre a mesa, sem pensar nem um segundo sequer, foi até o armário, pegou sua mala e atirou seus pertences ali dentro sem cuidado, depois, pegou sua bolsa. Já saía, quando, viu o telefone, e o atirou dentro da sua bolsa, ainda, para por um breve instante, olhando o lugar, onde foi tão feliz, a garrafa de vinho e os tapas esperavam sobre a mesa já posta para o jantar que nunca aconteceria, sentindo o coração partido. Ela apagou a luz e fechou a porta.

Carlos entrou no apartamento com ar vitorioso e um pacote nas mãos.

— Demorou mais consegui encontrar! — Estranhou quando o silêncio foi sua resposta. – Lara! Ainda está no banho?

Ele foi até a cozinha, o banheiro e, por último, o quarto, encontrou as portas do armário abertas e uma ligeira desordem, olhou para o interior, procurando o que não achou, a mala e as roupas de Lara haviam sumido. Atordoado, apalpou os bolsos a procura do seu telefone, talvez, tivesse deixado em casa, olhou em volta e nada, não estava lá. Nenhum bilhete rabiscado às pressas. Uma ideia veio à cabeça, ela levou o telefone dele? Como poderia falar, outra vez, com Lara. Correndo desceu as escadas na fantasiosa esperança de encontrá-la em algum lugar, no meio da rua, olhou em volta, querendo enxergar mais além, nenhum sinal. Ela se fora e ele não sabia porquê.

Valverde, 20 de março de 2017

Lara andava na trilha no meio da mata, apressada, evitando olhar para trás, com Carlos no seu encalço, como uma sombra.

— Você sabe que não é só passado? – ele falou as suas costas.

— Foi apenas um romance de verão, uma boa lembrança para guardar, nada mais além disso – ela retrucou, quase sem folego.

— Para mim, não é uma boa lembrança, não dá forma que terminou, foi um pesadelo, que vive se repetindo na minha cabeça, dia após dia, durante meses.

— Eu não posso fazer nada para mudar isso.

— Sim, você pode – ele a segurou e a virou para ficarem frente a frente — Lara, olhe nos meus olhos e diga que fomos só uma boa lembrança do passado, apenas um mero romance de verão.

— Eu não preciso provar nada a você, Carlos – disse, sustentando o olhar, erguendo o queixo de modo duro.

— Então, só me diga porque foi embora daquele jeito, como se fugisse.

— Porque ficaria melhor para você, já que era isso que queria.

— Como sabe o que eu queria? Eu só queria você.

— Por que está mentindo, falando essas coisas, se eu sei que são falsas? Você vai casar daqui a pouco meses. Por sinal, um bom casamento, com a filha do homem mais rico da região.

— Eu não estou interessado no dinheiro. Eu já disse que nem sei direito porque estou casando. Parecia a coisa certa na época.

— Sendo assim, eu fui embora porque parecia a coisa certa na época. Agora, me deixe em paz – ela se soltou das mãos dele e correu até a clareira onde o carro estava estacionado, sabendo que Carlos não precisava se esforçar para alcançá-la, então correu mais que pode, não queria ficar por mais tempo junto a ele, liberar todas aquelas intensas emoções represadas, amor, ódio, rancor, saudade, tudo aquilo que demorou tanto para sufocar, esconder, disfarçar. Deu uma última olhada para trás para ter certeza, que ele saiu bem da trilha, antes de entrar no seu carro e partir.

Ela sabia que precisava ir embora daquela cidade o mais rápido possível, mas a doença do seu pai a enchia de culpa por deixá-lo para trás, quem sabe, quando ou se o veria, outra vez

O telefone toca, ela pensou em recusar não desejava falar com ninguém, naquele momento, sua cabeça dá voltas. Pelo espelho retrovisor, vê o carro de Carlos atrás do dela. Por que precisava ser assim? Por que tinha que reencontrá-lo, depois que seu coração estava mais tranquilo, havia achado uma certa de paz?

Por fim, por hábito, atendeu, era Regis.

— Então, já satisfez o seu lado ecológico? – Ela riu.

— Sim, estou voltando.

— Espero que tenha sinto bom.

— Mais ou menos.

— Eu falei dos mosquitos, poeira e calor. O que vamos fazer hoje, como bons namorados que somos?

— Eu queria sair para dançar.

— Dançar? Assim é que se fala música alta, muito álcool e suor. Vou pensar em algum lugar por aqui. Eu pego você às 8, para o esquenta.

Ela desligou o telefone e olhou pelo retrovisor, o carro de Carlos havia desaparecido.

Ao chegar em casa estava exaurida pelo dia, com as conversas com aqueles homens, encontrou a mãe arrumando a cozinha depois do almoço, penso com sempre se lembrava dela assim, arrumando a casa, a cozinha, lidando das roupas, foi por isso que quis fugir dali, queria algo melhor para sua vida.

— Eu guardei um prato para você, no forno.

— Obrigada, mas estou sem fome.

— Você precisa comer, está tão magra. E aí, como foi o passeio?

— Bom – Deu de ombros, com dissimulada indiferença. – E o pai?

— Dormindo, desde do AVC, ele passa a maior arte do dia dormindo.

— Ele deve estar triste com que aconteceu.

— Imagine do dia para o outro ficar assim tão limitado. Logo ele que gostava de fazer de tudo. Em outros tempos, ele estaria aqui, fazendo a maior farra com a sua visita, mas, atualmente, eu nem sei se notou a sua presença aqui em casa.