Rivera, 17 de novembro de 2006

Naquela tarde, como nunca fazia, jovem Carlos voltou mais cedo para casa do colégio, ansioso para jogar no seu novo videogame Final Fantasy XII (Desenvolvedor), esperava que não houve ninguém em casa, pois seus pais deveriam estar no trabalho, enquanto sua irmã Teresa, raramente, voltava para casa antes do começo da noite, ultimamente, e quando estava em lá, ficava a maior parte do tempo, trancada no seu quarto, mas era melhor assim já que o humor dela variava constantemente, um dia estava toda alegre, no outro estava aborrecida, brigando com todo mundo, mas garotas eram assim mesmo, sempre esquisitas.

Lembrou-se do dia que entrou no quarto dela e a viu escrevendo em um caderno.

— Você está escrevendo um diário? — perguntou, esticando o pescoço para ver melhor.

— O que estava fazendo aqui no meu quarto, moleque?! Saía já daqui, seu enxerido! — E jogou o travesseiro em cima dele, que saiu correndo pela porta.

Mas, naquele dia, quando, Carlos chegou em casa, foi direto para a cozinha, abriu a geladeira a procura de algo para comer, antes de se sentar em frente da televisão, quando ouviu um barulho vindo dos quartos, um baque alto e seco, como se algo pesado houvesse caído no chão, se assustou, mas pensou que alguém da família poderia ter chegado mais cedo e derrubado algo no chão ou mesmo que tivesse caído sozinho.

— Ei! Tem alguém em casa? – gritou para o corredor, mas não obteve resposta.

Andou cauteloso, em direção de onde achou que veio o barulho, a porta do quarto da irmã estava entreaberta.

— Elaine! — chamou pela fenda.

Silêncio.

— Elaine! — insistiu, empurrando a porta com cuidado e enfiando a cabeça pela fresta, assim conseguiu ver os pés dela ao lado da cama. — Elaine! — falou mais alto e entrou correndo, para ver a irmã caída no chão, os olhos vidrados olhando o além e a boca aberta, como estivesse pronta para falar. Naquele exato instante, ele soube que não havia mais solução, mesmo assim, ajoelhou-se ao lado dela e a sacudiu com força. — Elaine, acorde! Acorde! — Contudo, o corpo flácido não respondeu. Olhou em volta, procurando uma saída, foi quando reparou o frasco vazio sobre a mesa de cabeceira, esticou a mão para pegá-los, não sabia o que era, contudo tinha certeza que não era nada bom. – Elaine, o que você fez? — perguntou para o corpo da irmã inerte e correu para o telefone para pedir ajuda. Ligou para o número de emergência, escrito na lista sobre o aparelho, depois, ligou para a escola da mãe e para o escritório do pai, os alertando.

Passou a mão na cabeça, não tinha mais nada a fazer, durante aqueles intermináveis minutos, voltou para junto do corpo da irmã. Ficou andando de um lado para o outro, até que o avistou sobre a cômoda, um pedaço de papel. Um bilhete de despedida. Uma curiosidade mórbida o atingiu queria, precisava saber o porquê daquele ato desesperado. E descobriu o relato da irmã deprimida confessando sobre o seu caso com um homem mais velho, como ela o amava, mas ele a desprezou, por isso não podia continuar vivendo. Ela não dizia quem era esse homem, nem como aconteceu. Mas, aquilo nunca saiu da sua cabeça e Carlos não teria paz, enquanto não descobrisse quem era esse tal homem que destruiu sua família. Vasculhou o quarto procurando possíveis esconderijos até encontrar o caderno de capa florida, o diário da irmã, folheou as páginas lendo por alto, se espantando com o que descobriu ali. Assim, a semente do ódio e o desejo de vingança começaram a crescer no peito do rapaz.

Valverde, 25 de março de 2017

— Não é raiva. Somente, só que penso em todas as garotas que não foram tão fortes como você e não conseguiram sobreviver ao que aconteceu, depois, que passaram nas mãos de Ricardo – Carlos respondeu em voz baixa.

— Eu não conheci nenhuma das outras garotas, nem soube o que aconteceu com elas, mas eu levei muito tempo para conseguir voltar a essa cidade. Olhar nos olhos de Ricardo foi uma provação e tanto, mas eu consegui.

— Talvez, nunca conheceremos, pois, certamente, ocultarão o lado negro de Ricardo, ele será como um santo após a morte.

— Será melhor seus segredos morrerem com ele.

— Por quê? Para ele ser enaltecido com um grande homem, um benemérito? Ter uma praça, uma rua ou mesmo uma escola com o nome dele? — Carlos retrucou, com rancor.

— No entanto, essa história vir à tona, não resolverá nada, pode até causar mais dor para os outros envolvidos. Veja o que aconteceu com o meu pai, depois que alguém contou tudo para ele.

— Eu não sabia — Carlos abrandou o tom.

— Como poderia? Eu mesmo só descobri há alguns dias.

— Talvez, quem o matou foi algum familiar dessas garotas em busca de vingança.

— Achei você dois — Régis entrou pela sala com um ar cansando, sentou-se no sofá, com os ombros caídos e relaxando, estendeu a mão e pegou um sanduíche do prato que Carlos trouxe da cozinha, dando uma grande mordida, engolindo quase sem mastigar.

— Roberta dormiu e Carlos estava com fome — Lara justificou a presença deles ali.

— Que bom que Roberta dormiu, pelo menos, terá energia para o que vem por aí. O delegado vai querer falar com todo mundo, inclusive com vocês dois. Parece que vem investigadores da polícia de fora para ajudar, já que Valverde não tem muitos recursos — Régis avisa com ar tenso.

— Isso parece ruim — Carlos deixa escapar.

— Sim, parece mesmo. Eles não vão sossegar enquanto não acharem um culpado — Régis completou.

Lara escuta o diálogo calada, pois sabe que há algo bem errado nessa história, alguém quis incriminá-la, mandando aquele recado como se fosse Ricardo. Alguém moveu o corpo do lugar original do assassinato, possivelmente, para evitar perguntas sobre as atividades escusas do morto. Mas, por prudência, não poderia dividir isso com ninguém.

Nesse instante, Felipe surge na porta, para um tanto sem jeito, a expressão de Régis muda ao vê-lo, torna-se menos tensa, esboça um sorriso.

— Eu vim assim que soube. Como vocês estão? — pergunta, olhando direto para Régis.

— Melhor — o outro rapaz responde com um sorriso triste, Felipe dá um passo à frente.

— Alguma novidade? — Felipe perguntou, sentando-se em uma das poltronas.

— Nada ainda, mas a polícia já começou a investigar. Preciso voltar para sala para acalmar as gralhas — Régis disse, soltando o ar com força, resignado com seu novo papel de líder.

— É tudo muito estranho, imaginar que o senhor Hernández está morto e, ainda, por cima de uma forma tão brutal — Felipe comentou, após Régis deixar o lugar.

— A gente nunca sabe do dia de amanhã — Carlos fala com um certo tom de ironia, que incomodou Lara. Será que ele ainda não percebeu a seriedade da situação?