Sobre Nós Dois
27 Descrente
Valverde, 27 de março de 2017
O corpo de Ricardo foi examinado, com urgência pouco comum, em outra cidade, maior e com mais recursos e retornou para o funeral, que prometia ser uma cerimônia esplendorosa, cercada de pompas e com muitas flores e convidados importantes.
Mesmo não oficialmente, corria o boato que ele foi morto por um tiro à queima-roupa bem no coração. Um crime de ódio, uma vingança, especulavam. Policiais de fora da cidade chegaram para ajudar na investigação da morte dessa eminente figura pública. Várias pessoas começaram a serem chamadas na delegacia para prestar depoimento a respeito do ocorrido. Cada vez mais ansiosa, Lara esperava o momento em que teria que depor, estava disposta a mentir, havia bolado uma história que julgava convincente, nunca poderia revelar a verdade, que havia encontrado o corpo no lugar original do crime sem se comprometer, já que seu passado seria uma boa justificativa para matar Ricardo, mesmo jamais ter desejado fazer isso. Por uma estranha razão a morte dele a deixou deprimida, fazia parte dos sentimentos de amor e ódio que cultivava por ele.
Desde o dia em que descobriram o corpo, Lara não esteve mais na casa dos Hernández, não queria confronto com Joana, ainda mais na situação que se encontrava. Ao mesmo tempo, sentia-se oprimida, queria abrir-se com alguém, mas não tinha ninguém, nem mesmo Carlos, pois ele se comportou muito estranhamente com a morte do sogro, podia-se dizer que até estava feliz. Mesmo assim, conversavam com frequência, durante a madrugada, pelo telefone, quando Roberta, dopada, dormia profundamente, e ele a colocava a par das novidades da investigação. Carlos me contou que delegado havia conversado com algumas pessoas da família, como o próprio disse só de praxe.
— O que é estranho que a polícia desconfia que o crime foi cometido em outro lugar, mesmo não querendo admitir.
— Como sabem disso?
— A família tem informantes dentro da delegacia. Eles sabem de tudo que se passa por lá.
— O delegado já tem um suspeito? — quis saber ansiosa, com medo que alguém tivesse visto o meu carro perto da casa.
— Eu não sei, acho que sim, mas eles não comentaram nada, nem mesmo para Joana. Queria ver você.
— Não devemos, seria muito arriscado nas atuais circunstâncias.
— Só por alguns instantes, com a confusão que se encontra essa casa, com certeza, nem perceberia a minha ausência por algumas horas.
— Pode ser arriscado, Joana desconfia de nós dois. Poderia ser perigoso.
— Eu só quero conversar um pouco, ver e estar perto de você.
— Amanhã será o enterro.
— Então, hoje à tarde, no nosso lugar de sempre. Roberta e Joana sempre dormem e Régis anda muito ocupado.
— Por volta das três.
Régis telefonava algumas vezes, porém, raramente, eles se viam, porque o rapaz andava muito envolvido com sua nova função de chefe da família Hernández, algo que foi preparado desde muito jovem. Ao mesmo tempo que, agora, teria uma certa liberdade, não para assumir suas preferências de vida, mas, pelo menos, não estaria sobre o julgo do tio, que nunca admitira que o sobrinho namorasse outro rapaz. Foi quando pensou em quem mais que ela conhecia que ficaria feliz com a morte de Ricardo, com certeza, haveria muita gente, mas, provavelmente, deveria ser alguém bem próximo, a ponto de saber sobre a existência da chácara, a alcova dos encontros clandestinos dele.
Além de Régis, talvez, a própria Joana, há muitos anos, humilhada pelo envolvimento criminoso do marido com adolescentes, já havia aturado bastante. Carlos sempre me pareceu muito hostil em relação ao sogro, mas nunca soube o real motivo disso. O próprio Régis sairia ganhando alguma liberdade, talvez, Felipe pelo mesmo motivo. Possivelmente, a única pessoa que parecia verdadeiramente sofrer era Roberta, pois, a vida inteira foi mimada como uma princesa pelo pai. Também, poderia ser algum dos empregados insatisfeito ou um pai que descobriu o abuso da sua filha. Havia muitas possibilidades, no entanto, ela também poderia ser suspeita, já que encontrou o corpo no lugar original do crime, onde anos atrás, foi molestada pelo morto.
Na hora combinada, mesmo meio receosa, Lara estacionou o carro na clareira que antecedia a trilha para chegar a cachoeira, o carro de Carlos já estava lá, ele devia estar bastante ansioso para se encontrar com ela.
Fez o caminho com cuidado, pois, havia chovido muito nos dias anteriores, por isso, tinha muita lama e umidade, e, mesmo com certa dificuldade, chegou rápido ao local combinado, onde Carlos já a esperava sentado em uma pedra. Ele se ergueu assim que a viu, em dois passos de suas pernas compridas atravessou a distância que os separavam, envolvendo a nos seus braços e a beijando com urgência. Lara relaxou nos braços dele, sentiu-se bem e aconchegada de uma maneira que há muito tempo não sentia, encostou a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater acelerado.
— Senti tanto a sua falta – ele sussurrou no ouvido dela.
— Mas, nós não nos vemos há apenas dois dias.
— Você sabe o que quero dizer, sinto falta de ficar assim com você, Lara.
— Sim, eu entendo, também, sinto sua falta. Mesmo assim, não podemos demorar, é muito arriscado para nós dois.
— Eu precisava conversar com alguém, com você.
— Sobre o quê, afinal?
— Sobre Ricardo Hernández – Ele parou procurando as palavras, ela o incentivou com o olhar, mesmo com medo do que viria dali. — Eu...
— Você...
— Eu escondi a verdade do que houve com minha irmã mais nova.
— Você já me falou sobre ela. – Ele confirmou com a cabeça. — Ela morreu em um acidente. — Ele balançou a cabeça em negativa.
— Não foi um acidente. Elaine se suicidou. Ela tinha 15 anos e eu a encontrei morta em casa, depois de tomar um monte de comprimidos.
Lara engoliu em seco.
— Eu nem sei o que dizer.
— Sozinho, com o corpo da minha irmã caído no chão da nossa casa, eu não entendia o porquê de ela teria feito algo tão terrível assim. Então, eu me lembrei que tinha a visto escrevendo algo, que achei que fosse um diário. Assim, depois do enterro, eu procurei até encontrá-lo.
— É encontrou a resposta que procurava?
— Sim. Descobri o que aconteceu — Lara segurou a respiração por instinto sabia o que ele iria falar. — Ela se envolveu com Ricardo Hernández. Ele a seduziu, a fez pensar como era especial, lhe deu presentes caros, a subjugou, até se entregar a ele.
— Eu sei como é.
— Depois, ele se cansou dela e a deixou de lado, a desprezou. Eu era muito frágil, não aguentou a humilhação, teve medo de revelar o que aconteceu para os nossos pais, Ricardo havia a ameaçado, ela se viu sem saída.
— Eu sei e lamento tanto, Carlos. Se sabia disso tudo, você...
— Eu resolvi me vingar, fazendo ele pagar com a mesma moeda — ele deu um sorriso diabólico.
— Quer dizer... Roberta.
— Meu plano era simples. Conquistar Roberta, pedi-la em casamento, seduzi-la e, depois, deixá-la no altar.
— Eu não posso acreditar! A pobre Roberta não tinha nada com isso! — exclamei, descrente.
— Mas, eu queria que Ricardo visse sua querida filha sofrer, sendo humilhada na frente de toda a cidade, contudo, não seria nem uma fração de como os meus pais sofreram.
— Se você sabia de toda essa história como eu entro nela? — Lara sentia-se confusa.
— Você foi uma surpresa. Minha sorte e o meu azar.
— Então, você está querendo dizer que eu fui só uma coincidência? Que não sabia quem eu era e do meu envolvimento com Ricardo, quando estávamos em Barcelona?
— Você pode acreditar, mas é a verdade.
Lara o encarou por algum tempo em silêncio.
— Eu não acredito em você. Mas, precisamos ir agora. Já estamos nos arriscando demais aqui – disse, finalmente.
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