Barcelona, 16 de julho de 2016

Apesar de passar das 6 horas, o céu ainda estava claro, no entanto, o sol não tão abrasador quando pisaram as mornas areias da praia e uma brisa fresca ajudava a esfriar a pele.

— O Mediterrâneo. Você imagina quantas história esse mar esconde, Lara? Quantas morte e destruição, vitórias e derrotas, sonhos e conquistas aconteceram sobre essas águas? — Carlos comentou com o olhar perdido no horizonte.

— Muitas, mas ficaram no passado, submersos debaixo de toneladas de água, afundadas na areia. Atualmente, temos só o que precisamos: uma linda praia e uma bela vista — Lara rebateu, com um tom entediado.

— Não seja tão simplista, Lara. Quer dizer que você não se importa com o que aconteceu no passado, como essas histórias afetam nossas vidas, nos tempos atuais?

— Não, eu realmente não me importo, para mim, o que passou, passou e pronto, não precisamos ficar falando disso para sempre.

— Mas, somos feitos pelo que aconteceu lá trás.

— Eu sou o que sou agora.

— Pelo que parece há algo no seu passado que quer esquecer? – Carlos provocou em um tom divertido. Lara o encara de um modo sério, demonstrando que não gostou da brincadeira. — Desculpe-me, sei que é muito cedo para esse tipo de brincadeira.

— Nunca haverá um tempo para isso.

Valverde, 23 de março de 2017

Todo sujo pela caminhada na trilha, Carlos entrou direto na casa dos Hernández e vai direto para o seu quarto, fechou a porta, pegou uma pequena mala guardada no fundo do armário, colocou o código do cadeado e a abriu, correu o zíper do forro e tirou de lá um envelope, buscando o seu conteúdo, algumas fotos antigas de uma garota de cabelos compridos escuros e um sorriso tímido, a admirou por um breve instante, com o olhar enternecido.

— Preciso continuar com os meus planos, Elaine? Não posso cair em tentação e me desviar do meu objetivo por causa de Lara – comunicou a impassível garota da foto e teve um pequeno sobressalto ao ouvir batidas na porta.

— Carlos, você está aí? – Escutou a voz de Roberta através dela, solta o ar com força, revirou os olhos, irritado, guardando os objetos nos seus antigos esconderijos bem depressa, aprumou o corpo e abriu um sorriso, antes de ir atendê-la.

Quando a porta se abriu, Roberta encontrou Carlos sorridente diante dela.

— Bom dia, minha querida — Ele se inclinou para beijá-la.

— Bom dia, onde você estava? – O tom de Roberta era exigente, dando um passo à frente, já entrando no quarto, ele manteve a porta aberta.

— Fui caminhar um pouco por aí. Tem umas trilhas legais pelas redondezas.

— Por que não foi falar comigo?

— Estou todo sujo, por isso, ia tomar um banho agora.

— Por que não me convidou para ir com você? Ou usa a academia aqui de casa?

— Porque sei que você prefere a esteira e odeia caminhar meio do mato, como eu gosto, por isso, não a convidei.

— Ah! – Ela não parece muito convencida, andou pelo quarto, olhando em volta e sentou-se na cama.

— Você sabe que isso é proibido por aqui? Você não pode ficar no meu quarto — Carlos alertou, com ar de censura.

— Não seja bobo, papai não está em casa, ele saiu há algum tempo, por isso podemos aproveitar e namorar um pouco.

— Acho melhor, não. Sabe da política das portas abertas e tudo mais.

— Sei — disse, desanimada. — Ei! O que houve com seus joelhos?

—Ah! Isso? Eu tropecei e acabei caindo, enquanto caminhava, ralei os joelhos — contou a mentira já pensada,

— Viu? Isso que dar esse seu contato com a natureza. Eu vou buscar algo para pôr nisso aí — Roberta levantou-se em um pulo.

— Não precisa se preocupar, é só superficial. Vou tomar um banho, agora. Será melhor, esperar por mim lá embaixo.

— Você quer se livrar de mim? Eu posso ajudar você a tomar banho, esfregar as suas costas – Ela lhe deu um sorriso malicioso, alisando a cama.

— Roberta, eu não quero me indispor com o seu pai.

— Só por que vai trabalhar para ele?

— Já conversamos sobre isso, Roberta. Eu não vou trabalhar para o seu pai. Só não quero que ele fique aborrecido comigo. – Carlos falou de um jeito sério, encarando mais uma vez a decepção estampada no rosto da noiva.

— Você respeita tanto meu pai assim, que até me despreza? Então, vai lá se case com ele! – Ela fechou a cara, levantou, batendo os pés, já saindo pela porta, quando ele a alcançou.

— Venha aqui, minha potrinha xucra! Se você que me ajudar a tomar banho, então venha! – Carlos disse com um sorriso malicioso.

Mais tarde, Lara retornou ao carro para guardá-lo na garagem, já que o havia deixando estacionado junto ao meio-fio, na pressa de entrar em casa, fugindo do seu perseguidor.

— Lara! – Ela se voltou ao ouvir seu nome, encontrando Hilda, uma das vizinhas, vindo a passos rápidos na sua direção. — Lara, eu mal a reconheci, você está tão diferente, também, depois de tanto tempo longe daqui. — A mulher parou bem na sua frente, a admirando.

— As pessoas mudam, Hilda — respondeu de modo seco, pois sabia muito bem como foi mal falada na cidade, quando partiu, a chamaram de perdida e vadia.

— E você voltou, pena que seja por causa da doença do seu pai. Como ele está?

— Na mesma — Não queria mais prolongar aquela conversa.

— Coitado do Orlando! Eu me lembro bem do dia que passou mal.

— Você se lembra?

— Sim, eu estava varrendo a calçada, quando seu pai chegou de carro.

— Ele chegou no carro dele?

— Não, nesse aí, em outro. Um carro bacana, igual aos dos Hernández.

— Um carro dos Hernández? – Ela ficou assustada, Ricardo havia jurado que não contara nada ao seu pai.

— Não sei se era – A mulher deu de ombros. — Só sei que deixou seu pai, bem aqui, no portão, ele andou meio bambo, com se tivesse bêbado, mas já devia estar passando mal.

— Você viu o motorista?

— Não. O carro saiu depressa, cantando pneu.

— E depois? – Lara perguntou tão incisiva, que assustou a mulher.

— Depois, não vi mais nada, entrei para cuidar do almoço, só sai quando sua mãe começou a gritar pedindo ajuda.

Lara ficou encarando a mulher por algum tempo, sem saber o que mais perguntar, mas, pressentia que ela não tinha as repostas que esperava. Seu telefone tocou, Lara olhou para a tela, viu o nome de Regis, pensou em recusar, no entanto, refletiu melhor e atendeu.

— Regis, eu já ligo para você – disse, desligou e encarou a mulher à sua frente.

— Quer dizer que é verdade, que você está namorando o sobrinho de Ricardo Hernández – Hilda falou com certo desdém.

— É.

— Estranho... Nunca soube dele com nenhuma namorada – Ela parecia não acreditar.

— Não há nada de estranho nisso. Com licença, Hilda. Preciso ligar para o meu namorado. Obrigada pela conversa.

A vizinha deu um sorriso amarelo, virou-se e foi em direção à sua casa. Imediatamente, Lara retornou para Regis.

— Olá, minha luz no meio do escuro tédio que é essa cidade — Regis disse em tom ácido, assim que atendeu.

— Por acaso, você não trabalha?

— Trabalho e muito, principalmente, quando estamos na fazenda. Mas, devido esse noivado interminável da minha prima, estamos todos de recesso, o que um verdadeiro suplício no meio do marasmo que é essa cidade.

— E seu amigo Felipe?

— Sem chance, estou contando com você para me apresentar um novo horizonte.

— E com certeza, eu o apresentarei.

— Estou ansioso, pois esse tempo todo de abstinência está me enlouquecendo. Talvez, eu vá ao prostibulo e escolha a garota mais parecida com um garoto.

— Realmente, isso parece um ato de desespero.

— Estou brincando, não estou tão desesperado assim. Mas, o que faremos hoje para amenizar esse tédio?

— Eu não sei. Talvez, ir para algum lugar divertido.

— Em Valverde? Esse lugar não existe, podemos nos encontrar beber e conversar um pouco, o que acha?

— Na sua casa? – Lara queria voltar ao covil do lobo, tentar descobrir algo mais.

— Se quiser? Eu a pego lá para às oito.

Desligaram