Sobre Nós Dois
24 Morto
Barcelona, 20 de julho de 2016
— Sente-se melhor, agora? — Lara perguntou a Carlos, ao se afastarem do abraço e ela mirar os olhos deles.
Carlos assentiu com a cabeça, limpando as lágrimas com as mãos.
— Desculpe-me, essa história sempre me emociona, por isso, prefiro não falar. Vamos voltar ao nosso almoço.
— Não há porque se desculpar.
Recomeçaram por onde pararam, Lara colocou uma panela para o molho e outra com água quente no fogo.
— Você e sua irmã eram muito ligados? – Ela não resistiu.
— Não muito, éramos bem diferentes, mas ainda me lembro como meus pais ficaram arrasados e, de repente, toda a nossa vida mudou. O pai querendo ir embora, deixando tudo para trás, minha mãe apática. Por um tempo, eles não me enxergavam, era como um fantasma vagando por aquela casa, como se fosse eu quem tivesse morrido. Mas, não quero mais falar sobre essa história, ainda me machuca bastante.
— Eu entendo.
— E você, como foi quando saiu de Valverde? – ele perguntou, em um tom casual.
— Eu me senti aliviada e muito assustada, era muito jovem para enfrentar o mundo lá fora, contudo, não tive escolha.
— Você não teve medo que aquele homem mais velho fosse atrás de você?
— Por que ele faria isso? — Lara se espantou com a pergunta, pois foi exatamente isso que aconteceu, ela se escondeu por algum tempo, antes de recomeçar uma vida normal, com medo que Ricardo pudesse ir atrás dela para levá-la de volta ou algo pior.
— Não sei, só pensei... — ele deu de ombros, com indiferença.
Valverde, 24 de março de 2017
Apesar de confusa com seus segredos revelados, Lara tinha a consciência que precisa avisar Carlos do que estava acontecendo, que foram descobertos, que ele deveria tomar cuidado, ser mais precavido, para não piorara a situação. Poderia enviar uma mensagem, mas correria o risco de ser vista por olhos errados, já havia passado por isso em Barcelona, mesmo assim precisava tomar uma providência.
O telefone tocou uma, duas vezes antes que Carlos atendesse, tentando disfarçar seu tom de surpresa.
— Serei rápida. Não diga nada, apenas me ouça. Você precisa ter cuidado, Joana desconfia de nós dois.
— Você tem certeza.
— Sim, ela veio até minha casa e me ameaçou.
Silêncio.
— Obrigado, mas não estou interessado no seu produto — Carlos disfarçou, deveria haver alguém por perto, em seguida desligou.
Ela considerou no que faria agora, toda aquela situação parecia algo sem sentido. Quem sabe, não fosse melhor só ir embora, deixar toda essa história e a cidade para trás, mas por que não fazia isso logo e ficava sempre adiando sua partida?
Pensou no pai, na reação que ele teve ao ver Joana na sua casa, uma ideia passou por sua cabeça: E se foi aquela mulher que contou sobre ela e Ricardo? Seria por vingança? Uma forma de atingi-la por que foi amante do seu marido? Não via nenhum sentido nisso.
Algum tempo depois, na tela do seu telefone, uma mensagem recebida, achou que fosse Carlos querendo saber mais ou Régis a convidando para mais uma noite na casa do tio. A surpresa que não era de nenhum dos dois, porém de Ricardo pedindo para se encontrarem na antiga chácara, que era importante, tinha a resposta para a pergunta que ela lhe fez sobre o pai dela.
Primeiro, ela pensou em recusar, não gostava daquele lugar, nem tão pouco ficar sozinha com Ricardo, mas se não fosse, continuaria com aquela dúvida a atormentando eternamente.
“Quando?” Perguntou.
“Em uma hora”. Ele respondeu de imediato, Lara encarou a tela considerando que estava fazendo uma besteira, principalmente, após a visita de Joana, mesmo assim não conseguiu resistia.
— Você vai sair, Lara? — Marta perguntou quando a filha pegou a bolsa e a chave do carro.
— Sim, mas não vou demorar, mãe.
Carlos ficou tenso após o telefonema de Lara a ponto de Roberta notar, mesmo distraída folheando mais uma revista de noiva, quando tomava sol na piscina.
— Algum problema, Carlos? – perguntou ao noivo, erguendo os óculos de sol para olhá-lo melhor.
— Só alguns problemas no escritório. Roberta, vou dar uma saída.
— Aonde você vai?
— Preciso comprar algo.
— Quer que eu vá com você?
— Não precisa. Fique tomando sol, que não demoro.
— Por favor, não demore mesmo, por que não tem mais ninguém em casa e eu não gosto de ficar muito tempo sozinha — ela comentou, fazendo beicinho.
— Pode deixar, não vou demorar — Curvou-se para dar um beijo na noiva.
Lara esperou, rodando pelas ruas até se aproximar da hora marcada, não querendo parecer ansiosa, chegou na pequena rua de terra batida, onde a chácara cercada por altos muros recobertos por uma exuberante cerca viva ficada, isolada e silenciosa. Não havia nenhum vizinho por perto para presenciar o suspeito entra e sai daquela casa. Lara estacionou o carro do lado de fora, caminhou até o portão, que estranhamente estava entreaberto, deixando ver o carro que Ricardo usava para ir até lá. Lembrou de todas as vezes que foi levada para aquele lugar para se encontrar com ele. O medo e ansiedade que sentia no princípio, e como Ricardo foi ganhando sua confiança, ao ponto de se imaginar apaixonada e se entregar ao seu assediador sem ressalvas. Entrou com cuidado, ouvindo o silêncio, assustou-se ao ver a porta aberta, seu instinto gritava para dar meia volta e ir embora, mas, ela não escutou prosseguiu, parando sobre o batente antes de prosseguir. Estava tudo muito calmo, não havia nenhum som lá dentro.
— Ricardo! – chamou, dando um passo para o interior da sala. — Ricardo! — Olhou em volta, esperando uma resposta, mas nada aconteceu.
Havia algo estranho no ar, uma sensação incômoda. Chegou a porta do quarto semiaberta, respirou fundo antes de empurrá-la, esperava qualquer coisa, menos o que viu, pois, deitado sobre a cama, estava Ricardo com a cabeça pendendo para o lado e os olhos arregalados, o rosto congelado em uma funesta expressão de espanto, havia uma grande mancha de sangue escura no peito nu, assim como lençol, o cheiro da morte pairava no ar: sangue e pólvora. Lara colocou a mão na boca para segurar o grito que tentou escapar, pensando que o assassino poderia estar ali à espreita. Mesmo querendo fugir, deu um passo à frente e encostou as pontas dos dedos nos pés do homem, ainda estavam quentes, o crime havia ocorrido há pouco instantes. Precisa sair dali, urgentemente, mas as suas pernas bambas se recusaram a obedecê-la, respirou fundo e se afastou andando de costas, então virou-se e correu em direção ao seu carro, onde entrou apressada e respirou várias vezes.
Precisava chamar alguém, avisar a polícia. Então, começou a pensar melhor, alguém havia matado Ricardo, ela encontrou o corpo, poderia ser acusada pelo crime, por isso, tinha que sair dali bem depressa, antes que alguém a visse por lá, ligou o carro e deu partida, afastando-se do local. Estava confusa, sem saber o que fazer, se denunciava o crime ou não, qual seria a melhor escolha. Sabia que a morte de Ricardo traria muita repercussão, que necessitariam de um culpado, mesmo que não fosse o verdadeiro autor do crime. Já em casa, Lara estacionou o carro na garage, foi para o quarto e ficou andando de um lado para outro, seria melhor esperar o desenrolar dos fatos. Com certeza, o corpo seria descoberto, quando algum empregado notasse a demora do retorno do patrão e fosse até casa para averiguar. Pois, Ricardo era assim mesmo, sempre manteve os seus seguranças a certa distância, porque supunha ser intocável, pois que ali em Valverde ou nas cidades das redondezas se ninguém atreveria a fazer algum mal a ele.
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