Sobre Nós Dois
25 Sobressaltada
Barcelona, 20 de julho de 2016
— Você seria capaz de matar esse homem que a assediou, no passado? — Carlos perguntou de repente durante o almoço. Ela para com o garfo no ar e olha para ele, espantada com a pergunta.
— Não seria capaz de matar ninguém – respondeu, com certeza.
— Você não tem raiva dele? — Carlos insistiu, olhando bem dentro dos olhos dela, como se quisesse descobrir algum sinal de mentira.
— Não, acho que não seria capaz de matar ninguém, principalmente, depois de tanto tempo, pois todo o rancor que eu tinha se dissipou ao longo dos anos.
— Eu não sei se posso ser assim tão magnânimo e perdoar dessa forma.
— Às vezes, não temos escolha.
Valverde, 25 de março de 2017
Naquela noite, Lara não atendeu o telefone nem conseguiu dormir, sabia que seria só uma questão de tempo até a polícia bater na sua porta para interrogá-la, por isso, estava sobressaltada à espera desse momento, mas a notícia chegou pelo telefone.
— Meu tio está morto! — Régis disse com a voz transtornada.
— Como? — Fingiu surpresa.
— Ele foi assassinado! Descobriram o corpo dele dentro do carro em uma estrada secundária, escondido pelo mato, sem telefone, dinheiro e documentos.
— Dentro do carro? — Lara repetiu como se não entendesse aquelas palavras.
— Sim, estão considerando a possibilidade de um assalto.
— Não é possível, que assaltaria Ricardo Hernández?
— Alguém que não o conhecia, um forasteiro, um maluco qualquer. Você viria até a nossa casa? Roberta precisa de apoio, ela está muito mal.
— E sua tia?
— O médico lhe deu um sedativo, está dormindo agora, mas Roberta não quis nada, só chora, o pobre Carlos tenta consolá-la, mas não está conseguindo nada, ainda temos que ir à delegacia.
Lara respirou fundo, deveria dizer que não, porém concordou, pois, queria ficar bem perto dessa história, pois só ela e o assassino sabiam que o corpo foi removido, possivelmente, pelos empregados do próprio Ricardo, mesmo correndo riscos, querendo preservar a memória dele, já que aquela casa poderia acarretar muitas perguntas, por fim, descobririam que a finalidade dela, que seria de acolher os crimes do seu proprietário. Apesar disso, eles lhe fizeram um favor, pois sumindo com o telefone, sumiram também com a troca de mensagens entre os dois.
— O que está acontecendo, Lara? É verdade que eu ouvi no rádio? Ricardo Hernández realmente está morto? — Sua mãe entrou no quarto com uma expressão de espanto.
— Sim, é verdade, mãe. Régis acabou de me telefonar e me contou, pedindo para eu ir até lá.
— Não acho que seja uma boa ideia, ainda mais depois da visita de Joana.
— Segundo Régis, Joana está dopada, dormindo e Roberta não para de chorar, por isso pediu a minha ajuda para tentar acalmá-la.
— Você não devia ir – a mãe disse em tom de súplica.
— Eu preciso saber o que está acontecendo por lá.
Ignorando os pedidos da mãe, já dentro do carro, Lara cogitou se foi mesmo Ricardo ou o assassino que lhe enviou aquela mensagem, a fim de incriminá-la pela morte dele, talvez, por vingança, mas quem poderia ter sido. Com certeza alguém que conhecia a existência daquela casa, ou seja, muita gente, pois a maioria das pessoas fechavam os olhos para isso, não querendo se opor ao homem mais poderoso do lugar, fingiam não ver como Ricardo escolhia suas púberes vítimas, as envolvia em uma trama de medo e sedução até o ponto que acreditavam apaixonada por ele. A conhecida síndrome de Estocolmo, quando uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor, explicou a psicóloga que frequentava há alguns anos.
A entrada da casa dos Hernández estava uma confusão, com muitos curiosos, que começavam a chegar, uns bajuladores insistindo para entrar, alguns jornalistas, policiais e empregados de Ricardo. Um deles, um rapaz mais jovem tentou impedi-la, porém, outro mais antigo, que já a conhecia desde o tempo que frequentava a chácara, autorizou sua entrada.
Dentro da casa, o ar estava tenso, havia muito burburinho, na sala principal, Régis estava cercado pelos principais nomes da cidade e se saía muito bem, falando firme e com segurança, parecendo senhor da situação, afinal, havia sido treinado pelo tio desde muito cedo para esse papel. Quando a vi, pediu licença se afastando dos outros para falar com ela, em particular.
— Que bom que veio, Lara. Por favor, ajude Carlos com Roberta. Minha tia deve dormir até amanhã. E você é a única amiga da minha prima, com bom senso suficiente para ajudar nessa situação.
— Lá fora está uma loucura.
— Eu sei e aqui dentro também. E vai piorar quando os políticos e os jornalistas de fora começarem a chegar. Meu tio não era importante só aqui, você sabe?
— Sim, eu sei.
Ela sabia que Ricardo tinha muita gente importante na sua folha de pagamento, patrocinou muitas campanhas políticas para colocar as pessoas certas nos cargos essenciais para seus fins.
— Onde está Roberta?
— Lá em cima no quarto dela. Carlos está tentando convencê-la a tomar um tranquilizante para dormir um pouco.
— Você já tem ideia de quem fez isso?
— Não, ainda não sabemos de nada. Tenho que voltar para aqueles abutres. Você sabe o caminho — Régis disse com um tom entediado, parecendo outra pessoa, mais sério e compenetrado.
Lara deixou Régis para trás e subiu as escadas, percorreu os corredores, onde, passou pela porta do quarto de Joana, sabia que há muitos anos, Ricardo não dormia mais ali. Deu duas batidas, de leve, na porta, Carlos a abriu, atrás dele o quarto estava mergulhado na penumbra.
— Lara! Mataram o meu pai! – Ouviu a voz chorosa de Roberta.
Carlos a olhou de uma maneira calorosa e deu um passo para o lado e a recém-chegada entrou no quarto, que viu mudar de decoração, várias vezes ao longo dos anos. Roberta estava deitada na cama, com a aparência destruída, rosto inchado, olhos vermelhos, os cabelos despenteados. Lara se sentou ao seu lado e segurou suas mãos.
— Como você está? – Era uma pergunta retórica.
— Horrível. Alguém matou o meu pai.
— Eu lamento muito, Roberta. Mas, não seria melhor você dormir um pouco, descansar para ter forças para o que virá.
— Eu já disse isso a ela. O médico deixou um remédio para que descansasse um pouco.
— Eu não quero dormir. Quero ver o meu pai. --— Roberta afirmou.
— Mas, acho que seria melhor para você, já que não poderá vê-lo agora.
— Eu não sei...
— Vamos, Roberta. — Carlos ofereceu um comprimido e um copo d’água a ela, que mesmo reticente, estendeu as mãos trêmulas para pegá-los e colocar na boca.
— Agora, durma um pouco, que eu e Carlos ficaremos aqui, velando pelo seu sono.
— Estarei aqui, quando acordar — Carlos reiterou. Enquanto Roberta se acomodava no travesseiro e Lara arrumava as cobertas sobre ela e, em alguns minutos, Roberta já havia adormecido. — Ela deve dormir por um bom tempo. Vamos até a cozinha preciso beber algo.
A cozinha estava agitada, os empregados mesmo atônitos com o fato ocorrido, corriam de um lado para o outro a fim de servir os exigentes visitantes, não parando para prestar atenção nos dois.
— Isso aqui está muito confuso. — Carlos disse, passando a mão em um prato de sanduíches. — Vamos conversar em outro lugar.
Ele seguiu na gente, já devorando um dos sanduíches, parou em frente de uma porta, abriu e já ia entrando, Lara vacilou.
— Esse é o escritório de Ricardo — disse, apreensiva.
— E daí? Ele não vai usar mais — Calos disse de forma fria e objetiva, dando de ombros.
— Mas é um desrespeito.
Carlos a encarou por algum tempo, deu um passo para trás e fechou a porta.
— Vamos para outro lugar.
Escolheram uma pequena sala íntima, se acomodaram nas poltronas, Carlos continuou comendo vorazmente, Lara sentia um certo mal-estar, pois mesmo sendo avisada que Joana estava dormindo, tinha receio que ela poderia surgir a qualquer momento e pegá-los juntos.
— Quem você acha que matou, Ricardo? – Lara perguntou.
— Pode ter sido qualquer um, talvez, um pai de uma das meninas que ele pegou, um empregado descontente, um desafeto antigo.
— É estranho você falar assim.
— Não é só que ele morreu, vai deixar de ser um criminoso, ele era um pedófilo — Ele não disfarçou o seu rancor.
— Fale baixo, Carlos. Você enlouqueceu?
— Por quê? Ou você não acha que a maioria das pessoas que estão aqui já não sabem disso?
— Ele foi assassinado, se alguém ouve você falando assim pode despertar suspeita — Lara ponderou em voz baixa.
— Você tem razão — ele respondeu de forma branda.
— Eu só não entendo o porquê de tanta raiva, Carlos.
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