Barcelona, 21 de julho de 2016

— Essa cidade é linda, forte, pungente, se sente no ar, os séculos de amores e paixão, por isso é berço de tantos artistas – Lara declarava do alto mirante, contemplando a cidade lá embaixo.

— De onde vem tanto entusiasmo? – Carlos a olhava de uma forma divertida.

— Da vida. Você não consegue senti—la. A vida. E da liberdade pairando sobre nós, podemos respirá-la, deixe que ela encha os seus pulmões e aqueça sua alma — Lara respira fundo.

Ele parou e olhou ao redor como se estivesse procurando por algo.

— Eu só sinto esse sol forte, esturricando a minha pele, vou ficar todo vermelho mais tarde.

— Como não pode senti-la, A vida. Ela está aqui pairando sobre nós, nos envolvendo, sinta o seu sangue circular quente nas veias, seu coração bater mais forte, o ar puro encher seus pulmões.

— O que deu em você, mulher?

— Só esse gosto de liberdade. Como é bom estar viva e ser livre.

— Você fala como se já tivesse sido uma prisioneira. Por acaso, você já cumpriu pena? É algum tipo de criminosa? – Carlos perguntou, com dissimulada preocupação.

Lara riu, solta, sacudindo a cabeça em negação.

— Não da forma que você pensa.

Valverde, 22 de março de 2017

Ao desligar o telefone, Lara encarou o teto, ciente que precisava ter mais cuidado de agora em diante, mudando o seu modo de se referir a Ricardo com tanta intimidade, precisava que ser mais formal, como todos na cidade, demostrando certa distância, respeito.

Tendo sido o próprio Ricardo que insistiu em derrubar essa barreira de solenidade entre os dois, há anos. Riu ao pensar se passasse a tratá-lo com mais formalidade, o deixaria irritado, por isso gostou da ideia.

Lembrou-se de quando ele a levava àquela casa, para brincar com ela. Como a vestia com roupas bonitas, algo que o salário do seu pai, um simples empregado da prefeitura, jamais lhe permitiria ter.

— É lindo, seu Ricardo – A menina Lara falou toda feliz, admirando no espelho, o vestido que ele acabou de colocar nela.

— Por favor, Lara, somos amigos. Amigos não se trata se senhor ou senhora – ele retrucou de um modo manso.

Ela sorriu, tímida, abaixou os olhos, seria difícil, pois o poderoso Ricardo Hernández era um mito, alguém a se temer, como poderia ser seu amigo.

— Você é minha amiga, não é, Lara? – Ela assentiu com a cabeça. – Amigos confiam um nos outros e guardam segredos, não é mesmo? Então, tudo isso aqui é nosso segredo. Só meu e seu, de mais ninguém, nem sua mãe, nem Roberta pode saber disso. Entendeu? – Outra vez, ela concordou com a cabeça. – Então, venha aqui. Não mereço um beijo pelo presente que dei para você. — E ele a beijou, como um homem beija uma mulher.

— Como era estúpida! – A atual Lara se recrimina, mesmo compreendendo que não tinha culpa na época.

Carlos colocou o telefone sobre a mesinha de cabeceira, como era bom falar, outra vez, com Lara. Recordando os dias quentes e intensos em Barcelona, uma pequena lacuna no tempo onde foi feliz. Mas, o que teria acontecido se Lara não tivesse sumido, daquela maneira intempestiva, mudaria seus planos? Provavelmente, não. Vinha trabalhando nisso, há muito tempo, não poderia pôr tudo a perder por uma paixão de verão. Era preciso se focar, mas falar com Lara, aliviava sua tensão, dava-lhe energia para prosseguir com suas ideias adiante.

— Bom dia, mãe. Onde está o pai? – Lara perguntou, assim que entrou na cozinha, tomando um lugar à mesa e pegando um pedaço de pão e passando manteiga e se servindo de café.

— Ainda dormindo. Como foi o jantar, ontem? Você chegou tarde.

— Você estava acordada àquela hora?

— Seu pai não dorme direito, tem pesadelos, fica se debatendo.

— Regis me trouxe, ficamos jogando conversa fora – Lara contou meia verdade, dando de ombros.

— Você não devia ficar enfurnada na casa dos Hernández, Lara.

— Mãe, eu já disse. Estou namorando Regis e não sou mais criança.

— Mas, está agindo como uma, se exibindo para Ricardo Hernández desse jeito – a mãe falou, irritada.

— Mãe, onde o pai estava quando passou mal?

— Naquela birosca que costumava frequentar, estava muito quente no dia, a pressão subiu, ele caiu no meio da rua. O resto você já sabe.

Lá dentro seu pai gemeu, Lara fez menção de se levantar, mas sua mãe a impediu.

— Fique e termine o seu café, eu vou ver o que é.

Ela sumiu através da porta, sentada onde estava, Lara ouvia a voz paciente da sua mãe e os resmungos do pai, perdeu a fome, com o coração apertado, lembrou-se do homem alegre e de voz grave, que habitou aquela casa, no passado. Levantou-se, tirou a mesa, lavou a pouca louça.

— Mãe, precisa de algo? Eu vou dar uma volta – falou alto para outra mulher ouvir, pois sabia que ela estava ocupada, cuidando do marido.

— Não, obrigada.

Pegou a chave do carro e saiu, dirigiu pelas ruas da cidade movimentadas, àquela hora da manhã, com destino certo. Estacionou quase diante do pequeno boteco que o pai costumava encontrar os amigos e jogar conversar fora tomando uma cerveja ou um café. O lugar não mudou nada, igualzinho como se lembrava, a meia parede de azulejos amarelados, o chão encardido, o antigo balcão expondo petiscos nada apetitosos, até os homens pareciam que envelheceram no mesmo lugar, sentados nos bancos de madeira escura. O velho Natanael ainda estava atrás do balcão, com sua cara enrugada, seu pano acinzentado sobre o ombro e o palito de dente dançando na boca. Algumas vezes, quando era criança, seu pai a trouxe ali, para tomar um refrigerante.

Todos olharam quando ela entrou, curiosos, parou em frente ao balcão.

— Natanael?

— Sim. Você é a filha do Orlando.

Ela era bem conhecida na cidade. A garota degenerada que fugiu de casa, para o desgosto da família.

— Sim, sou eu.

— Como ele estar?

—Na mesma.

— Espero que melhore logo, ele faz falta aqui. Em eu que posso ajudá-la, menina?

— Eu queria saber o que aconteceu com meu pai? Eu soube que ele saiu daqui, antes de passar mal.

Natanael a encarou por algum tempo, pensando em uma resposta, o palito dançando freneticamente na sua boca, então ele segurou na mão.

— Moça, eu não sei o que contaram para você, mas o seu pai não esteve aqui, naquele dia.