Barcelona, 20 de julho de 2016

Sentados nos bancos curvos, enfeitados por caquinhos de cerâmicas coloridos, diante das casas que pareciam ter saídas de histórias infantis, no sol abrasador da tarde, Lara levou a garrafa d’água a boca, a fim de aplacar o calor, em seguida, a entregou para a Carlos, que toma um grande gole.

— Agora, eu que saberei dos seus segredos – ele disse a seguir.

— Ainda bem que é só uma crendice!

— Por quê? Quais segredos tão terríveis que eu não posso saber?

— Não há mais nada que você precise saber sobre mim, do que já sabe — ela lhe respondeu com um sorriso triste — Por que escolheu essa cidade, Carlos? E não me diga porque é fã de Gaudi ou Miró.

— Talvez, eu tenha vindo para cá, somente para conhecer você. Quem sabe, nosso encontro estava predestinado, escrito nas estrelas ou algo assim – ele respondeu, de um modo empolado.

— Você não me parece ser alguém tão crédulo, a ponto de acreditar no destino.

— Quem disse isso? Sou um homem de muita fé. Basta estar na hora certa no lugar certo, para acontecer o que chamamos de destino. Então, posso dizer que foi o destino que me levou a estar naquele trem, àquela hora.

— E chutar o banco o banco da frente.

— Chutar o banco da frente, não foi coisa do destino, foi de propósito, para poder falar com você.

— Seu malandro! – Ela o encarou, sorrindo.

Valverde, 22 de março de 2017

— Mãe! – Lara chamou, ao entrar em casa, largando a chave do carro sobre a mesa, a bolsa na cadeira. – Mãe!

Sua mãe apareceu através da porta, enxugando as mãos em um pano de prato.

— O que houve, Lara?

— O que houve é que estive no bar do Natanael.

— E daí?

— Ele falou que o pai não esteve lá, no dia que passou mal.

— Ele deve estar enganado – a mãe retruca, sacudindo as mãos no ar, como se aquele fato não fosse importante. Lara olhou dentro dos olhos dela e percebeu que estava mentindo.

— Mãe, por que está me escondendo a verdade?

— Porque não tem como mudar o que aconteceu. Deixe essa história no passado, Lara. Descobrir a verdade, só poderá piorar as coisas

— Como deixar no passado? Eu quero saber o que fez o pai ficar assim desse jeito – retrucou, exaltada.

A mãe desviou os olhos da filha e encarou o chão.

— Mãe, por favor? — Sua voz era mais suave.

A mulher mais velha ergueu o rosto, soltando o ar com força, como se quisesse libertar todos os sentimentos reprimidos.

— Pois bem, se é o que quer. No dia em que ficou doente, seu pai entrou por aquela porta totalmente transtornado, gritando pelo meu nome, o rosto vermelho, suado, podia ver as veias saltadas no seu pescoço. Marta, é verdade essa história que me contará sobre Lara e Ricardo Hernández?

— Não! — Lara colocou a mão, segurando o grito.

— Eu tentei desconversar, falei que eram apenas boatos maldosos para difamar você. Tentei descobrir até onde ele sabia. Que história? Perguntei.

— Que Ricardo Hernández violou a minha filha? Fez da minha menina uma rameira? Ele me disse. Eu neguei, mas estamos casados há muito tempo, ele viu nos meus olhos que estava mentindo. Então, ele começou a gritar que ia matar Ricardo, que ele iria pagar bem caro pelo que fez. Aí, ele colocou as mãos na cabeça, estava tão vermelho, que parecia que ia explodir, deu um urro e caiu bem aí, onde você está.

No fim da narrativa, Lara se lembrou de respirar.

— Você sabe quem contou para ele?

— Não, nunca soube e acho que nunca saberemos.

— Mas, como se quase ninguém sabia dessa história?

— Você se fica iludindo, achando que era um grande segredo. Claro que havia muita gente sabendo, Ricardo Hernández de um monte de empregados, uma pessoa conta para outro que conta para outro, mas ninguém tinha coragem de falar abertamente. Além do mais, você não foi a primeira e nem tão pouco a última garota que aquele crápula abusou. Todo mundo, nessa região, sabia que ele gosta de meninas, porém ninguém tem audácia para fazer algo contra isso.

— Mas, por que fariam isso com meu pai depois de tanto tempo?

— Eu não sei, talvez, vingança.

— Vingança? Contra quem? Eu fui uma vítima!

— Quem sabe, o próprio Ricardo querendo se vingar de você, por ter fugido.

— Ele não faria isso!

— Como pode saber?

— Eu conheço ele bem, não é típico dele. Ele não é um homem de intrigas.

— Às vezes, acho que você o admira, do modo como fala.

— Não, você está enganada. Eu nunca o perdoarei pelo que fez comigo. Mas, preciso saber quem contou para o pai.

— Para quê? Nada vai mudar. O que está feito, está feito, seu pai nunca mais será o mesmo – Marta rebateu, resignada.

O telefone de Lara toca, ela não quer atender, continua olhando para mãe, completamente sem ação. Sem saber o que queria. Vingança? Mas, isso resolveria? Ela estava certa, nada iria mudar.

— Acho melhor você atender. Eu vou cuidar do almoço – Marta virou-se e voltou para cozinha. Tirou o seu celular do bolso, era Regis, que havia mandado uma mensagem, convidando-a para uma rodada de jogos na casa do Hernández mais tarde. Lara fica indecisa. Para que ir e continuar aquela história? Será que valia a pena frequentar o covil do lobo? Respondeu que sim, se acaso quisesse descobrir o que aconteceu com seu pai.

Carlos se concentrava em manter o sorriso bobo e o falso interesse, enquanto Roberta lhe explicava, entusiasmada, detalhes da cerimônia de casamento e a recepção, estavam no enorme terreno na parte de trás da casa da fazenda.

— Para a cerimônia, aqui podemos construir um baldaquino com colunas gregas enfeitas por flores, que ainda não me decidi quais seriam, talvez, lírios e rosas. As cadeiras ficarão ali, sobre um piso branco. Mas adiante, será a tenda para a festa, a pista de dança em acrílico transparente ficará sobre a piscina, assim dançaremos sobre as águas. O que você acha, Carlos?

— Eu estou achando um pouco exagerado. Por que, simplesmente, não nos casamos na igreja e fazemos a festa no clube?

— Clube? Não quero o meu casamento igual a de todo mundo dessa cidade. Eu quero algo esplendoroso, para ser lembrado daqui a dez, vinte anos. Além do mais, meu pai irá bancar tudo, sendo assim dinheiro não será problema.

— Você é quem sabe, meu bem – Ele deu de ombros. Sabia que não poderia dissuadir sua noiva.

— Sim, querido. Eu que sei, já estamos nos entendendo muito bem.

— Mas, seu pai sabe desses seus devaneios a respeito do casamento.

—_ Ainda não. Contudo, só a única filha dela e só pretendo me casar uma única vez na vida, sendo assim, eu tenho argumentos fortes para persuadi-lo a esse respeito. Eu e minha mãe estamos pesquisando uma empresa conceituada que cuide disso tudo. Será um casamento esplendoroso e inesquecível! O maior já visto nessa região!