Barcelona, 21 de julho de 2016

O telefone de Carlos tocou logo cedo, ele olhou para tela, e saiu da cama, para atender no banheiro, de modo falsamente casual, talvez, achasse que Lara não houvesse percebido aquele movimento, nem desconfiasse que havia algo de muito estranho nisso. Assim que ele retornou, ela o fitou, esperando qualquer palavra, uma mera explicação, que não veio. Lara andava desconfiada desses constantes telefonemas, atendido em voz baixa que o afastava dela ou, simplesmente, eram recusados, sem nenhum comentário.

Quem sabe, só estava bancando a chata, uma daquelas mulheres que tem ciúmes da própria sombra, vendo problemas onde não existiam, afinal, eles se conheciam há tão pouco tempo, menos de uma semana, mesmo que parecesse que foi pela vida toda. No entanto, havia percebido que Carlos frequentemente desviava o assunto quando ele entrava no foco, nunca falava muita da sua vida fora daquele tempo mágico, em que viviam atualmente. Lara sabia pouco a respeito dele, só sua profissão e onde trabalhava, sua cidade natal e onde morava, o resto ficava escondido sob um domo de silêncio, mas ela não se importava muito com nada disso, já também tinha seus segredos do passado. Haveria um tempo certo para revelá-los? Quando desnudar a alma diante do amante como desnudamos os corpos?

Naquela noite, abraçados, saíram na Las Ramblas lotada de gente de todo o mundo, aproveitado o calor e a vida, lá em cima, a lua minguava, o tempo não parava, porque desejassem. Paravam para ver um belo prédio no estilo art nouveau, rico em detalhes ou prédio com a flores em alto relevo na fachada. Um santo protegia uma entrada, uma igreja muito antiga com seu estilo gótico com ricos detalhes em ouro. Terminaram a noite, em um restaurante de tapas, comendo deliciosas e pequenas iguarias diversificadas, e bebendo encorpado um vinho em um tom purpura, brindando o fim de mais um dia juntos.

Valverde, 20 de março de 2017

Sem vontade de voltar para casa, Lara dirigia com destino certo, quando seu telefone tocou, o nome de Regis apareceu na tela, pensou recusar, mas atendeu.

— Lara, onde você está? Não havíamos combinado para hoje, à tarde?

— Eu estou dando uma volta, vou até a trilha da cachoeira, quer se encontrar comigo lá?

— Não, muito obrigado, querida. Sou alérgico a mosquito, odeio poeira e calor, vou ficar por aqui. A gente se fala depois.

Ela desligou com um sorriso, era melhor assim, ficaria sozinha, pois não deveria ter ninguém naquele lugar a essa hora do dia. Estacionou o carro em uma estradinha de terra batida, adiante da porteira que abriu, entrando em propriedade particular, e sabia muito bem quem era o dono do lugar, como grande parte das terras das redondezas, essas também pertenciam a Ricardo, mas não se importava, não havia viva-alma ali para impedi-la de prosseguir.

A trilha começava em um descampado um tanto árido, com mato baixo, que ia fechando em uma mata densa, onde o sol entrava timidamente por entre as folhas das árvores, Lara não tinha medo, ia ali desde criança peralta, fujona, assim conhecia bem o caminho e seus acidentes.

Andou com cuidado, olhando bem onde pisava por causa das cobras, já ouvindo o barulho da queda d’água logo à frente. Por fim, chegou na pequena clareira, pouco havia mudado nesses últimos anos, impassível com o tempo, as águas do riacho lá de cima, continuavam caindo barulhentas sobre a cacimba. E como fazia na adolescência, tirou a roupa e mergulhou, sem medo, nas águas claras e frias. Nadou por algum tempo, até sentir as pontas dos dedos adormecerem e enrugarem, depois, se estirou na pedra cálida pelo sol da tarde, que aquecia sua pele. Recordou-se das praias de Barcelona, quando se deitava ao lado de Carlos, no meio do burburinho dos turistas, ficavam ali por horas, dourando-se ao sol, até o poente, lá por volta das 9 horas da noite, comiam frutos do mar em um dos restaurantes da redondeza, tomavam vinho e cerveja, voltavam para casa e faziam amor, a lembrança fez um calafrio percorrer sua espinha.

Um barulho estranho a trouxe de volta para Valverde, talvez, outros visitantes se aproximavam, sentou-se, ligeiro, e cobriu depressa sua nudez, com as roupas que estavam a mão. O som se transformou em um vulto, ela fez uma aba com a mão para proteger os olhos do sol e ver melhor, sem acreditar, que o vulto se transformou em Carlos.

Parou ao lado dela, com uma expressão aliviada, por ter chegado ao fim da sua jornada com sucesso. Quanto a Lara, não podia acreditar que teria mais uma conversa difícil naquela manhã.

— Como você sabia que eu estava aqui? – Lara perguntou sem rodeio, quando ele tirava a camiseta e sentava-se ao lado dela, com as pernas encolhida os cotovelos sobre os joelhos.

— Eu ouvi a sua conversa com Regis, depois usei o GPS e a boca para chegar aqui. — Não disfarçou o olhar para a blusa semiaberta da garota, que a ajeito com cuidado.

— E Roberta, como se livrou dela?

— Ela saiu com a mãe para ver algo do casamento. Ela está obcecada por isso.

— E você não?

— Eu não ligo – Ele deu de ombros.

—Por que está aqui?

— Tinha que vir para conservarmos a sós e tentar saber porque você me deixou, o que que eu fiz de errado, para não merecer nem um simples adeus.

— Que diferença fará na sua vida se souber essa resposta? Foi melhor assim, sem dramas, nem lágrimas, sem um melodramático adeus – ela mentiu.

— Houve muito drama. Eu voltei para o apartamento e você, seus pertences e meu telefone haviam sumidos. Procurei você feito um louco pela cidade, fui até a estação e nenhum sinal e nem tinha como encontrá-la. Procurei você nas redes sociais e nada.

— Você já estava com Roberta, quando nos conhecemos em Barcelona?

Ele assentiu com a cabeça.

— Mas não era nada sério.

— Como não era sério? Você vai se casar com ela!

— Sei lá porquê. Por comodismo ou algo parecido, mas não por amor. Muitas vezes, quero acabar com toda essa história, ir embora.

Lara o olhou por algum tempo, pelo pouco ou pelo muito, que conhecia de Carlos, nunca imaginaria ele se casando com uma mulher como Roberta, mas, com certeza, estava errada. Seria pelo dinheiro do pai dela, que ele venderia a sua alma.

— Por que não vai embora?

— Porque não sou assim, não deixo nada para trás dessa maneira. Por isso, preciso de uma resposta sua. Preciso saber porque você me abandonou.

Ela o encarou por alguns instantes, considerando se ele merecia ou não uma explicação, um relato do que aconteceu naquela tarde. Decidiu-se.

— Preciso ir. Está ficando tarde. – Ergueu-se, pegou o resto dos seus pertences e começou a se ajeitar, saindo a passos largos em direção a trilha.

— Você não vai me dizer o que aconteceu? – Ele continuou no seu encalço, entrando na mata, atrás dela.

— Por que você quer saber? Acabou, é passado! Não há nada que possamos fazer para mudar o que ocorreu.