Madrid, 15 de julho de 2016

Lara já havia decidido que após o término do curso, em Madrid, iria passar os seus últimos dias na Espanha, em Barcelona, infelizmente, sozinha, pois seus colegas preferiram a festiva Ibiza, para terminar sua estadia naquele país. Mas como ela não poderia ir a terra de arquiteto Antoni Gaudi, que sempre a fascinou com sua arquitetura surpreendente e cheia de simbolismo e estava só a algumas horas de trem? Não tinha muito dinheiro, contudo, sabia se virar com pouco, já que saíra de casa, há muito tempo, para enfrentar o mundo e estava se dando muito bem, até ali. Afinal, olhe onde chegou? Do outro lado do oceano.

Até o último minuto, seus colegas tentaram convencê-la a ir com eles, mas nada a faria mudar de ideia, já sonhando estar diante da fantasiosa catedral da Sagrada Família, mais parecida com um castelo de areia, cujas imensas torres espetavam o céu e inúmeros detalhes.

Assim comprou uma passagem de trem em um horário inusitado, pois era mais barato, lá ficaria em um albergue. Levava pouco coisa, pois, para facilitar, o grosso da bagagem ficou no apartamento de uma amiga em Madrid. E afinal, era verão e estava muito quente, não precisaria de muita roupa, só do essencial. Ainda poderia aproveitar as praias do Mediterrâneo.

Sendo assim, antes das 7 horas da manhã, já estava na estação pronta para embarcar, colocou sua pequena mala no compartimento e procurou o seu lugar, sem me preocupar porque o vagão estava quase vazio, só havia um grupo de espanhóis sonolentos e alguns turistas japoneses agitados. O banco ao seu lado ficou desocupado, aproveitou para fechar os olhos e descansar, mas a sua paz durou pouco, quando o seu assento foi sacudido, a primeira vez em relevou, mas na terceira olhou de cara feia para trás e deu de cara com ele, que ergueu a mão se desculpando, suas pernas eram muito compridas para o espaço entre as poltronas. O trem saiu, Lara voltou a fechar os olhos querendo aproveitar aqueles momentos para descansar, antes da sua planejada maratona turística, mas logo foi sacudida de novo, sem nenhum constrangimento, xingou um palavrão em bom português.

— Desculpe, eu só queria me levantar para tomar um café – respondeu na mesma língua e ela o fitou surpresa com a coincidência. – Escute, já que eu não a deixo dormir, aceitaria tomar café comigo?

— Não sei... – pensou que lá deveria ser bem caro para suas parcas economias, havia trazido alguns pacotes de biscoitos e água quando a fome batesse.

— Por favor, aceite o meu convite, é o mínimo que posso fazer para compensá-la pelo incômodo – ele completa.

— Sendo assim, eu aceito.

Ele sorriu, satisfeito.

Eles se levantaram, só aí ela se deu conta da real altura dele.

— É difícil acomodar mais 1,90 m em qualquer espaço – disse, com um sorriso sem graça. — O meu nome é Carlos.

— Muito prazer. O meu é Lara

Foram para o vagão-restaurante, escolhemos os sanduíches e café, que ele pagou, e se sentaram à mesa junto a uma janela, vendo a paisagem passar velozmente.

— Por que está indo sozinha para Barcelona, Lara?

— Conhecer as obras de Gaudi. Nenhum dos meus amigos quis vir preferiram Ibiza, então eu resolvi vir sozinha — Deu de ombros.

— Muita coragem da sua parte, se aventurar assim sozinha

— Sempre fui muito determinada. E você, por que veio sozinho?

— Eu sempre quis vir, então, surgiu uma oportunidade e aqui estou. Sabe, poderemos conhecer a cidade juntos, o que acha?

— Acho que seria uma boa ideia.

Barcelona, 15 de julho de 2016

— Preciso ir ao albergue deixar minhas coisas. Ela fica um pouco distante, acho que vai demorar um pouco – Lara anunciou ao chegarem à estação.

— O apartamento que aluguei fica bem no centro, perto Las Ramblas, então, você pode deixar seus pertences lá. – Lara ficou receosa de tanta generosidade. – Eu sei que pode parecer estranho, mas se quiser eu digo onde está a chave e você sobe sozinha.

— Tudo bem, só preciso telefonar para o albergue, dizendo que vou atrasar um pouco, para que segure a minha vaga.

— Vamos pegar um táxi.

— Eu estava pensando em ir de metrô.

Carlos sorriu, entendendo a situação.

— Eu ia de táxi com ou sem você, então, não precisa dividir comigo, está bem?

Ela concordou com a cabeça, entraram em um carro, Carlos deu o endereço ao motorista.

— Eu prefiro alugar um apartamento a ficar em um hotel. É menos impessoal. Podemos almoçar depois daqui.

— Se não se importa já tenho um roteiro todo pronto para cada dia que estarei aqui.

— Sendo assim, vamos ao seu roteiro, mas precisaremos comer em algum momento.

Ele estava certo, não podia passar o tempo todo se alimentando de água e biscoito, se bem que haveria o café da manhã no albergue, com o qual pretendia se segurar boa parte do dia e arranjaria um lugar barato para comer à noite. Mas, hoje era o seu primeiro dia, poderia gastar só um pouquinho mais.

O apartamento que Carlos alugou era pequeno, com apenas quarto e sala, mas bem decorado e bastante confortável e ficava bem perto Las Ramblas, a rua mais movimentada da cidade, e foram para lá, se misturando com o fluxo de gente.

— Está com fome? Porque eu estou. Podemos ir ali – Ele apontou para o portão de ferro, com a placa anunciando Mercado São José. Ela deu de ombros, por que não?

O mercado era pulsante e com suas mercadorias expostas, dando um colorido especial ao lugar. Os dois andaram entre as barcas de frutos do mar, frutas, legumes e verduras observando e comentando os pequenos detalhes descobertos, rindo das estranhas criaturas marinhas e admirando as frutas exóticas. Por fim, descobriram atrás das barcas de peixe, uma deliciosa pizza e finalizaram com uma salada de frutas frescas.

— E agora, qual é o próximo passo do seu roteiro?

— Conhecer a catedral da Sagrada Família, planejava ver a luz do pôr do sol incidindo nos seus vidrais.

— Você sabe como chegamos lá?

— Sei.

Passaram o resto da tarde, admirando a inesperada, delirante e inacabada catedral de Gaudi.

— De longe parece um castelo de areia, mas aqui, constatamos como é tão rica em detalhes. É uma das igrejas mais belas que já conheci – Carlos observou, enquanto passeavam pela nave principal.

— Engraçado, eu também acho a mesma coisa. Por isso, está demorando tanto para ser finalizada.

— Agora, é a vez do meu roteiro. Um amigo me indicou um restaurante, onde se come uma paella incrível. E, por favor, antes que invente uma desculpa, eu estou convidando você, não se preocupe com dinheiro e só quero a sua companhia.

— Certo – ela sorriu e assentiu com a cabeça.

No fim da noite, em um encantador restaurante, jantaram a luz de vela, ao som de um violão comovente, tomando um vinho encorpado. A conversa passeava com facilidade por diversos assuntos, ficando cada vez mais íntima e reveladora, à medida que a garrafa de vinho se esvaziava, a ponto de perderem a hora, o que deixou Lara um tanto exaltada, com medo de ter perdido a vaga no albergue.

— Preciso voltar para o seu apartamento e pegar minhas coisas – ela disse, com urgência, pensou em ligar para confirmar a sua vaga.

Carlos se sentiu um tanto culpado com a situação.

— Eu levo você até lá e explico a situação – insistiu quando chegaram ao apartamento, ela pegou seus pertences, ligeiro, e estava pronta para sair, mas sem muita vontade de deixá-lo

— Não precisa, vou ligar para lá. O dia foi realmente incrível. Obrigada, Carlos. Podemos combinar amanhã

— Eu nunca imaginaria que minha viagem a Barcelona fosse tão ... maravilhosa.

Ela se ergueu nas pontas dos pés para beijar o rosto dele, mas em vez disso, beijo de leve a sua boca. Sem vacilar, ele a abraçou pela cintura e retribuiu o beijo com intensidade, a abraçou, erguendo-a, tirando os pés dela do chão. Lara largou sua mala que caiu com um baque seco, deixando as mãos livres para envolver o pescoço dele. Ele a carregou para o quarto, para cama, tirou a roupa dela, já eram tão íntimos se conheceram um dia inteiro, no calor inclemente daquela cidade, se revelaram, expuseram sua alma, então, por que não seus corpos?

Carlos beijou o corpo dela, quente e ávido, sentindo o gosto salgado do suor na sua língua. Lara queria aquele homem, com certeza, só um romance inconsequente de verão, inebriante com o vinho, ardentes como os pimentos, que comeram no jantar, para temperar ainda mais aquela viagem. Os corpos queimaram, sôfregos, as mãos incansáveis tocavam e acarinhavam, as bocas desejosas, sugavam famintas. Em um ato abrasador, para saciar o desejo latente, que nasceu e cresceu sobre o céu azul e o sol ardente daquela cidade.