Sobre Aliens E Irmãos
2 I - Segundo - Sobre Clubes e Gêmeos
Notas iniciais

Ayuzawa Suzuna permitiu-se dar um pequeno sorriso de satisfação ― seu um tanto bizarro e característico esgar de lábios apático, porém. Isto porque, desta vez ao adentrar na sala do clube ― seu almejado Clube dos Sorteios, inédito no Seika ―, não seria um recinto vazio a recebê-la. Havia recrutado seu primeiro membro. E, assim como a adesão da professora Miyazono como supervisora responsável, foi extremamente simples.
― É estranho que a própria presidente do clube se atrase, Suzuna-san ― censurou o moreno debruçado sobre uma máquina de costura.
Durante alguns poucos segundos, Aoi desviou os olhos do tecido em suas mãos para fitar a colegial que acabara de adentrar no ambiente, para então voltar sua atenção novamente à feitura de tão complexa roupa. Já a garota de marias-chiquinhas não respondeu imediatamente à repreensão; apenas sentou-se à frente do rapaz para enfim justificar-se, enquanto folheava um catálogo:
― Estou procurando mais interessados, Aoi-kun.
―Acha que vai ser tão fácil convencê-los? ― indagou, incrédulo.
Contudo, sua atenção ainda estava voltada para o tecido que futuramente se converteria numa vestimenta para as funcionárias do Maid-Latte. E foi este interesse que o trouxe ao clube: necessitava de um espaço onde pudesse costurar com liberdade, pois em sua própria casa o pai preconceituoso o restringia. Enquanto isso, Suzuna tinha um espaço disponível para suas atividades, ainda que utilizasse o mínimo possível; sua demanda era por novos membros.
Eram ambos de uma mesma turma: 2-A, coincidentemente a mesma que sua irmã mais velha um dia fez parte. Mantinham um mínimo, mas conveniente contato devido à relação que ambos tinham com Misaki, e os interesses complementares logo foram evidenciados. Ao descobrir do que o rapaz de olhos claros estava à procura, prontamente ofereceu sua própria sala, em troca de sua adesão; deixou claro que os deveres para com o clube eram inexistentes.
― É uma proposta tentadora, por que iriam recusar?
― Se você oferece a alguém uma vaga num clube em que se “pode fazer o que quiser”, certamente vão julgar uma mentira.
― Você aceitou, Aoi-kun ― lembrou a morena, divertida.
― Por que eu tinha meus próprios interesses, caramba! ― bufou o rapaz, indignado.
― Exato ― concordou ela, em tom monocórdio, enquanto assinalava em um caderno os sorteios nos quais estava interessada. ― Só preciso encontrar mais pessoas assim.
Mais uma vez, Aoi a mirou brevemente; o cenho franzido com a irritação. Não dormia há vários dias, concentrado na tarefa que a tia lhe aceitara incumbir. Não poderia decepcioná-la, e dedicaria-se à responsabilidade até a sua exaustão. E Suzuna, sempre observadora, notou que seu mal-humor havia se acentuado, assim como as olheiras. Era lastimável o estado do garoto.
― Ei, Aoi-kun ― chamou repentinamente. ― Não quer ajuda?
― Hã? ― Pela primeira vez, o rapaz voltou toda a sua atenção à ela, ainda cético.
― Sou boa com atividades domésticas ― gabou-se Suzuna. Sua voz revestia-se com uma leve e falsa superioridade, afinal nada havia demais em aprender os serviços de casa enquanto a irmã mais velha ajudava com as despesas.
― Mas... é muito trabalhoso! ― Era inacreditável para Aoi o fato de que alguém lhe ajudaria sem nada em troca. Passou as mãos pelos cabelos, em desespero, ao recordar-se de algo mais: ― E nem tenho todos os tecidos necessários ainda por cima!
― Estes servem? ― sugeriu a morena, apontando para algumas estampas sobre a página.
Gradativamente arregaladas e brilhantes, os orbes azulados encaravam a solução à sua frente. ― São perfeitos!
E pela primeira vez em vários dias, Aoi sorriu espontaneamente, manifestando sua própria euforia com o bom encaminhamento de sua situação complicada. Ela não poderia discordar: o rapaz ficava ainda mais bonito quando sorria, ainda que suas intenções não fossem românticas. Apenas sentia-se bem ao vê-lo feliz.
― Então é minha obrigação ganhar para você ― murmurou satisfeita, enquanto marcava aquele prêmio como mais um de seus alvos. Iria prosseguir sem mais interrupções, mas o moreno lhe chamou, um tanto constrangido. ― Sim?
― O-Obrigado, Suzuna-san ― murmurou ele; a irritação levemente transmitida em suas palavras. Ah, então era difícil para ele agradecer, percebeu a menor.
― Meu dever como sua líder ― brincou a mais nova, enquanto estendia a mão sobre a testa em continência; gesto que ele não compreendeu.
Levantou-se, então, prestes a procurar por algum aluno cujos interesses harmonizavam com os seus naquele colégio tão diverso. Contudo, voltou-se para trás, pois, preocupada com o estado de saúde de seu mais novo colega, iria pedir-lhe que dormisse agora que ela o ajudaria com a costura. Em vão.
Pois, desta vez debruçado sobre a mesa, Aoi dormia profundamente. Seus cabelos escuros despontavam em todas as direções, embaraçados devido à posição relaxada, e a face converteu-se numa expressão tranqüila, sem o costumeiro nervosismo constante. A Ayuzawa mais nova permitiu-se sorrir brandamente, como se mirasse uma criança a quem deveria cuidar. Aoi era um bom garoto.
****
― Acorda, seu idiota!
Frustrada, Misaki bufou após sacudir o corpo adormecido de seu namorado uma vez mais. Se aquele imbecil não acordasse logo, iria atrasar-se para sua aula mais importante da semana. Seu desempenho como aplicada aluna de Direito seria desfeito por um maldito loiro pervertido. E a raiva a impulsionou a tentar uma vez mais: com movimentos mais bruscos, tentou acordá-lo uma vez mais. Inutilmente.
Pensava seriamente em deixá-lo para trás e percorrer sozinha o trajeto para a faculdade, já que seus colegas da república há muito haviam partido. Um breve vislumbre passado então ocorreu ― de uma manhã, muito tempo atrás, quando conseguiu acordá-lo sem muito esforço. Iria demorar mais do que apenas agitar seus braços, mas era sua única ― e última ― opção.
Posicionou-se, então, estrategicamente sobre o colo do rapaz, mantendo as pernas a ladeá-lo; encarou uma última vez o semblante calmo de Usui em seus sonhos, e balbuciou mal-humorada: “O que eu não faço por você...” Em poucos segundos, seus lábios estavam sobre os dele, assim como o seu corpo, sobre o parcialmente desnudo do universitário.
Não faria cerimônias ― queria fazê-lo rapidamente, e não seriam carícias brandas a despertá-lo. Apertou, então, suas coxas ao quadril que envolvia, enquanto aprofundava o beijo e entrelaçava os dedos aos fios dourados. Tentava, a seu modo, mover sua língua de maneira a incitá-lo a corresponder. E, gradativamente, conseguia sentir a veemência de Takumi crescer com sua própria.
Ao roçar sobre a ereção crescente sobre a qual estava sentada, a morena não conseguiu se impedir de gemer involuntariamente sobre a boca do parceiro, e, comprimi-lo mais contra si, enquanto moldava seus lábios aos dele com genuína voracidade. As mãos a acariciar as madeixas loiras tornaram-se mais selvagens; assim como as do rapaz, que deixaram a cama rumo à nuca feminina.
Logo não era mais Misaki a comandar sozinha os movimentos, pois ambos satisfaziam-se mutuamente. Desesperadamente. Em uma confusão de lábios, mãos, línguas, pernas, a universitária nem ao menos percebeu quando Usui inverteu as posições, mantendo-se acima dela desta vez enquanto percorria suas curvas, sedento. Agora livres, a nuca e o dorso do loiro foram atacados pelas unhas de sua namorada, que esquecera-se completamente de sua intenção inicial, perdida em meio à luxúria.
E provavelmente teria prosseguido, se não fossem interrompidos. Quando o rapaz deixou sua boca para explorar a pele de seu pescoço e colo desnudos devido ao pijama curto, proporcionando a ela uma ansiedade gostosa enquanto destinava-se ao busto sensível, o alarme soou uma vez mais, alertando-os do horário. Enfim a morena retornou à preocupação inicial, empurrando sem cerimônias enquanto saltava da cama num átimo. Estava atrasada! Muito atrasada!
― Bom dia pra você também ― cumprimentou Takumi, levemente frustrado com a interrupção, ainda que divertido enquanto a provocava.
― Você tem noção de que horas são?! ― exclamou possessa enquanto retirava do armário um conjunto qualquer de blusa e jeans. ― Vá se vestir, imbecil!
― Quanto amor durante a manhã, Misa-chan ― brincou ele, enquanto apoiava a cabeça sobre uma das palmas; o cotovelo fincado ao colchão.
―Le-van-ta!
Suprimiu o próprio riso diante da cólera da mulher: ela bem seria capaz de usar da violência no atual estado. Em um tempo absurdamente curto, estavam ambos vestidos nas ruas da capital do país, ainda que não alimentados, pois Misaki gritara que “gente atrasada não merece tomar café”. De alguma maneira, entre a concentração excessiva, embora normal de pessoas, alcançaram as portas do metrô; espremidos contra a massa de assalariados e estudantes.
― Vai chegar à tempo, presidente ― assegurou Takumi sobre seu ouvido. Mesmo após a formatura a denominação permanecera.
― Quantas vezes vou ter que repetir que não sou mais presidente? ― resmungou ela, irritada. Também não era mais ‘Misa-chan’, mas o bendito apelido também fora mantido.
―Sempre vai ser minha presidente ― murmurou ele em divertimento, observando a reação da namorada. Ela arqueou as sobrancelhas.
― Vai ter que fazer mais que isso, idiota ― avisou.
Pouco a pouco, ela se acostumara com as provocações de Usui, a ponto de deixar de constranger-se com suas insinuações. Não corava mais ao ouvi-lo declarar-se ou sugerir qualquer tema sexual, o que fez com que o rapaz passasse a tentar envergonhá-la de todas as maneiras possíveis. Esta era mais uma tentativa frustrada.
Contudo, repentinamente o loiro aproximou-se e tomou seus lábios, num beijo rápido, porém doce e atrevido. Surpreendida, ela mal reagiu diante da atitude impulsiva, e quando ele afastou-se, mirou confusa o rosto daquele pervertido. Beijá-la ali, em público? E, ainda que passassem despercebidos em meio a tantas pessoas, ele lhe correspondia com um semblante compassivo que lhe enraivecia. Mais uma vez a morena não havia enrubescido, pensou ele.
― O que foi?
― Sua estação, Misaki ― apontou ele, enfim, o destino da namorada. A morena percebeu então: fora um beijo de despedida.
―O que eu não faço por você ― disse, contrariada, antes de esticar-se para selar seus lábios aos dele uma última vez antes de partir.
****
Suspirou pesadamente enquanto afundava seus dedos entre os fios escuros. Agora compreendia o comportamento e a fúria de Ayuzawa Misaki quando presidente do Seika, quando ocupara a mesma posição. Era uma função estressante, exaustiva e contudo, em raros momentos recompensadora. Sentiria-se um escravo do colégio se não escolhesse tal cargo por iniciativa própria.
Entretanto, diante de toda aquela papelada, Kanou não encontrava nenhuma vantagem ou prazer em executar aquele trabalho fatigante. Talvez porque a fome estimulasse sua letargia, já que não almoçara para adiantar o serviço. E assim teria feito se não fosse interrompido por uma marmita depositada à sua frente. Mal percebera a aproximação deles.
― Quer morrer de fome, é? ― indignou-se a garota enquanto cruzava os braços.
― Kanou-chan é masoquista. Nunca percebeu, Yuka-chan? ― retrucou o rapaz que deixara o recipiente com almoço para o presidente.
Enfim Soutarou fitou seus dois vice-presidentes. Mirikamo Yukari e Mirikamo Hiyoru eram irmãos gêmeos, reconhecidos por suas exóticas madeixas rubras e seu temperamento ácido. Lembrou-se da confusão que rendera a inscrição para a única vaga: Yukari se candidatara, e devido a um pequeno deslize de um dos responsáveis pela documentação, o nome que constara foi “Mirikamo Hikari”. Como não existia ninguém no colégio que daquela forma se chamava, ambos os irmãos Mirikamo foram aceitos para o cargo.
― Vai me agradecer por gastar do meu precioso dinheiro... ― prosseguiu Hiyoru, sentando-se sobre a ponta da mesa. ― Ou vai continuar com essa cara de tapado aí?
― Quanta educação, Yoru ― ironizou a irmã, enquanto retirava alguns papéis para levá-los consigo.
― Obrigado, Hiyoru-san ― agradeceu o moreno um tanto embaraçado. ― Onde está indo, Mirikamo-san?
Lidar com aqueles gêmeos já seria difícil devido ao seu comportamento muitas vezes insolente e atrevido, inadequados para um membro do Conselho Estudantil. Ainda por cima, havia a confusão ao denominá-los, pois compartilhavam do mesmo sobrenome. Como Hiyoru, o mais esquentado, não aceitava que lhe chamassem de maneira tão impessoal, todos referiam-se à ele pelo nome, enquanto a Yukari era reservado “Mirikamo-san”.
― Agora tenho que cumprir meu serviço ― explicou a ruiva, citando seu misterioso emprego de meio período. Deu um meio sorriso malicioso ao completar: ― Vou levar minha parte para concluir em casa, mas Yoru está muito disposto a te ajudar.
― O quê!?
― Boa sorte! ― Despediu-se com um último e dissimulado sorriso, enquanto divertia-se internamente com a exasperação do irmão e o desconforto de Kanou.
No entanto, deixá-los sozinhos era a melhor opção, tendo em vista a fobia do rapaz mais novo. Tanto ela quanto Yoru possuíam exímia capacidade de observação e logo perceberam o motivo pelo qual o presidente se encolhia a cada aproximação feminina. A implicância do garoto com Soutarou, que iniciara-se quando descobrira que, mesmo mais de 3 meses mais velho, ainda assim era mais baixo, acentuara-se ao descobrir tal fraqueza. Sempre dizia que “ele não merecia a altura que tinha”. À gêmea mais velha restava apenas rir do complexo de altura do irmão, que media os mesmos um metro e sessenta e sete que ela mesma, enquanto buscava tornar a situação do moreno de óculos o mais confortável possível.
― Então ― começou Hiyoru, voltando seus olhos verdes aos olhos azuis. Seu mal-humor era evidente, e explicitou-se em seu cinismo: ―O que devo fazer, sua excelência Kanou Soutarou-chan?
― Posso terminar sozinho ― garantiu o maior, enquanto preparava-se para almoçar. ― Só preciso com-
Com uma risada curta, o ruivo o interrompeu: ― Como se depois de virmos aqui fôssemos te deixar sozinho. Tudo bem, a Yuka-chan é uma maldita que me deixou aqui para resolver tudo... ― Deixou de tagarelar para si mesmo enquanto apertava os punhos e encarou os olhos azuis à sua frente. ― Mas somos seus vice-presidentes, caramba!
Ainda que inicialmente surpreso, Kanou suspirou, em resignação. ― Me desculpe, Hiyoru-san. Como faremos, então?
― Tsc... já te falei que sou Yoru. Yo-ru! ― reclamou o mais velho, frustrado. Contudo, logo comandou: ― Você come, eu assino o resto dessa droga.
Embora Soutarou quisesse agradecê-lo novamente, simplesmente o obedeceu, pois já conhecia o pequeno o suficiente para saber que não suportava a gratidão excessiva.
****
Metida em um vestido caro que lhe incomodava, ainda que acomodasse seu corpo esguio com elegância, Yukari deixava sua casa rumo ao trabalho a que fora destinada. Tudo em troca da bolsa da faculdade, pensava ao tentar convencer-se, já que julgava insuportável aquele emprego. E principalmente, seu chefe. Pensar nele já lhe provocava uma raiva absurda, ainda que controlada.
Ao menos saltos não eram necessários, devido à altura. Enquanto Yoru julgava-se baixo demais para os padrões, ela, de mesma estatura, estava muito acima do padrão feminino. Porém, ao contrário do irmão, isto não lhe incomodava nem um pouco. Havia algo muito mais importante que um “empecilho” como ser alta demais: a música. E era por seu maior hobby e almejada profissão que ela enfrentava aquele serviço desprezível.
Estacionado à frente de sua residência, um automóvel escuro de luxo aguardava a sua saída. E, reclinado sobre uma das portas, um homem loiro esperava por sua chegada. Ao avistá-la, seu sorriso sarcástico moldou-lhe os lábios.
― Está atrasada, ruiva ― atentou ele. Seu patrão, Igarashi Tora.
Fale com o autor