Sobre Aliens E Irmãos

3 I - Terceiro - Sobre Deslizes e Momentos


Notas iniciais
Hey! Bem-vindos, bem-vindos. Agradeço a quem comentou nos últimos dois capítulos, assim como aos favoritos! Boa leitura!


Desde o início, a convivência de ambos nunca foi pacífica. Talvez devido ao embate de suas personalidades fortes; talvez pelo gosto que os dois tinham de provocar um ao outro, numa competição implícita e nunca definida. Porém, um de seus motivos era certamente o caráter compulsório de sua relação. Bons relacionamentos geralmente nascem de encontros espontâneos, e isto não se aplicou para Yukari e Tora.

― Espero que desta vez aceite o vestido ― murmurou o loiro, displicentemente sentado no banco traseiro do automóvel. Nem ao menos a elogiara porque já tinha noção das réplicas ácidas da colegial.

― E espero que você pare com essa ingenuidade estúpida de achar que vou aceitar algum presente seu ― retrucou ela, no mesmo tom. Iria devolvê-lo logo que possível.

Apesar de sentados lado a lado, a distância entre os dois poderia abrigar uma terceira pessoa. O que deveria ser uma tranquila e rápida viagem até uma reunião burocrática mascarada de festa converteu-se num diálogo tenso seguido de um silêncio arrastado. Que esta noite seja breve, desejou a ruiva fervorosamente. Ainda deveria preencher a papelada do conselho ao voltar à casa.

Tão logo chegaram ao local, suas posturas modificaram-se, como se adequadas ao ambiente. Como acompanhante do rapaz em eventos sociais de alta classe, deveria ser exímia na arte da dissimulação. E esta habilidade não faltava à Yukari, que foi prontamente recomendada pela mãe quando a família Igarashi iniciou suas buscas por uma candidata ao cargo, já que a noiva de seu herdeiro estava impossibilitada de acompanhá-lo devido à uma doença.

E era a isto que se resumia sua relação: interesses. A ele, uma companhia bela, talentosa e educada (ao menos em público). A ela, a esperança de ingressar em alguma conceituada universidade que lhe oferecesse a graduação na área da Música. Só deveria aguentar deste inferno um pouco mais...

― Fica ainda mais estranho com este sorriso falso na cara ― declarou enquanto avançavam os jardins da mansão.

― Como você é amável ― ironizou Tora, fitando-a pelo canto dos olhos; ao que ela respondeu com um belo (e falso) sorriso que mascarou seu sarcasmo.

― Não sou?

A dita festa prosseguiria sem grandes empecilhos, não fosse um caso em particular. Durante a conversa do rapaz com um antigo parceiro de negócios de sua família, a mulher do indivíduo passou a ofendê-lo publicamente, ainda que por meio de indiretas sutis. Quando a vida em particular do casal tornou-se tema de suas sentenças nada afáveis, a mais velha dos gêmeos Mirikamo mordeu os lábios e desviou seus olhos verdes da cena, contendo o próprio riso.

Rapidamente, no entanto, recuperou a compostura, e ninguém percebeu seu quase deslize ― a não ser o loiro ao seu lado. Sua expressão, num misto entre alívio pelo homem não presenciar tal ofensa e raiva diante do comportamento da acompanhante, era hilária, e discretamente ela lhe sussurrou:

― Por que zangado se também sentiu vontade de rir? ― Como diabos ela poderia saber disto? Nem ao menos esboçara o mínimo sorriso! Prestes a indagá-la, foi interrompido. ― Seus olhos te denunciam.

Por alguns mínimos segundos, seus olhares se encontraram ― as íris amareladas e as esmeraldas. Mesmo através de seu semblante apático, Yukari era capaz de ler qualquer mínima emoção de qualquer um; inclusive dele mesmo. Foi ela mesma, entretanto, a romper o contato visual.

Durante a entrevista, não compreendeu como uma garota tão insolente desejava ocupar a vaga; contudo, sua escolha tornou-se óbvia quando esta mesma adolescente conseguiu antever sua própria natureza através da máscara de afabilidade e bons modos. Tal habilidade analítica seria muito útil a ele; porém, além disto, havia algo que o atraía na colegial de madeixas exóticas. Seu atrevimento e rebeldia era um desafio a alguém dominador e arrogante como ele.

― Quase estragou tudo hoje à noite, ruiva ― repreendeu o jovem ao afrouxar a própria gravata, mais uma vez no conforto de sua limusine ao deixar tão tediosa ocasião.

― Reclame dos comentários indiscretos daquela mulher. ― Acompanhou sua resposta de pequenas risadas desdenhosas. ― “Homens devem saber usar seus instrumentos.” ― citou, imitando o tom afetado da queixa original, e desta vez o loiro a acompanhou entre os risos, sem deixar de reconhecer:

― Você é terrível.

― Acho que já ouvi isto algumas vezes. ― Lá estava mais uma vez a ironia, ainda que bem-humorada. ― E você também não é lá muito bonzinho, Igarashi.

― Bonzinho? ― repetiu ele, incrédulo. ― Não me ofenda.

― Ah, acho que no fundo você é amável ― provocou ela, ainda que não pudesse imaginar que um dia Igarashi Tora merecesse ser intitulado de tal modo. Antes que ele pudesse retrucar, despediu-se, ao descer do veículo estacionado: ― Até a próxima, chefinho.

Mirikamo Yukari era uma mulher impertinente, nem um pouco meiga e principalmente implicante, pensou o antigo presidente do Miyabigaoka. Como demorou tanto tempo para encontrar alguém tão fascinante?

****

Ao adentrar no vestíbulo, ouviu o ruído proveniente da sala. Como de costume, Hiyoru estava jogando, confirmou ao vislumbrá-lo sentado sobre o chão; mirando a tela em seu próprio transe, enquanto os dedos moviam-se com agilidade entre os botões do joystick. Denunciou sua presença sentando-se ao seu lado, suspirando ao reclinar-se sobre o estofado.

― Como foi? ― indagou ele, ainda concentrado em seu game.

― Como sempre: chato.

― Não queria ser você. ― Complementou sua fala com uma risada divertida.

― Disso eu já sei, Yoru ― confirmou, revirando os olhos diante da obviedade. Porém, ele não era o único a irritar: ― E como foi lá no conselho?

― Antes de tudo: sua maldita! ― vociferou, voltando seu olhar para o dela após completar o objetivo daquele trecho do jogo. ― Nós ficamos lá até às cinco da tarde preenchendo aquela porcaria!

― Eu sei que você me ama ― contestou, afagando as madeixas rubras. ― Mas que bom que não fugiu da responsabilidade.

― É claro que não fugi, mamãe. ― O sarcasmo explícito da última palavra fez com que ela estreitasse os olhos.

― Se você não fosse meu irmão, Yoru, eu já teria mandado você tomar no-

― Eu sei que você me ama, Yuka-chan ― retrucou ele ao mencioná-la; os olhos verdes novamente fixos na tela.

Estava cercada por todos os lados de pessoas educadas e gentis, ironizou mentalmente.

****

Conteve um bocejo ao deixar o quarto, fechando a porta silenciosamente. Desta vez, era ela a única a ter aulas matutinas, e atrapalhar o sono de Usui com seus próprios deveres era algo que nunca faria. Que o namorado dormisse até o meio-dia; aquele dorminhoco.

Recebeu cumprimentos dos colegas tão logo chegou à cozinha, e os respondeu energicamente. Seu despertar não era lerdo como o daquele idiota! Sentada o mais próxima possível estava Hanamaki Myoko, uma estudante de arquitetura com olheiras permanentes e mal-humor constante.

― Como você pode estar tão feliz às seis da manhã, sua louca? ― exigiu a loira, a mais velha dentre todos.

― Já estou acostumada a acordar cedo, Hanamaki ― respondeu a caloura, apanhando um item qualquer dentre os que recheavam a mesa. ― Eu era a presidente do meu antigo colégio; deveria ser a primeira a chegar.

― Que inferno... ― resmungou a outra.

― O que não é um inferno para você, Myo-chan? ― brincou o moreno reclinado sobre um dos armários do cômodo minúsculo.

Myoko revirou seus exóticos olhos acidentados para o companheiro de tempos do colégio. Kitaru Takahagi cursava a área de Exatas, assim como Usui, e ambos tinham até mesmo alguns professores em comum. Ao contrário da colega, era expansivo e bem-disposto, embora pudesse ser um tanto escandaloso em situações críticas.

― Ah, o café acabou... ― comentou Misaki para si mesma ao perceber. Nem ao menos fez menção de avançar sobre a cafeteira e seu caminho foi bloqueado pelos dois.

Endoideceu de vez?! ― rugiu a loira.

― Parece que se esqueceu do incidente da última vez... ― censurou Takahagi simultaneamente ao protesto da outra, ainda que sua voz mais baixa fosse mascarada pela mais intensa. Ajeitou os próprios óculos que teimavam em cair.

O tal incidente de que falara envolvia a antiga cafeteira e as parcas habilidades da morena. Como resultados, chamas que tomaram toda a bancada da cozinha, fumaça por todo o apartamento, um prejuízo que doeu no bolso de todos eles na compra de um novo utensílio para substituir o antigo e uma semana gasta na limpeza para que tudo retornasse à seu estado original.

― O pobre do Dojin quase morreu! ― continuou o moreno, apontando o rapaz de cabelos escuros e pele pálida cujos olhos azuis estavam concentrados em seu livro de Medicina.

― Pare de ser exagerado ― repreendeu Kuruari Dojimo, pois durante a confusão apenas teve alguma dificuldade de respirar em meio à fumaça. E, para encerrar o assunto, o mais quieto e centrado da casa prosseguiu: ― E faça o favor de não falar novamente sobre isso.

Já Misaki nem ao menos sabia o que responder-lhes, constrangida com a memória. Se suas capacidades culinárias não fossem tão terríveis, teria evitado aquele desastre. E, como se cronometrado para livrá-la de tal situação incômoda, Takumi deixou o quarto naquele momento. Sua expressão não era das mais amigáveis, mesmo sonolenta.

― Viu? Falam tão alto que acordaram o Usui-san ― ralhou uma vez mais, num tom frio e baixo que fez com que Myoko e Takahagi se encolhessem.

Em algum momento do passado daqueles três, supôs Misaki, Kuruari deve ter traumatizado seus colegas de apartamento, pois era a única possível justificativa para que suas palavras fossem de fato tão ameaçadoras aos dois. Afastou estes pensamentos, avançando até o local em que o loiro se sentara.

― Parece que alguém não dormiu nada bem ― percebeu ela ao mirá-lo de perto. Alheios ao casal, os outros três discutiam acaloradamente sobre algum evento passado.

― Ligações inconvenientes de madrugada ― explicou o rapaz, pressionando as têmporas.

Como queria ser descendente de uma simples família, e não herdeiro de aristocratas britânicos cuja única função aparentemente era tentar arrastá-lo para seus próprios problemas. Nem ao menos se preocupavam com a mudança de fuso horário; às duas da manhã Usui recebeu um de muitos telefonemas cujo tema ele nem ao menos queria preocupar-se.

― Essa gente irritante... ― resmungou Misaki, apertando os próprios punhos. Não iriam deixá-lo em paz nunca?

― Vai criar uma ruga permanente se ficar pensando nisso, Misa-chan. ― Um tanto mais desperto, sua voz era branda ao estender os dedos entre as sobrancelhas da morena para ilustrar seu conselho.

Com suas palavras, a universitária sorriu de canto ― estavam ambos bem, apesar dos pequenos empecilhos. Em meio aos conflitos de seus colegas de apartamento, a refeição da manhã seguiu tranquila, de tal forma que a mulher rapidamente esqueceu-se das anteriores inquietações.

****

Para qualquer transeunte, alheio às suas condições internas, a garota expressava apenas tédio. Porém, em seu íntimo, Suzuna estava animada ― com suas boas notas no colégio, com a agradável convivência com Aoi e, sobretudo, com a visita diária ao serviço dele. Após o término das aulas, todos os dias desviava-se de seu percurso original para encontrá-lo; e lá estava ela mais uma vez, adentrando na loja de conveniências.

Debruçado sobre o caixa em monotonia devido à falta de clientes, Ikkun foi o primeiro a avistá-la. Ao avançar entre os corredores de produtos, vislumbrou ainda Kurotatsu e Shiroyan a organizar embalagens sobre as prateleiras. Cumprimentou aos três, que lhe corresponderam com alguma animação que o exaustivo expediente lhes permitia.

― Suzuna-chan, Shintani está lá no depósito ― informou o moreno mais alto enquanto empilhava algumas garrafas.

― Clientes podem entrar? ― indagou a menor, com seu tradicional tom apático. Prestes a respondê-la, Ikuto foi interrompido.

― Não, m-

― Claro que podem ― afirmou o loiro, abafando a sentença do outro com uma das mãos.

Estariam com muitos problemas se a gerente descobrisse tal consentimento não previsto nas regras, mas o trio descobriu-se tão encantado com a mais nova das Ayuzawa quanto o eram pela irmã maid. Talvez houvesse algum atributo irresistível naquela família, e era a pequena o novo alvo de sua devoção platônica.

Após agradecê-los, Suzuna entrou no recinto mal-iluminado com toda a cautela necessária para não emitir nenhum ruído. Sobre a ponta dos pés, caminhou entre as pilhas de caixas até encontrá-lo, convenientemente voltado de costas para ela mesma. Num segundo, alcançou-o, denunciando a própria presença ao abraçar suas costas.

Nada disse; entretanto, não foi difícil para Hinata reconhecer o corpo magro e aquecido a envolvê-lo como o de sua própria namorada. Enrubesceu violentamente com o contato, pois mesmo que se acostumasse ao fato de que aquela talentosa e bela garota estivesse apaixonada por ele mesmo, não iria deixar de constranger-se sempre que ela o demonstrasse.

― Olá, You-kun ― saudou ela tão logo virou em sua direção.

Talvez devido ao seu semblante pacífico e temperamento brando, Suzuna não era o tipo de pessoa que despertava grandes atenções a desconhecidos, principalmente se comparada à sua irmã mais velha, efusiva e energética. Porém, com a convivência, descobria-se uma colegial atenciosa, observadora e simultaneamente meiga e atrevida ― e foi somente ao passar parte de seus dias com a antiga amiga de infância que Shintani pôde realmente conhecê-la e, aos poucos, perceber que correspondia-lhe o sentimento.

― O... Oi, Suzuna-chan. ― O moreno sorriu, embaraçado.

Ao sentar-se sobre um banco próximo, a pequena iniciou um diálogo ao perguntar-lhe sobre os estudos. Em sua primeira tentativa de ingresso em uma faculdade de Agronomia, em Kyoto, Hinata foi desclassificado logo em suas primeiras etapas. Com isso, passou a depositar mais empenho em seu esforço, e o dinheiro conquistado com o emprego de meio-período era quase que integralmente investido em um curso pré-vestibular.

Muitas vezes, a namorada ajudou-lhe com seu apoio, seja explicando-lhe conceitos que ele não recordara-se porque há muito aprendera, seja motivando-lhe quando o rapaz perdia a auto-estima. Ou ainda, quando repentinamente animava-o com sobremesas decoradas com fórmulas matemáticas, deixando claro que ele só poderia comê-las se acertasse algumas questões.

Suzuna era sua adorável fortaleza.

Prosseguiram na conversa, mesmo após deixarem a loja. Ainda que a temperatura noturna estivesse abaixo dos níveis de conforto, não era este o motivo pelo qual as bochechas de Shintani estavam aquecidas. Havia uma pequena mão entre seus dedos. Contendo um sorriso de satisfação, a garota de marias-chiquinhas comentava sobre o próprio clube, muito mais confortável que seu companheiro diante da situação.

Notou que o mais velho incomodou-se ao ouvir o nome do outro membro.

― Não precisa sentir ciúmes do Aoi-kun ― esclareceu ela, inclinando-se para melhor fitar seu rosto. Como previsto, ele corara.

― N... Não são ci-ciúmes ― gaguejou, exasperado.

Não havia como negar que ele era fofo, considerou ela ao cessar os próprios passos para encará-lo. Estendeu as mãos magras até o rosto do rapaz, como se avisasse-o de suas pretensões. Esticando-se sobre a ponta dos pés, para vencer a grande diferença de altura, selou seus lábios aos dele. Movia-se com calma e gentileza, expressando claramente seu contentamento ao confirmar que ele era seu, assim como ela era dele.

E Hinata não demorou a fazer o mesmo, envolvendo a face da namorada com toda a delicadeza possível. Assim como seu corpo, a boca da menor era de um calor ameno, agradável de explorar. Pareciam aquecê-lo por inteiro. De olhos fechados, ela não pôde assistir o rubor do rapaz converter-se num vermelho cada vez mais intenso até que os abriu novamente, ao se afastar.

― Seus dedos estão gelados ― notou, enquanto os pressionava contra as próprias bochechas. As mãos do moreno acolhiam sua cabeça plenamente, devido às distintas proporções.

― E... Eu posso t-

― Não, está bom assim. ― Apertou-se ainda mais contra as mãos que se esquentavam com o contato, destinando-lhe um singular sorriso afável, a que ele também correspondeu, embora envergonhado.

Eram estes pequenos momentos que faziam valer seus dias. Para ambos.

Notas finais
Meu primeiro beijo SuzuHina *w* Eu mesma me emocionei escrevendo, admito. E entram em cena mais três personagens originais: Myoko, Takahagi e Dojimo. São 9 OC's (é, nove) no total, mas só quatro farão uma diferença significativa na história, e o próximo deles vai aparecer no próximo =D Ah, a quem notou, esta história será dividida em arcos. Prevejo entre oito e onze no total - por volta de uns 40 capítulos, talvez. Até o próximo~~