Sobre Aliens E Irmãos

9 I - Nono - Sobre Buscas e Mensagens


Notas iniciais
Hey! Atrasadona, eu sei. Mas é que eu não aprendo. Sabe quando você está lotada de responsabilidades, alguém te oferece uma oportunidade de ganhar um dinheiro extra e você aceita, mesmo sabendo que não dá? Então~~ Muito, muito obrigada aos comentários de bettie, Nhljulie, Frenchie, Patrícia Skylark e Leah

Era tangível no ar a empolgação dos dois. Caminhavam, lado a lado, embora não pudessem encostar um no outro devido aos pacotes que ambos carregavam. Afinal, havia motivos para tanta expectativa: seria a primeira viagem que fariam juntos. Mesmo que o objetivo fosse voltar no mesmo dia, isto em nada diminuía a ansiedade. Até mesmo para ela.

― Acho melhor repassar a lista ― refletiu Suzuna, tendo em vista a extensa bagagem de ambos. ― Maçãs que separamos para seus avós?

― Check! ― O namorado levantou uma das sacolas, que continha as frutas avermelhadas.

― Três quilos de carne?

― Check.

Desta vez, Hinata foi mais bem humorado ao responder. Somente a pequena seria capaz de ganhar cinco quilos de carne em um sorteio ― muito mais do que a mãe e ela, únicas moradoras desde que Misaki mudou-se para Tokyo, seriam capazes de comer. Contudo, o item seguinte foi capaz de fazê-lo empalidecer a pele morena:

― Torta de morango fresca... ― A colegial estreitou os olhos um bocado antes de continuar no mesmo timbre neutro: ― Que eu espero que não tenha nenhuma marca de dedo?

Culpado.

― ...Check ― murmurou, baixinho.

― ... ― Durante alguns segundos, criou uma espécie de mistério acerca do que diria. Mas o que mais poderia orgulhar aos avós dele, e principalmente a ela mesma? ― Uma nota boa o suficiente para passar no vestibular do último simulado?

Notou como, apesar de uma leve vermelhidão, o rosto dele contraiu-se em um largo sorriso de contentamento. Quer dizer, não era qualquer um capaz de conseguir 850 pontos em uma prova cuja soma total era mil ― mesmo que esta não fosse a prova oficial. A dedicação ao estudo estava rendendo frutos, e sentia-se bem por saber que o acompanhava neste processo.

― Check ― finalizou ele, ainda sorrindo. Enquanto caminhava, porém, garantiu à garota: ― Suzuna-chan, não precisa enviar tanta coisa p’ra eles p’ra compensar pelos vegetais. Lá sempre sobra bastante mesmo.

― Mas esse não é o único motivo. Quero passar uma boa impressão.

Apesar do que dissera, permanecia quase impassível como de costume. A soma de ambos fez com que o moreno se surpreendesse. Afinal, quando não se surpreender com ela? Mesmo que não transparecesse qualquer nervosismo, isto significava que, sim, se importava com a aprovação daqueles que eram seus sogros por equivalência, já que ele mesmo era órfão. Também gerou nele uma espécie de orgulho por ela, em conjunto de um calor manso a expandir-se.

― O... “Ocê” não precisa fazer isso. ― Shintani prosseguiu, um pouco mais baixo: ― Já é uma ótima namorada.

― Verdade?

Suzuna estagnou-se à frente dele, fitando-o quase esticada sobre os pequenos pés. Em uma conjunção um tanto excêntrica, a expressão oscilava entre a apatia, a incerteza e algo que ele não soube identificar. No entanto, eram visíveis nos olhos amarelados uma inquietude pela confirmação da resposta. Inconscientemente fofa, assim era a namorada ― e, claro, nunca de forma tradicional.

Despertou em si mesmo uma louca vontade de jogar ao chão aqueles pacotes, abraçá-la com vontade e enfim beijá-la. Mas no que estava pensando? Estavam em público! Um tanto desconcertado com o rumo dos próprios pensamentos e também com a proximidade, o pré-vestibulando respondeu um tanto confuso:

― C-Claro.

Anteviu a reação dela poucos segundos antes. Afinal, já reconhecia aquele fugaz brilho a incandescer as íris claras; aquele entusiasmo e atrevimento sutis que sempre antecediam o gesto. Um beijo, rápido e simples ― ao menos para os poucos intrometidos que o assistiram. Porque em poucos segundos a morena pode provar do delicioso sabor de “You-kun”, além de mordiscar muito rapidamente o lábio inferior do rapaz.

Mesmo ao separar-se, as reverberações do contato ainda eram sentidas por Hinata: a maciez e cálido acolhimento dos lábios dela, o rastro de sua língua, a ardência da mordida ousada. Arrependia-se por não ter correspondido, mas o que podia fazer? Ela o pegara de surpresa. Ambos ainda estavam com as mãos ocupadas, em um ambiente em que qualquer um poderia perceber qualquer indiscrição. Diante do rubor a espalhar-se pelas faces dele, a mais nova contou vantagem, orgulhosa:

― Já são 17 vezes contra nenhuma.

Não sabia que ela contava cada beijo roubado ― se bem que para uma garota quase obcecada por sorteios, aquele tipo de pequena competição deveria ser agradável de se manter. E nada tinha a reclamar sobre essa espécie de disputa, mesmo que sempre estivesse completamente rendido àquela baixinha.

― “Ocê” é muito injusta, Suzuna-chan ― lamentou, mesmo que nada quisesse mudar na colegial. Era perfeita exatamente daquela maneira.

***

A caminho da entrada da estação de trem, chamou-lhes atenção uma figura minúscula, a lamentar-se baixinho em um dos bancos. Sentada sozinha, mal tocava o chão com as sapatilhas graciosas de um tom pastel. Nem deveria ter seis anos, a garotinha de vestido branco. Entretanto, para além da aparência delicada e ingênua, para um olhar mais atento eram perceptíveis as lágrimas que escorriam em abundância pelas bochechas rosadas de tanto chorar.

Bastou apenas uma rápida encruzilhada de olhares para que os dois interferissem. Shintani ajoelhou-se frente à menina, sem apressar-se demais para não assustá-la. Inicialmente, a criança não percebeu sua presença, ainda a soluçar de olhos fechados, mas ao perguntá-la o que acontecera, preocupado, o choro tornou-se mais insistente e desesperado:

― M... Mãe? ― gaguejou, arregalando os olhinhos tão escuros quanto as madeixas longas. ― Cadê ela? Eu quero minha- ― Os soluços e gemidos descontrolados a impediram de falar mais.

― Sua mãe? Se perdeu? ― indagou, num timbre manso, embora esperançoso. Inclinou-se para conseguir enxergar o rosto dela quando a pequena baixou a cabeça, para que mantivessem a mesma altura. Sorriu, encorajando-a: ― Venha aqui. Vamos te ajudar a procurá-la.

Assustada, a menina recuou para as costas do banco, apertando os dedos contra o assento enquanto escondia o rosto como podia entre o cabelo comprido. Aproveitando esta deixa, Suzuna aproximou-se, sentando ao lado dela. Ora, se Hinata, lhe parecia ameaçador (o que ele não era em nenhum fio de cabelo castanho), ela deveria transparecer alguma calma à garotinha. Mesmo que esta tenha desviado o rosto quando sentou-se também.

― Pode confiar nele, ouviu? ― assegurou, inalterada como sempre. A frase despreocupada atraiu a atenção da menina como previra, e continuou do mesmo modo: ― Ele vai cuidar bem de você.

― Não... ― resistiu a criança, balançando a cabeça para expressar a negativa. ― Mamãe ensinou a não falar com estranhos. ― Logo ao dizer “mamãe”, a voz infantil foi-se tornando embargada.

― Não somos estranhos ― negou a colegial, como se estivesse confusa ao ser tratada daquela maneira. Surpreendeu até mesmo o namorado, que não interferira até ali por confiar nela. ― Somos personagens de anime.

― Personagens? ― A dúvida e a ligeira descrença fizeram com que a pequena a fitasse de novo.

― Não nos conhece? ― perguntou, ao que a menor negou com a cabeça. Apontou então para si e para o rapaz: ― Eu sou Cheese-chan e este aqui é o Hamburger-kun.

Como ela era perspicaz, pensou ele. Lembrar-se da brincadeira de infância de ambos, naquele momento, não poderia ser mais adequado. Porque quando crianças eles realmente acreditavam que eram aqueles personagens ao incorporá-los nas encenações. Era como brincar novamente, para alegrar uma garota tristonha.

― Hamburger-kun? ― A menina recordava-se do anime, mas... Algo estava diferente. Estreitou os olhos, desconfiada: ― Não lembra muito ele...

― Hã? ― aturdiu-se ele, de maneira genuína. ― Como pode desconfiar de mim?

O que dizer? Foi impossível para a criança não morder os lábios para impedir uma risada ― que logo cresceu exponencialmente, espalhando no ambiente aquele pequeno fragmento de felicidade infantil. Alguém como ele, que levara a sério uma brincadeira a ponto de realmente importar-se se confiavam ou não em sua aparência, não deveria ser capaz de causar algum mal. E a feição dele tornou-se tão engraçada.

Shintani foi contagiado pelo bom humor da pequena, pois também sorriu abertamente para ela. Honestamente surpreso, elogiou: ― Viu? “Ocê” fica muito mais fofa quando sorri.

Rapidamente, a criança foi-se tornando mais tímida. Mas assentiu num gesto breve, enxugando como podia as lágrimas com as costas das mãos. Enquanto o fazia, Suzuna silenciosamente ergueu um dos polegares para o namorado, como se o parabenizasse. Até porque ela mesma se encantara com aquele sorriso, porque era capaz de encantar a qualquer um. E, ainda que não pudesse expressar-se com aquelas manifestações máximas de confiança e bondade, também tinha seus artifícios:

― Agora é sua vez de se apresentar. ― Adquiriu a postura orgulhosa da personagem (adaptada ao semblante impassível, é claro), erguendo-se quase teatralmente.

― Sumigawa... ― sussurrou ela, olhando para o piso antes de encará-los entre espiadelas. ― Sumigawa Makoto.

― Mako-chan ― apelidou Hinata carinhosamente. Esboçou nos lábios um sorriso largo, a ponto de estreitar os olhos. ― Agora não somos mais desconhecidos, certo?

Makoto assentiu embaraçada, embora alegre, antes de segui-los.

***

Bem, não era fácil. Depois de uma hora a buscar pela mulher que atendia às descrições, não encontraram ninguém na estação e imediações que correspondesse ao perfil. E Sumigawa... era um tanto confusa ao tentar retratar a mãe. Além de falar muito baixo e aos pouquinhos, pois era bastante envergonhada ao lidar com estranhos, também usava de algumas metáforas incompreensíveis que somente uma criança seria capaz de elaborar.

“Ela tem olhos espertos de raposa” ou “Mamãe sempre pareceu um general” eram comparações interessantes, mas de nada serviam para localizar a senhora. Exausta de tanto andar para lá e para cá, Makoto acolheu-se em um banco da praça mais próxima. Aparentava estar desesperançada outra vez. E se... Nunca encontrasse a mãe de novo?

Diante do desânimo da pequena, antes que Shintani pudesse incentivá-la positivamente, a namorada sentou-se ao seu lado, carregando no colo a sacola em que estava a torta de morangos. Quase despretensiosamente, retirou a embalagem que a envolvia, deixando que o aroma adocicado se espalhasse até atingir em cheio as narinas da criança.

E ela fitava, quase deslumbrada, a sobremesa tão perfeita. Salivava apenas ao imaginar a textura cremosa do chantilly, o misto de doce e ligeiramente azedo da fruta, a maciez do que deveria ser o recheio. E fora tão bem feita ― mais parecia o trabalho de um confeiteiro profissional. Mal imaginava que era fruto das mesmas mãos que a seguravam agora.

― Hamburger-kun, parece que ela foi seduzida pelo poder das delícias açucaradas ― percebeu Suzuna, com aquele sorriso entre o inexpressivo e o divertido.

― Parece delicioso, não é? ― confirmou ele, já que Makoto corara até a raiz dos cabelos com a afirmação.

― Não deixe ele te enganar ― sussurrou a garota de marias-chiquinhas, ainda que alto o suficiente para que o moreno ouvisse. E complementou, mirando-o de soslaio: ― Está doido para comer também.

― Suzun- Cheese-chan!

Assim como antes, a criança riu do aturdimento de Hinata ― até mesmo ela, com seus cinco anos, notava o quão adorável e gentil o rapaz era. Além de alegrar-se e embaraçar-se com a mesma facilidade. Decidida a animá-la um pouco mais, e simultaneamente provocá-lo mais também, a Ayuzawa mais nova apontou para a única imperfeição da cobertura:

― Quer ver? Adivinhe de quem é essa marca de dedo.

Makoto gargalhou mais quando ele enrubesceu e aquietou-se, como se assumisse a culpa. Cantarolou, esquecendo-se completamente da infelicidade: ― Os apressados ficam sem bolo.

Apesar do que dissera, quando recebeu uma fatia da torta, não resistiu ao olhar faminto de Shintani. De maneira acanhada, repartiu e entregou a ele um pedaço, divertindo-se com a satisfação honesta dele com uma simples porção de sobremesa.

***

Continuaram a procurar pela mulher, perguntando a cada transeunte se haviam visto alguém que atendesse às características. No percurso, Makoto passou a prestar atenção em ambos. Hamburger-kun era animado, e sempre fazia questão de injetar este ânimo em todos com seus sorrisos. Cheese-chan, ao contrário, transmitia calma para que não desistisse, além de diversão quando resolvia implicar um pouco com o parceiro. Eram opostos, mas se davam tão bem.

No entanto, o corpo fez com que interrompesse os pensamentos, além dos próprios passos. O que não passou despercebido para os dois, embora não quisesse chamar atenção. Ajoelhando-se para ficar à mesma altura dela, o rapaz perguntou preocupado:

― Por que parou de repente? Está cansada? Machucada? Quer alguma coisa?

― Acho que sei do que ela precisa ― interviu Suzuna, diante do óbvio desconforto da garota diante dele. ― Venha comigo, Mako-chan.

E, logo Hinata descobriu, ela queria ir ao banheiro. Ora, então ficara envergonhada de pedir a ele. Aguardou-as do lado de fora, agradecendo mentalmente o fato de que a colegial era perceptiva de maneira absurda. Nunca iria interpretar corretamente o gaguejar e rubor como ela. E explicitou isso, quando ela deixou o banheiro feminino enquanto Makoto lavava as próprias mãos:

― Realmente tem coisas que só garotas podem fazer.

― Mas está indo muito bem, You-kun ― parabenizou, tranquila. Mas não deixaria por aquilo: ― Seria um ótimo pai¹.

Quando Sumigawa atravessou a porta, não entendeu porque o rapaz engasgara e tossia quase que de modo insano. Certa de que ele não poderia respondê-la, questionou à Cheese-chan sobre o estado do companheiro corado:

― O que aconteceu com Hamburger-kun?

― Auto-consciência ― murmurou, enigmática. Acenou então para uma área comercial logo adiante: ― Mako-chan, ainda não procuramos por lá.

Enquanto as duas seguiam lado a lado, Shintani recuperou-se do “ataque-surpresa”. Apesar de mais calmo, não conseguiu retirar a imagem da mente. Principalmente porque uma muito semelhante estava logo ali: ao ver Suzuna e Makoto juntas, só conseguia pensar em como a namorada agiria com uma filha de ambos.

***

Decidiram voltar à frente da estação para conferi-la novamente. E, perguntando desesperada para todos que por ali passavam, estava uma mulher que tinha olhos espertos de raposa. Realmente parecia uma general com o sóbrio terno que usava, mas a imagem era desfigurada pelo nervosismo que esta sentia. Mas o rosto expressou um alívio inimaginável ao encontrar, entre um casal de jovens, a amada filha:

― Makoto?

― Mamãe! ― exclamou a menor, correndo para alcançá-la.

Encontraram-se num abraço longo e amoroso, como se não se vissem há anos. Enquanto a criança aninhava-se nos braços calorosos, desculpando-se por ser tão desatenta, a mãe apenas a enchia de beijos nos cabelos, emocionada. Não costumava ser tão carinhosa, mas o medo de perdê-la eliminou qualquer restrição. Prometeu a si mesma nunca mais deixá-la sozinha.

Tão concentrada em Makoto, só muito depois foi olhar novamente para os dois que estavam junto à ela, e provavelmente a trouxeram de volta. Carregavam no semblante um contentamento semelhante, como se a alegria da filha também os alegrasse. Agradeceu fervorosamente a eles, e abraçou-a mais enquanto dizia:

― Vocês encontraram o que eu tenho de mais precioso.

― Mãe...! ― repreendeu a pequena, envergonhada. Ainda assim, nunca sentiu-se tão feliz.

― Mas ela está certa, Mako-chan. ― Hinata sorriu brilhantemente. ― “Ocê” é um tesouro.

― Um daqueles que valem mais que um milhão de bolos ― concordou Suzuna, à sua maneira.

Como bem percebeu a Ayuzawa, havia algo incomodando a menina. E portanto não se surpreendeu quando ela, ao deixar o abraço da mãe, a puxou rapidamente para um canto afastado, próximo de um grosso pilar que sustentava a cobertura. Apesar da atitude impensada, estava enrubescida e gaguejou várias vezes:

― Cheese-chan... um dia eu vou ser uma... Vou ser como você?

Nos olhos amarelados reluziu o entendimento. Como a garotinha era adorável. Além disso, estava lisonjeada por ser considerada um exemplo. Decidiu compensá-la por aquilo, até porque ela merecia. Sorriu muito discretamente, antes de adotar de novo o jeito afetado da personagem. Determinou, repentinamente:

― Ajoelhe-se, Sumigawa Makoto. ― Esperou que ela a obedecesse, de forma desajeitada. Tocou muito suavemente a cabeça infantil: ― De hoje em diante, eu te nomeio... Sundae-chan.

― Eu não sinto... nada diferente.

Encabulada, a menina desabafou. Porque mesmo ao fitar as próprias mãozinhas, nada encontrou de novo ou mágico. Mas será que estava sendo mal agradecida? E se algo havia de fato mudado e ela não conseguira perceber? Quase arrependida do que dissera, não viu quando Suzuna retirou as presilhas que usava para prendê-las nas madeixas negras. Um pouquinho assustada de início, Makoto deixou que ela compusesse o penteado característico.

Agora era ela a de marias-chiquinhas, e estas desenvolviam-se volumosas até a cintura. Os fios que antes encobriam o rosto estavam devidamente alinhados e enlaçados, e a franja na altura dos olhos ganhou destaque na face delicada. Estava linda, como bem observara a mais velha, analisando-a com a mão no queixo:

― Agora se parece uma verdadeira Sundae-chan.

― Então... ― Makoto puxou as recentes pontinhas do cabelo preso, vermelha como os morangos da torta que comera. ― Você acha que... ― Desviou os olhos muito rapidamente para onde estavam a mãe e o rapaz. ― Um dia eu vou ter um parceiro legal como Hamburger-kun?

Suzuna arregalou um pouquinho os olhos, mas logo adotou um sorriso suave. Quem diria.

― Um dia ― sussurrou para que só ela ouvisse.

***

― O que foi?

Já haviam despedido-se de Makoto e sua mãe (que elogiara, assim como o rapaz, o novo penteado da pequena), e entraram no trem que destinava-se enfim à casa dos avós dele. E agora ele a encarava com um interesse quase incomum, que gerou nela o questionamento involuntário. Antes de respondê-la, Shintani corou um pouco, embora também sorrisse:

― “Ocê” fica linda assim. ― Pensou que ela poderia ter entendido errado, e tratou de corrigir-se, nervoso: ― Quer dizer, não é que não goste quando está com as presilhas... “Ocê” fica bem com elas também...!

― Obrigada, You-kun.

Ao dizê-lo, ela carregava nos lábios aquele raro e intenso sorriso que dirigia exclusivamente a ele. Talvez por não fazer com frequência, mas o gesto era dotado de um caráter único e belo. Como se, por ser tão incomum, fosse muito mais precioso.

E, mesmo que as bochechas houvessem se avermelhado, ele adotou uma postura mais séria ao estender-se do assento para beijá-la. Eram os únicos naquele vagão, e na ausência de curiosos Hinata pela primeira vez selou os lábios nos da namorada sem que esta soubesse anteriormente. Ao contrário do contato breve na estação que ela proporcionara, demorou-se bem mais: um beijo mais longo, apaixonado e veemente, capaz de arrancar dela o fôlego quando, muitos minutos depois, se separaram.

― Agora... agora são um contra dezessete. ― Desviou os olhos, enrubescido.

A sortuda líder do clube de sorteios não estava acostumada a perder, mas desta vez nada tinha a reclamar.

***

Havia sido um longo e exaustivo dia. Mesmo para alguém como Usui, a faculdade de Engenharia mostrava-se cada vez mais exigente. Era mais simples no Ensino Médio, em que conseguia as mais altas notas sem sequer encostar duas vezes no material escolar. E ainda tinha uma festa a encarar naquela noite, quando o que mais queria era esquecer de todas aquelas obrigações.

Na verdade, não fosse o entusiasmo de Misaki, ele provavelmente arranjaria alguma desculpa para não ir. A relação com o irmão continuava tempestuosa como sempre, e os atritos aumentaram mais depois que decidira cursar o ensino superior no Japão, e não na Inglaterra como solicitado. Porém, estudar em outro país significavam anos longe da namorada, e isto estava fora de cogitação. Somada a própria teimosia com a insistência de Gerard em doutriná-lo segundo as vontades da família e formava-se aquele impasse.

A melhor parte de tudo aquilo seria ela, como sempre. Era capaz de rir até mesmo ao imaginá-la tentando driblar a dificuldade em manter-se nos saltos, orgulhosa como sempre. Ou ao mentalizar o leve desconforto que ela trataria de esconder ao usar o vestido cedido por Arashiyama, o antigo colega do Miyabigaoka obcecado por beleza. Da roupa, apenas sabia que era vermelha, já que Ayuzawa o exclamara em alto e bom som quando trataram da vestimenta por telefonemas. E fosse qualquer vestido, ficaria lindo nela de qualquer maneira.

Era Misaki a única capaz de vencer o tédio tão natural para ele ― a pessoa mais singular que conhecera. E mesmo que a ocasião pudesse ser impossivelmente monótona, ao menos poderia aproveitá-la ao lado dela. Dançar não seria tão mal; principalmente, se sussurrasse para a morena que a desejava ali mesmo, no salão, apenas para confirmar se ela iria corar ou não.

Uma mensagem chamou sua atenção quando entrou no elevador. Estava prestes a ignorá-la, pois imaginava que se tratava de um novo aviso para que comparecesse desta vez, mas o número era conhecido. Não sabia o que Hanamaki Myoko, a colega de apartamento, tinha a tratar com ele, mas a curiosidade fez com que lesse a mensagem ao avançar para o décimo sexto andar.

“Vamos deixar bem claro: eu odeio ser empata-foda. Então ‘to avisando que o apartamento vai ficar vazio esta noite porque Kuruari está de plantão no hospital e eu e Taka-chan vamos beber. Façam o que quiserem.

OBS: Se entrarem no meu quarto, vou castrar os dois.”

Os humores rapidamente mudaram, tanto que ignorou a ameaça ao final. Havia tanto a explorar sem sequer entrarem no próprio quarto, até. Ao abrir a porta do lar temporário, Takumi esboçava nos lábios o sorriso que faria Misaki chamá-lo de pervertido imediatamente. Contudo, ela não estava na sala ― o ruído do chuveiro ligado era perceptível. Deveria estar preparando-se para a reunião dos Walker.

Mas eles iriam se atrasar. Algumas horas.

Notas finais
¹ Não, não, não. Suzuna não vai ficar grávida, ok? Ela tem 16 anos ainda e fez só uma brincadeira. Com essa idade, definitivamente não farei os dois passarem por esse sufoco XD Yep, o próximo tem hentai (eu disse que ela iria se redimir XD) e vou tentar emendar com o final da temporada também. No mais, todo mundo pediu SuzuHina e está aí. Como amo esses dois