Sob o mesmo céu

44 Ela quer a minha filha?


Olhei para Edward antes de atender ao celular, a expressão dele era séria. Atendi, e logo reconheci a voz de Jasper, que parecia tensa.

— Alô, Jacob? Temos um problema.

Franzi a testa, sentindo o peso daquelas palavras.

— Aconteceu alguma coisa?

— É melhor conversarmos pessoalmente – ele respondeu, a voz carregada de urgência. – Nos encontramos no café Broadway, no centro de Manhattan.

Pensei em insistir, mas percebi que ele estava mesmo apreensivo. Algo grande devia estar acontecendo. Encerrando a ligação, guardei o celular e olhei para Edward, que observava cada movimento meu com um misto de curiosidade e preocupação.

— Algum problema? – ele perguntou, direto.

— Jasper parecia preocupado – respondi, já sentindo o peso da responsabilidade se alojando em meus ombros. – Não quero preocupar Nessie, então diga a ela que precisei resolver algo na sede da NASA. É algo temporário.

Edward assentiu, compreendendo meu pedido. Sabia que Nessie ficaria mais tranquila se achasse que era apenas uma questão de trabalho.

Peguei as chaves do carro e a carteira, troquei um último olhar com Edward, e saí de casa com passos firmes, acelerando o passo. Naquela hora, Manhattan parecia ainda mais agitada do que o normal, mas tudo ao meu redor era apenas um borrão. O peso da mensagem de Jasper parecia crescer a cada segundo, e algo me dizia que eu estava prestes a descobrir algo que mudaria tudo.

Jacob chegou ao café Le Pain Quotidien, um local aconchegante com paredes de tijolos aparentes e mesas de madeira rústica, cheio de gente indo e vindo, mas, naquele momento, tudo isso parecia distante. Ele avistou Jasper em uma mesa mais ao fundo, olhando em direção à porta. Jasper acenou com a cabeça assim que o viu, e Jacob se apressou em se aproximar.

— Jasper – cumprimentou, apertando a mão do amigo antes de se sentar à sua frente. – O que houve? Qual é a urgência?

Jasper respirou fundo, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.

— Encontramos o loft de Rosalie – começou ele, mantendo o tom baixo. – E havia algo... estranho lá.

Jacob franziu a testa.

— Estranho como?

Jasper olhou diretamente para ele, os olhos sérios.

— Ela tem um quarto de criança montado lá, Jacob.

Jacob ficou em silêncio por um momento, processando a informação.

— Um quarto de criança? Mas... por quê?

— Era um quarto de menina – continuou Jasper, visivelmente desconfortável. – Com bonecas, brinquedos... e fotos.

Jacob sentiu um aperto no estômago, seu coração começou a acelerar.

— Que fotos?

Jasper respirou fundo antes de responder.

— Fotos de Merliah, Jacob. Fotos da sua filha.

Jacob ficou imóvel, o mundo ao redor parecia desaparecer enquanto ele absorvia aquelas palavras. Sentiu o peito arder e as mãos apertarem involuntariamente. A ideia de Rosalie, alguém em quem ele não confiava, estar tão obcecada a ponto de recriar o universo de sua filha, o deixava enfurecido.

— Ela... quer a minha filha? – murmurou, com uma incredulidade misturada com uma fúria crescente. Olhou nos olhos de Jasper, firme e determinado. – Ela não vai tocar na minha família. Eu não vou permitir que ela chegue perto da Merliah.

Jasper assentiu, claramente compartilhando da preocupação e da determinação de Jacob.

— Sei que você protegerá sua família, Jacob. E estou aqui para ajudar.

Jacob respirou fundo, tentando conter a raiva que ameaçava explodir.

— Vou denunciá-la – afirmou, cerrando os punhos sobre a mesa. – Isso é invasão de privacidade, obsessão… Rosalie passou dos limites.

Jasper balançou a cabeça, cauteloso.

— Infelizmente, só essas fotos da Merliah não serão suficientes para abrir um caso contra ela. Precisamos de algo concreto, provas mais consistentes que demonstrem uma ameaça direta. Sei que isso é frustrante, mas se não fizermos isso da maneira certa, ela pode acabar escapando.

A mandíbula de Jacob se contraiu, e ele olhou para o lado, tentando conter o impulso de ir até o loft e resolver tudo por conta própria. O simples pensamento de Rosalie se aproximando de sua filha fazia seu sangue ferver.

— Então, o que eu devo fazer? – ele perguntou, o tom carregado de exasperação.

Jasper inclinou-se um pouco mais, baixando o tom de voz.

— A primeira coisa que precisamos fazer é garantir a segurança de Merliah e de Nessie. Sugiro que coloque seguranças para acompanhá-las, discretamente. E talvez seja bom reforçar a segurança ao redor de sua casa e onde Merliah frequenta. Rosalie está obcecada, e isso pode ser mais perigoso do que imaginamos.

Jacob assentiu lentamente, o peso da situação se acumulando sobre ele. A ideia de ter que contar a Nessie o deixava tenso. Sabia que ela ficaria abalada e assustada ao descobrir o que Rosalie era capaz de fazer.

— Não sei como vou contar isso a Nessie – admitiu, o olhar perdido. – Não quero assustá-la, mas… ela precisa saber.

Jasper colocou uma mão sobre o ombro de Jacob, num gesto de apoio.

— Ela precisa estar ciente, Jacob. Rosalie quer Merliah, e isso torna Nessie uma possível vítima também. Ela tem o direito de saber e se proteger, e de proteger a filha de vocês. Vocês dois precisam estar unidos nessa situação.

Jacob fechou os olhos por um momento, sentindo o peso da responsabilidade. Ele sabia que Jasper estava certo.

...

Nessie terminava de arrumar a mesa quando ouviu a porta se abrir e viu Jacob entrar. Um sorriso iluminou seu rosto ao ver Merliah correr na direção do pai, com as mãozinhas gesticulando animadamente.

— Onde você estava, papai? – perguntava a pequena em sua linguagem de sinais.

Jacob se abaixou e a pegou nos braços, dando-lhe um beijo na bochecha.

— Precisei resolver uma coisa no trabalho – respondeu, forçando um sorriso.

Mas Nessie observava o marido atentamente. Conhecia cada expressão dele e percebeu o leve tensionamento em seus ombros, o olhar distraído e preocupado. Sabia que havia algo a mais ali, e se perguntava o que teria sido tão urgente para fazê-lo sair de casa sem ao menos se despedir. O fato de ele ter deixado apenas um recado com seu pai a deixou intrigada.

Ainda assim, quando Jacob se aproximou, Nessie disfarçou com um sorriso acolhedor.

— O que temos para o almoço? – ele perguntou, tentando soar casual enquanto colocava Mel na cadeira.

— Macarrão com carne – respondeu ela, vendo um brilho rápido de alegria cruzar os olhos dele e de Merliah ao mesmo tempo.

Jacob fez uma expressão de comemoração, olhando para Mel com uma piscadela.

— Macarrão! Hoje é nosso dia de sorte, hein, Mel?

A menina bateu palminhas, rindo, enquanto Nessie observava a cena e se deixava contagiar pelo momento, rindo com eles. Mas, enquanto voltava para o fogão para pegar a comida, a preocupação que sentira com a tensão de Jacob ainda a acompanhava.

O almoço começou de forma leve, e por alguns instantes, Jacob, Nessie e Mel pareciam esquecer o peso do dia, especialmente o sepultamento que haviam ido mais cedo. A cozinha se encheu de risadas e conversas suaves, o sol entrando pelas janelas iluminava o ambiente, criando uma sensação de paz e tranquilidade.

Mel gesticulava com as mãos enquanto Jacob e Nessie a observavam, atentos e sorrindo.

— A comida está gostosa? – perguntou Jacob, usando sinais com cuidado para se comunicar com a filha.

Mel balançou a cabeça animadamente e gesticulou, suas mãos ágeis.

— Macarrão é meu favorito! – sinalizou, os olhos brilhando.

— O meu também – disse Jacob, sorrindo para a pequena. – Acho que vamos precisar pedir para sua mãe fazer macarrão todos os dias.

Nessie riu, cruzando os braços enquanto fingia ponderar.

— Acho que podemos fazer um acordo. Quem ajudar mais com a louça ganha mais macarrão.

— Eu ajudo! – sinalizou Mel rapidamente, fazendo Jacob e Nessie rirem.

Quando terminaram, Jacob se ofereceu para lavar a louça.

— Deixe comigo, Ness – ele disse, já empilhando os pratos.

— Tem certeza? – Nessie perguntou, mas não insistiu ao ver o sorriso tranquilo do marido.

Ela pegou Mel no colo e a levou para o quarto. Colocou a filha diante da TV, com seu desenho favorito, e deixou a menina confortavelmente acomodada. Depois, voltou para a cozinha.

Jacob já havia terminado de lavar a louça e secava as mãos quando ela se aproximou. Ele a puxou para perto e a beijou suavemente, mas ela recuou um pouco e o olhou com seriedade.

— Agora, me diga a verdade – disse ela, sem rodeios. – Onde você foi, Jake?

Jacob suspirou, percebendo que não havia como esconder aquilo por mais tempo. Nessie o conhecia bem demais.