Renesmee


O som cadenciado dos cascos de quatro cavalos de raça contra os paralelepípedos úmidos anunciou que a longa viagem desde Surrey chegava ao fim. À medida que a carruagem de viagem com o brasão dos Black atravessava as alamedas imponentes de Mayfair, a névoa fina que subia do Tamisa misturava-se ao brilho alinhado dos lampiões a gás, revelando o luxo vertiginoso da capital britânica.

Londres era um contraste vibrante e esmagador com a paz de Surrey. O rumor constante de outras carruagens de nobres, o vaivém de lacaios em libré e as fachadas de pedra clara das imensas residências aristocráticas desenhavam o cenário da alta sociedade em pleno fervor de preparação para a temporada.

A carruagem finalmente reduziu o passo e dobrou na graciosa esquina de Grosvenor Square, parando diante do pátio privado de uma mansão neoclássica de três andares. A imponente residência urbana pertencia a Lorde Paul Lahote, o Barão de Lahote e recém-nomeado Conselheiro Privado da Coroa, uma posição de prestígio e alta relevância política que o colocava diretamente nos círculos mais influentes da corte de St. James e do Parlamento.

Antes mesmo que o cocheiro terminasse de posicionar os degraus de metal, as grandes portas duplas de carvalho trabalhado da mansão abriram-se.

Rachel surgiu no portão de entrada com uma graciosidade radiante. Usava um vestido de seda azul-safira, e seus olhos brilhavam com uma alegria genuína que imediatamente dissolveu o receio que apertava meu peito. Logo atrás dela, vestindo um casaco de veludo escuro perfeitamente cortado que destacava sua figura alta e imponente, estava Lorde Paul.

— Nessie! — exclamou Rachel, descendo os degraus de pedra sem se importar com a brisa fria da noite, vindo ao meu encontro assim que desci do veículo.

Nos abraçamos com calor, e por um instante senti como se estivesse de volta aos jardins de Surrey

— Minha querida irmã — disse Rachel, segurando minhas mãos e examinando meu rosto com afeto. — A viagem foi muito cansativa? Estávamos contando as horas para a sua chegada desde o nascer do sol!

— O caminho foi tranquilo, Rachel — respondi, sorrindo e sentindo o calor do seu abraço me acolher. — Mas confesso que a imponência de Mayfair ainda me deixa um pouco sem fôlego.

Lorde Paul aproximou-se com um sorriso bem-humorado, inclinando-se para fazer uma reverência respeitosa antes de tomar minha mão com a cordialidade habitual.

— Seja bem-vinda à nossa casa, Lady Renesmee — disse Paul, sua voz grave e firme ecoando com a habitual energia. — O Duque de Blackwood deixou-me sob rigorosas instruções para garantir que nenhum perigo de Mayfair chegue perto de você. Como Barão e representante da corte, garanto que farei cumprir a ordem de William à risca.

— Agradeço a acolhida, Lorde Lahote — respondi com uma pequena reverência, apreciando a camaradagem de Paul, que desde os meus dez anos sempre me tratara com extremo carinho e proteção.

— Nada de formalidades dentro destas paredes, Nessie — interveio Rachel, passando o seu braço pelo meu e guiando-me para dentro do hall de entrada, iluminado por um imenso lustre de cristal de Boêmia que projetava reflexos dourados nas paredes de mármore. — Aqui você não é apenas minha dama de companhia; esta é a sua casa enquanto estiver em Londres.

Acomodamo-nos na sala de estar do andar principal, onde um chá de jasmim fumegante e pequenos bolos ingleses nos aguardavam ao lado da lareira crepitante. Enquanto os criados subiam com os meus baús de viagem para o segundo andar, Paul acomodou-se em uma das poltronas de couro, comentando sobre a movimentada rotina da capital.

— Os salões de Mayfair não falam de outra coisa a não ser dos bailes que começam esta semana — explicou Paul, bebericando o seu chá. — A presença da afilhada do Duque de Blackwood já é o assunto mais comentado no clube dos nobres e nas recepções da corte. As cartas que William enviou aos lordes rejeitando propostas deixaram metade dos solteiros da capital curiosos e a outra metade desafiados.

— E você fará a sua estreia oficial ao meu lado no Baile dos Viscondes de Danbury, daqui a três dias — acrescentou Rachel, os olhos faiscando de entusiasmo. — Preparamos tudo para que a sua chegada à sociedade seja memorável.

Escutei atenta, sentindo um frio sutil na barriga ao perceber que o jogo de aparências, alianças e convites de Mayfair estava prestes a se iniciar.

•••

. Depois que o chá no andar térreo acabou e as conversas formais da noite se encerraram, nos recolhemos para o andar de cima. O quarto reservado para mim era imenso e acolhedor, mas antes de me deitar, caminhei até os aposentos de Rachel, exatamente como a gente sempre fazia nas noites tranquilas em Surrey.

Ajudei minha irmã de coração a soltar os ganchos do vestido e a desatar as fitas do corpete, colocando a peça sobre o manequim. Em seguida, peguei a escova de marfim e passei a escovar suavemente os seus cabelos escuros diante do espelho, enquanto ela vestia uma camisola leve de linho.

— Senti tanta falta disso, Nessie — disse Rachel, me olhando pelo reflexo do espelho com um carinho calmo. — Parecia que as noites lá fora não estavam completas sem a nossa conversa antes de dormir.

— Eu também senti, Rachel — respondi, sorrindo e sem parar o movimento da escova. — Suas cartas eram lindas, mas faltava o seu tom de voz. Você me contou sobre os museus de Florença, as gôndolas de Veneza... mas nunca me disse direito o que muda de verdade na vida de uma mulher quando ela se casa.

Rachel deu uma risadinha baixa, ajeitando as mangas da camisola.

— Ah, muda muita coisa, minha querida. A gente passa a cuidar de um lar inteiramente nosso, a acompanhar o marido... O Paul agora é Barão, e essas reuniões da corte ocupam quase todo o tempo dele.

Abaixei a escova aos poucos, meio hesitante, sentindo minhas bochechas começarem a esquentar. Na minha idade, tudo o que nos ensinam sobre casamento se resume a aulas de etiqueta, escolha de tecidos e como ser uma esposa respeitável. O que acontecia depois que as portas do quarto se fecham era sempre um mistério, cheio de sussurros e desvios de assunto por parte de Lady Sarah e das governantas.

— Mas... e a lua de mel, Rachel? — perguntei bem baixinho, me inclinando um pouco. — O que acontece quando a festa acaba e vocês ficam sozinhos? As moças na corte comentam sobre deveres que a gente precisa cumprir, mas eu nunca entendi o que isso quer dizer na prática.

Rachel se virou na cadeira de toucador e me olhou. Ao ver minha cara de pura ingenuidade, os olhos dela brilharam com uma malícia divertida. Ela segurou minha mão, puxando-me para sentar no banquinho bem na sua frente.

— Ah, Nessie... — disse ela, com um sorriso de canto. — A nobreza adora deixar as moças achando que o matrimônio é só dar as mãos e trocar olhares apaixonados. Mas a verdade é bem mais... reveladora.

Senti um arrepio percorrer minhas costas.

— Como assim, reveladora? — gaguejei.

Rachel inclinou-se para frente, abaixando o tom de voz para um sussurro cúmplice, deliciando-se com a minha curiosidade.

— Na noite de núpcias, Nessie, não existem espartilhos, nem criadas, nem camisolas pesadas. O seu marido tira cada peça de roupa sua, até que não sobre absolutamente nada entre vocês. E você faz o mesmo com ele.

Senti o sangue subir de golpe para o meu rosto. Minhas bochechas queimaram tanto que tive certeza de que deviam estar vermelhas como pimentas.

— Ele... ele vê a gente... sem nada? — perguntei, arregalando os olhos e cobrindo a boca com a mão, chocada com a mera ideia de ficar desprovida de roupas na frente de um homem.

— Vê tudinho — riu Rachel, aproveitando o meu espanto. — E não para por aí. Um homem e uma mulher se deitam juntos na mesma cama, pele com pele. Há toques, carícias em lugares que você nem imagina e uma proximidade tão intensa que o seu corpo inteiro esquenta. O marido se deita sobre a esposa e... bem, há uma união física real, Nessie. O corpo dele se junta ao seu de um jeito completamente íntimo para que possam conceber os filhos da família.

A essa altura, eu estava morrendo de vergonha que puxei minhas mãos das dela e cobri o rosto inteiro, soltando um ganido abafado. Minhas orelhas queimavam, e o meu coração parecia que ia saltar do peito de tanto sobressalto.

— Rachel! Por favor! — pedi, com a voz abafada entre os dedos, dividida entre o choque absoluto e o constrangimento de ouvir aquilo com tantos detalhes. — Meu Deus, como é que as pessoas conseguem olhar nos olhos umas das outras no salão no dia seguinte?!

Rachel deu uma gargalhada alta, desfrutando da minha reação de menininha assustada, e puxou carinhosamente as minhas mãos do meu rosto.

— No começo parece um choque mesmo, minha irmã! — disse ela, ainda rindo levemente. — Eu também achei que fosse morrer de vergonha quando o Paul me tirou os vestidos. Mas a verdade é que, quando existe amor e desejo de verdade, tudo acontece de forma natural. Deixa de ser assustador e vira algo incrivelmente gostoso e especial. É por isso que o papai recusa tanto pretendente fútil para você. Fazer tudo isso com um homem que você não ama deve ser um tormento... mas com a pessoa certa, é maravilhoso.

Ainda tentando me recuperar do choque e com as mãos pressionadas contra o rosto em brasa, dei dois passos rápidos em direção à saída, ansiosa para me refugiar no meu próprio quarto. No entanto, antes que meus dedos pudessem alcançar a maçaneta, a pesada porta de carvalho abriu-se de golpe.

— Rachel, o valete já trouxe o... — começou Paul, entrando no aposento enquanto tirava a casaca escura.

Ao seu lado, o valete vinha logo atrás carregando uma jarra de água e uma toalha dobrada.

Gelei no mesmo segundo. O movimento brusco me pegou de surpresa, fazendo com que eu quase tropeçasse na barra do meu próprio vestido. Paul parou bruscamente a meio caminho, surpreso com a minha presença ali àquela hora da noite, enquanto o criado deu um passo atrás com discrição, mantendo o olhar respeitosamente baixo.

Eu devia estar parecendo um verdadeiro pimentão. Senti o rubor subir até a raiz dos meus cabelos, e a ideia de que o marido de Rachel, a própria pessoa sobre quem ela acabara de me dar detalhes tão... explícitos, estivesse ali na minha frente me deixou completamente desnorteada.

Paul piscou, surpreso, e seus olhos navegaram do meu rosto em chamas para Rachel, que ainda estava sentada no toucador tentando conter um sorriso absurdamente divertido.

— Boa noite, Lady Renesmee... — disse Paul, franzindo a testa com uma mistura de preocupação e perplexidade ao notar minha vermelhidão evidente. — Está tudo bem? O quarto está quente demais ou você está se sentindo mal? O seu rosto está... extremamente corado.

Minha garganta secou instantaneamente. Senti minhas orelhas queimarem tanto que achei que iriam derreter.

— Eu... eu... — gaguejei, a voz saindo uma oitava mais alta do que o normal, enquanto tentava inutilmente cobrir as bochechas com as palmas das mãos. — Está... está um calor agradável, Paul! Quero dizer, Lorde Lahote! Eu apenas... a conversa foi... bastante esclarecedora!

Rachel não aguentou. Soltou uma gargalhada abafada atrás da mão, o que só fez o meu desespero triplicar.

Paul olhou para a esposa, depois voltou a olhar para mim, e no segundo seguinte o entendimento pareceu estalar em sua mente. Ele percebeu na hora sobre o que estávamos falando. Um sorriso de canto e terrivelmente convencido surgiu no rosto dele, enquanto ele tentava pigarrear para manter a postura diante do valete.

— Ah... compreendo — murmurou Paul, ajustando os punhos da camisa com um brilho maroto nos olhos. — Rachel esteve lhe ensinando um pouco mais sobre as... particularidades da vida em Londres, vejo eu.

— Boa noite a todos! — exclamei quase em um ganido, sem capacidade mental para encarar nem mais um segundo daquela cena.

Passei por Paul e pelo valete como um furacão, mantendo a cabeça baixa e segurando a saia com força. Corri pelo corredor de carvalho até o meu quarto, ouvindo ao fundo o riso gostoso de Rachel misturar-se ao tom divertido de Paul no aposento deles.

Fechei a porta do meu quarto, encostando as costas na madeira e deixando-me escorregar até o chão. Pressionei as mãos frias contra o rosto quente, soltando um suspiro profundo. Se os salões de Mayfair fossem metade tão constrangedores quanto os bastidores daquela casa, eu precisaria de muito mais coragem do que imaginava para sobreviver àquela temporada.







Notas finais
Continuo?