Sob o céu de Blackwood
5 Cap. 4 : Estufa
Renesmee
As semanas na capital fluíram com uma rapidez surpreendente. A estranheza inicial que senti ao trocar o silêncio de Surrey pela agitação de Mayfair dissolveu-se aos poucos, muito graças à presença constante e acolhedora de Rachel. Ter minha irmã de criação ao meu lado tornava cada compromisso mais leve. Entre visitas vespertinas, passeios pelo Hyde Park e tardes dedicadas aos bordados na sala de estar, eu me habituara ao ritmo elegante e exigente de Londres.
Naquela noite, o cenário era o imponente palacete da Família Cavendish. O salão de baile transbordava o luxo da mais alta nobreza: lustres de cristal reluziam sob o teto trabalhado em afrescos, o perfume de flores frescas misturava-se ao ar aquecido pelas centenas de velas, e a orquestra entoava uma valsa harmoniosa que embalava os pares pelo salão de mármore.
Eu usava um vestido de seda azul-celeste, com sutis bordados em prateado ao longo do decote e das saias, presente de Lady Sarah para a temporada. O colar de pérolas com a safira reluzia em meu pescoço, trazendo-me uma sensação reconfortante de proteção.
De pé perto da galeria dos músicos, eu observava o vaivém dos leques e as conversas sussurradas entre as damas quando Paul e Rachel se aproximaram. Paul vestia uma casaca impecável e exibia a postura altiva de um Conselheiro do Rei, mas seus olhos traziam a habitual vivacidade bem-humorada.
— Renesmee — chamou Paul suavemente, indicando com um discreto movimento de queixo um jovem cavalheiro que conversava com alguns diplomatas perto da entrada. — Gostaria de lhe apresentar o Senhor Arthur Cavendish, o filho mais velho e herdeiro do Conde de Devonshire. Ele é um homem de excelente caráter, culto e extremamente respeitado na corte. William certamente aprovaria que você concedesse uma dança a ele.
Olhei na direção indicada. Arthur Cavendish era um rapaz jovem, de porte elegante, cabelos castanhos alinhavados e um olhar gentil que demonstrava sobriedade, bem diferente da arrogância comum a muitos herdeiros da capital.
— Se o senhor e o padrinho consideram apropriado, será um prazer, Lorde Lahote — respondi, esboçando um sorriso sersenhor
Poucos minutos depois, Paul conduziu Arthur até onde estávamos. Após as apresentações formais e as reverências de praxe, o jovem nobre estendeu a mão com extrema cortesia.
— Concede-me a honra desta valsa, Lady Renesmee? — pediu ele, com uma voz pausada e firme.
— Com todo o prazer, Senhor Cavendish — aceitei, tocando levemente os seus dedos com minha mão enluvada.
Fomos guiados até o centro do salão. Quando a música recomeçou, Arthur conduziu os passos com impecável leveza e precisão. Riscávamos o salão em círculos suaves, respeitando rigorosamente a distância exigida pelo decoro.
— Espero que a temporada em Londres esteja sendo agradável para a senhorita, Lady Renesmee — começou Arthur, mantendo o olhar cortês fixo no meu. — Ouvi dizer que a senhorita prefere a tranquilidade do campo ao burburinho da capital.
— É verdade que deixei uma grande parte do meu coração em Surrey, Senhor Cavendish — admiti, sorrindo com modéstia. — Mas a acolhida de minha lady e a beleza das noites de Mayfair têm me surpreendido positivamente.
— Londres ganha um encanto singular com a sua presença — declarou ele, com um tom sincero e sem o exagero das lisonjas fúteis que eu tanto temia escutar nos salões. — Meu pai e Lorde Lahote possuem negócios em comum no Parlamento, e confesso que ouvir falar de sua graciosidade não faz justiça à realidade.
Senti um leve rubor surgir em minhas bochechas, mas mantive a compostura, agradecendo a gentileza com uma leve inclinação de cabeça. Arthur conversava de maneira agradável sobre literatura, música e a vida na corte, demonstrando uma maturidade que justificava a boa impressão de Paul a seu respeito.
Enquanto girávamos pelo salão sob os olhares atentos das matronas e dos pretendentes de Mayfair, percebi que, pela primeira vez desde que chegara à capital, eu me sentia verdadeiramente segura.
Nas semanas que se seguiram àquele baile na casa dos Cavendish, o mundo ao meu redor parecia ter adquirido uma tonalidade mais vibrante. O cortejo de Arthur começou com a elegância cautelosa que a nobreza exigia, mas logo se transformou numa presença constante e confortante na minha rotina em Mayfair.
Primeiro, vieram os buquês de lírios brancos entregues todas as manhãs no hall da mansão. Depois, as visitas vespertinas à sala de estar, onde ele conversava com Paul sobre política e declamava versos com uma sensibilidade que me fazia suspirar em segredo sobre meus bordados. Nos passeios pelo Hyde Park, quando a carruagem parava e nós caminhávamos lado a lado sob o olhar vigilante de Rachel, Arthur mantinha sempre a distância correta, mas seus olhos buscavam os meus com uma devoção que eu nunca pensara testemunhar.
Ele era tudo o que William, Sarah e Paul poderiam desejar para mim: educado, nobre, paciente e de uma gentileza irretocável.
Aos poucos, percebi que meu coração, antes tão vacilante e protegido pela ingenuidade de Surrey, começara a ceder. A expectativa de vê-lo nos bailes fazia meu peito acelerar antes mesmo de terminar de abotoar minhas luvas de pelica. Pela primeira vez em meus dezesseis anos, acreditei que estava me apaixonando. Imaginava um futuro ao lado dele, um futuro abençoado por meu padrinho, aceito pela sociedade e construído sobre um afeto tranquilo.
E foi essa mesma certeza, perigosa e ingênua, que me fez ceder à imprudência.
Na noite do baile de recepção da Duquesa de Richmond, o calor no salão principal estava sufocante. A orquestra tocava uma peça vibrante enquanto as damas se abanavam com leques de plumas e os lordes discutiam os negócios da corte. Ao término de uma dança, quando Rachel se afastou por alguns instantes para cumprimentar uma condessa, Arthur aproximou-se de mim com a desculpa de me trazer um copo de limonada fresca.
Ao me entregar a taça de cristal, nossos dedos se tocaram por um segundo a mais do que o decoro permitia. Ele olhou ao redor, garantindo que as matronas de Mayfair estavam distraídas com a música, e inclinou-se devagar.
— Lady Renesmee... — sussurrou ele, a voz carregada de uma urgência contida que fez meu pulso falhar. — Preciso falar-lhe sem os olhares e os murmúrios desta multidão. Apenas cinco minutos, longe das máscaras de Mayfair.
Senti um arrepio percorrer minha espinha. A etiqueta da época era implacável: uma jovem solteira jamais deveria ser vista a sós com um cavalheiro. A menor suspeita ou murmúrio sobre uma escapada a sós poderia arruinar a reputação de uma moça para sempre e desonrar a proteção dos Black.
— Arthur, você sabe que não podemos... — comecei, o tom vacilante revelando meu próprio desejo em contraste com o meu receio. — Se alguém nos notar, se o meu cunhado ou o Duque souberem...
— Prometo pela minha honra que não farei nada que desrespeite a sua pureza — interrompeu ele, encarando-me com uma intensidade que derreteu todas as minhas defesas. — Só quero olhar nos seus olhos sem que dez pares de olhos nos julguem. A estufa de orquídeas ao fundo do jardim oeste está deserta a esta hora. Por favor, Renesmee. Dê-me esses poucos minutos.
Olhei para o salão, procurando por Rachel no meio da multidão engalanada. A razão dizia-me para recuar e regressar para junto de minha irmã de criação. Mas o sentimento novo e avassalador que crescia em meu peito falou mais alto do que todos os avisos de Lady Sarah e do Duque.
Acreditando que estava diante do homem que guardaria meu coração para sempre, dei uma leve e quase imperceptível inclinação de cabeça.
— Cinco minutos, Arthur — murmurei, o peito disparado como o de uma ave assustada. — Nem um segundo a mais.
Aproveitando a movimentação do salão e o ritmo acelerado da dança que se iniciava, deslizei discretamente para a galeria lateral e atravessei as pesadas portas de vidro que davam acesso aos jardins escuros de Richmond, sem saber que estava prestes a dar o passo mais arriscado e decisivo da minha vida.
A estufa de orquídeas estava mergulhada em uma penumbra morna e silenciosa. O cheiro denso de terra úmida e flores tropicais contrastava com o ar frio da noite de Londres, enquanto a luz do luar atravessava os painéis de vidro do teto, projetando sombras alongadas sobre o chão.
O silêncio do jardim parecia ensurdecedor comparado ao eco distante da orquestra no salão.
— Ninguém nos viu, Renesmee — sussurrou Arthur, dando um passo em minha direção e trancando a porta de vidro com um clique seco.
— Nós não deveríamos estar aqui, Arthur — murmurei, recuando um passo por puro instinto enquanto tentava ajustar o xale de renda sobre os ombros. — Se alguém nos encontrar...
— Não vai acontecer nada — interrompeu ele, avançando com uma rapidez que me paralisou.
Ele me segurou pelos braços com uma firmeza rígida, completamente diferente da conduta cortês e delicada que sempre demonstrara nos passeios de Mayfair. Antes que eu pudesse reprimir o movimento ou recuar, Arthur me prensou contra uma das bancadas de madeira da estufa e forçou seus lábios contra os meus.
Foi o meu primeiro beijo, mas não houve qualquer traço de gentileza. Tentei empurrá-lo, colocando as palmas das minhas mãos contra o peito dele, mas a diferença de força era esmagadora. Tomado por uma urgência agressiva e assustadora, ele ignorou os meus pedidos abafados e a minha resistência física. Prendeu os meus pulsos com uma das mãos e, com a outra, começou a desatar com grosseria as fitas do meu corpete, erguendo as pesadas saias do meu vestido de seda.
Pressionada contra a madeira gélida, paralisada pelo choque e tomada por um pânico sufocante, senti a invasão violenta e dolorosa quando ele me tomou por completo, tirando-me a virgindade ali mesmo, no chão escuro da estufa. A dor física aguda rasgou o meu corpo, misturando-se a uma sensação avassaladora de impotência, enquanto lágrimas quentes e silenciosas corriam sem parar pelo meu rosto.
Quando ele finalmente se afastou, recompondo a própria casaca com uma calma perturbadora, permaneci caída sobre o piso frio, com o vestido sujo e desalinhado, tentando cobrir-me com mãos trêmulas enquanto sufocava os soluços no peito.
— Arthur... por que fez isso?... Está tudo errado... — consegui articular, a voz quebrada e quase inaudível.
Ele se aproximou, limpando uma das minhas lágrimas com o polegar em um gesto falsamente carinhoso, mantendo uma expressão perfeitamente serena e sem qualquer traço de remorso.
— Acalme-se, minha Lady. Não há nada de errado — disse ele com frieza, em um tom quase professoral. — Isso é o que homens e mulheres que vão se casar fazem. É assim que o amor funciona. Você é jovem e inocente demais para compreender, mas isso é perfeitamente normal entre nós.
Olhando para ele através do véu de lágrimas, sentindo a dor intensa que irradiava pelo meu corpo e percebendo a mancha escura na barra das minhas anáguas, fiquei completamente desorientada.
— Recomponha-se — ordenou ele suavemente, puxando-me pelo braço para que eu me levantasse e ajeitando as dobras do meu vestido para disfarçar o desalinho das fitas. — Não queremos que Lorde Lahote ou a sociedade pensem que você é uma moça histérica.
Apoiando-me nele por pura falta de forças, tomada por um sentimento devastador de vergonha e ruína, deixei-me ser guiada de volta em direção à luz do salão de baile, incapaz de assimilar a gravidade do ato que acabara de acontecer.
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