Sob o céu de Blackwood

15 Cap. 14 : Meu lorde



Renesmee


Duas semanas haviam se passado desde a manhã em que meu mundo desmoronara, mas o tempo na mansão Blackwood parecia correr em um ritmo lento e pesado. Acomodada na poltrona perto da grande janela do meu aposento, eu observava a chuva fina tingir os jardins de cinza. A dor física que rasgava meu corpo começara a ceder graças aos cuidados do Dr. Geraint, mas a ferida na minha alma ainda queimava, silenciosa e profunda.

Ao meu lado, Sarah terminava de arrumar o xale sobre os meus ombros com a mesma delicadeza maternal de sempre. Nos últimos dias, ela se tornara um porto seguro inesperado; não havia julgamento em seus olhos, apenas uma proteção zelosa e uma aprovação sincera sobre o futuro que se desenhava para nós.

— Você precisa comer mais um pouco, querida — disse Sarah, com a voz suave, apontando para a bandeja de chá e torradas sobre a mesa de centro. — Jacob deve cruzar os portões da propriedade a qualquer momento. Ele não vai gostar nada de encontrá-la tão pálida.

A menção ao nome dele fez meu coração dar um salto involuntário. Jacob. O homem que me carregara nos braços quando pensei ser o meu fim, que desafiara a sociedade e a própria Coroa por mim, e que em breve se tornaria meu marido.

— Eu já me sinto mais forte, mãe... digo, Lady Sarah — corrigi-me, engolindo em seco, ainda tentando me habituar à transição de minha mãe de criação para minha futura sogra.

— Pode continuar me chamando de mãe, Renesmee — disse ela com um sorriso acolhedor, tocando meu queixo de leve. — Sempre fui e sempre serei. Mas agora, com a bênção da Rainha que Jacob foi buscar em Londres, você também assumirá o seu lugar legítimo como a nova Duquesa de Blackwood.

No canto do quarto, ajustando os vestidos recém-chegados das costureiras, estava Claire. A jovem, recém-nomeada minha dama de companhia pessoal por ordens diretas de Jacob antes de sua partida para a capital, mantinha uma postura impecável, leal e extremamente discreta.

— Minha Lady — interveio Claire com uma breve reverência, aproximando-se com um espelho de mão e uma escova de prata —, se me permite, devemos arrumar seus cabelos. O som das carruagens na alameda principal acabou de ressoar. O Duque acaba de chegar de Londres.

O ruído distante das rodas de ferro sobre o cascalho úmido fez meu peito apertar. Ajeitei meu vestido cinza de veludo com as mãos trêmulas enquanto Claire começava a alinhar minhas mechas acobreadas. Eu aguardava o retorno de Jacob com uma mistura avassaladora de alívio e ansiedade.

Caminhei a passos lentos pelo corredor de carvalho da mansão, sentindo o tecido pesado do meu vestido de veludo roçar contra as pernas a cada movimento. Cada quadro da galeria de antepassados parecia observar minha passagem, mas meus olhos se fixaram no imponente retrato do falecido Duque William. Fui criada sob este teto como sua afilhada, acolhida com todo o afeto e carinho que uma órfã poderia desejar. Para mim, Jacob sempre fora uma figura intocável, o herdeiro altivo e distante com quem eu partilhava a mesa de jantar e as memórias da infância. Jamais, nem nos meus pensamentos mais remotos, imaginei que um dia caminharia por estes mesmos tapetes não como a pupila protegida da casa, mas como a mulher destinada a se casar com o filho dele e assumir o título de Duquesa de Blackwood.

O destino tomara um rumo brutal para nos trazer até aqui. A lembrança do terror que vivi nas mãos de Arthur Cavendish e da tragédia que se seguiu no bosque ainda fazia minhas mãos tremerem sob as luvas, mas a figura de Jacob surgira em meio ao meu caos não como um irmão de criação, mas como um homem implacável, pronto para dobrar a vontade da própria Coroa para me salvar.

Ao me aproximar do topo da grande escadaria de mármore, o som das botas de Jacob ressoou no saguão principal. Apoiei a mão no corrimão e olhei para baixo, vendo-o retirar suas luvas de montaria enquanto entregava a cartola a Quil. Ele ergueu o olhar e nossos olhos se cruzaram no ar. O nó na minha garganta se apertou, misturando o pavor do passado que deixávamos para trás com a incerteza de um futuro onde ele agora era o meu protetor, o meu senhor e o meu futuro marido.

Jacob entregou a capa e a cartola a Quil, ajeitando os punhos da casaca escura enquanto subia os primeiros degraus da grande escadaria de mármore. Seu olhar firme, tingido pelo cansaço da viagem desde Londres, fixou-se imediatamente em mim antes de se voltar para Sarah, que aguardava ao meu lado no topo do patamar.

— Mãe — cumprimentou ele, a voz grave ressoando pelo saguão com a autoridade natural do seu novo título. Ele inclinou a cabeça em uma mesura respeitosa para Sarah e, em seguida, deu o último passo até parar diante de mim. Seus olhos escuros varreram meu rosto minuciosamente, buscando qualquer traço de dor ou fraqueza. — Renesmee.

— Duque ... — murmurei, prendendo a respiração sob a intensidade do seu olhar.

— Como ela está? — perguntou ele diretamente a Sarah, sem desviar a atenção de mim por um segundo sequer. — O Doutor Geraint retornou durante a minha ausência? A febre voltou?

— Ela está muito melhor, meu filho — respondeu Sarah, pousando uma das mãos sobre meu ombro em um gesto protetor. — O repouso fez milagres e Claire tem sido de grande ajuda. Renesmee precisa apenas de calma e paz para se recuperar totalmente.

Jacob assentiu devagar, visivelmente aliviado ao constatar que a cor começava a retornar às minhas bochechas. Contudo, a expressão de conforto deu lugar a uma determinação firme.

— Excelente — declarou ele, dando meio passo à frente. — Nesse caso, preciso conversar com Renesmee. A sós. No meu escritório.

Sarah imediatamente enrijeceu a postura, o sorriso cordial desvanecendo-se no mesmo instante.

— A sós, meu filho? — questionou ela, o tom de voz subindo ligeiramente em um alerta contido. — Isso é absolutamente impróprio. Qualquer assunto sobre o noivado pode ser discutido na presença da família.

— Com todo o respeito, mãe, os assuntos que tenho a tratar com a minha futura esposa dizem respeito apenas a nós dois — retrucou Jacob, a voz mantendo um tom baixo, porém cortante e inflexível, que não admitia réplica. — Não sou mais o rapaz que recebia ordens nesta casa, e o que passei as últimas duas semanas resolvendo em Londres exige uma conversa sem testemunhas.

Ele estendeu o braço em minha direção, aguardando que eu aceitasse seu apoio, enquanto o clima entre mãe e filho tornava-se denso de pura tensão.

Deslizei os dedos cobertos pela luva de cetim sobre o braço estendido de Jacob, sentindo a firmeza do seu músculo sob o tecido da casaca. O toque enviado pelo meu corpo trazia um contraste estranho: a familiaridade da vida inteira misturada ao receio do homem imponente que ele se tornara.

— Está tudo bem, Lady Sarah — disse , voltando-me para minha mãe de criação com um sorriso contido para tranquilizá-la. — Nós precisamos conversar.

Sarah suspirou, o olhar oscilando entre o protesto e a resignação ao perceber a determinação inabalável de Jacob. Ela deu um passo para trás, permitindo que seguíssemos pelo corredor até a pesada porta de carvalho do escritório ducal.

Jacob fechou a porta atrás de nós com um clique seco, isolando o cômodo do restante da casa. O aroma familiar de fumo de cachimbo, couro e madeira envelhecida impregnava o ar. Ele caminhou até a grande escrivaninha de seu falecido pai, retirou as luvas e as pousou sobre a mesa antes de se voltar para mim, encostando a parte posterior das coxas na madeira nobre e cruzando os braços.

— Como você realmente está, Renesmee? — perguntou ele, a voz perdendo a frieza ostentada no saguão e assumindo um tom profundo e atento. — Sem as evasivas que diz à minha mãe ou às criadas. Quero que seja sincera comigo. O que pensa sobre a ideia de se casar comigo?

Enlacei as mãos à frente do corpo, mantendo o olhar fixo no dele. A presença de Jacob preenchia o escritório de uma forma quase sufocante, mas não havia medo em mim, apenas a necessidade vital de verdade.

— Eu sinto gratidão, Lorde Black — comecei, a voz firme a despeito do tremor interior. — Sei o que você fez em Londres. Sei que enfrentou a Coroa e arruinou as pretensões de Cavendish para me livrar daquele inferno. Mas... mentiria se dissesse que não me sinto perdida. Cresci vendo você como um protetor. A ideia de nos unirmos perante a Igreja e a sociedade ainda é algo difícil de assimilar.

Jacob assentiu devagar, soltando o ar pelo nariz como se confirmasse uma suspeita que já o acompanhava há semanas.

— Não precisa fingir comigo, minha Lady — disse ele, dando um passo em minha direção. — Eu não esperava que você acordasse apaixonada por mim depois de tudo o que viveu. O que estabelecemos perante o Rei e a Rainha foi uma fachada necessária para salvar o seu nome e a honra desta família. Este será um casamento de conveniência. Um casamento de aparências, como eu já previa desde o início.

Ele fez uma pausa, o olhar grave e compenetrado cravado no meu.

— Quero que saiba exatamente o que esperar de mim sob este teto. Não vou cobrar nada de você, Renesmee. Não haverá exigências de obrigações conjugais, tampouco a pressão para gerar herdeiros. O meu papel será garantir a sua segurança, a sua posição como Duquesa de Blackwood e a sua paz de espírito. Você terá total liberdade dentro dos portões desta propriedade e o respeito de todos os servos.

Respirei fundo, um alívio imenso inundando meu peito ao ouvir a promessa de liberdade e proteção sem a ameaça da intimidade forçada.

— Isso é mais do que eu poderia pedir, meu senhor — murmurei.

— Em contrapartida — continuou ele, o tom baixando e tornando-se extraordinariamente sério —, preciso que me dê a sua palavra sobre uma única exigência.

Sustentei seu olhar, curiosa e cautelosa.

— Qual exigência?

— Você não poderá me cobrar fidelidade. De forma alguma — declarou ele, frio e direto. — Se comentários ou boatos vindos dos clubes de Londres ou dos salões de Mayfair chegarem aos seus ouvidos, você deverá ignorá-los por completo. Se acaso tais comentários chegarem aos ouvidos de minha mãe, terá que dizer que confia em seu marido, quando muito, dira que homens tem necessidades.

A crueza das suas palavras fez minhas sobrancelhas se contraírem. Ajeitei a postura, encarando-o com uma ponta de indignação.

— Como pode me pedir para aceitar uma humilhação pública dessas? O que minha mãe e Rachel diriam se soubessem que o novo Duque mantém uma conduta dessa natureza ?

Jacob deu um sorriso amargo de canto de boca, balançando a cabeça.

— Minha mãe e Rachel enxergam apenas o filho e irmão devotado , Renesmee. Elas desconhecem completamente o homem que me tornei longe dos olhos da família. Na alta sociedade de Londres, sou um libertino. Tenho meus hábitos, meus vícios e minhas companhias nos clubes de cavalheiros e nas noites da capital, e não pretendo abrir mão disso pelo bem de uma união de fachada.

Ele deu mais dois passos, parando a uma distância mínima de mim, projetando sua sombra imponente sobre meu corpo.

— A sociedade verá uma Duquesa respeitada, coberta de joias e impecável. Ninguém ousará faltar com o respeito a você. Mas a minha vida privada fora desta casa pertence unicamente a mim. Essa é a minha condição para que este acordo funcione.

Olhei para o homem à minha frente, absorvendo a sinceridade crua da sua revelação. O libertino de Londres e o meu protetor de infância eram a mesma pessoa, e aquele era o preço da minha salvação e da minha liberdade.

— Temos um acordo, Vossa Graça — respondi baixinho, mas com o olhar inabalável.

Um vislumbre de satisfação cruzou o rosto de Jacob, e a rigidez do seu semblante suavizou-se apenas o suficiente para deixar escapar um sorriso frio e vitorioso. Ele deu mais um passo à frente, fechando o espaço entre nós até que o calor da sua presença me envolvesse por completo.

— Fico satisfeito que veja as coisas com clareza, Renesmee — disse ele, a voz baixinha e aveludada, mas carregada de uma autoridade que não deixava margem para dúvidas. — Você sempre foi inteligente demais para se apegar a iluminações românticas e tolas da aristocracia.

Ele ergueu a mão lentamente. Os dedos quentes e calosos do novo Duque roçaram a linha do meu queixo, erguendo meu rosto com uma delicadeza firme para que meus olhos fossem forçados a encarar os dele.

— No entanto, há um complemento a essa regra que precisa ficar gravado na sua mente — continuou ele, o tom tornando-se perigosamente grave. — O que vale para mim, não vale para você.

Pisquei devagar, sentindo a mudança repentina de ar entre nós.

— O que quer dizer com isso? — perguntei, sustentando o olhar.

— Quero dizer que você terá absolutamente tudo o que o meu título, o meu ouro e o meu nome puderem comprar — declarou Jacob, com uma posse implacável brilhando no fundo de suas íris escuras. — Joias, vestidos, servos à sua disposição, a melhor propriedade do distrito e a minha proteção total contra qualquer ameaça neste reino. Se desejar as estrelas, eu darei um jeito de buscá-las para você. Mas a sua lealdade será exclusiva e irrestrita.

O polegar dele pressionou suavemente meu lábio inferior antes de deslizar até a curva do meu pescoço, onde a minha pulsação acelerava sob a sua pele.

— Você carregará o meu sobrenome e a minha coroa de Duquesa — murmurou ele, inclinando a cabeça ligeiramente até que sua respiração roçasse meu rosto. — E eu não vou tolerar, em hipótese alguma, que outro homem coloque os olhos em você. Se um único nobre ou servo ousar tocar num só fio do seu cabelo, ou se você sequer cogitar buscar o afeto de outro... eu destruirei a vida dele sem a menor hesitação. Você é minha, Renesmee. Perante Deus, perante a Coroa e perante o mundo. Fui claro?

O contraste entre a promessa de não me forçar a nada e a exigência de posse absoluta fez meu peito arfar. Eu estava trocando as correntes do pavor e da violência de Cavendish por uma gaiola de ouro e aço construída pelo meu próprio protetor — e, no entanto, olhando para a determinação inabalável de Jacob, soube que preferia mil vezes pertencer à sombra dele do que à mercê do resto do mundo.

— Perfeitamente claro, meu lorde — respondi, com a voz firme a despeito da tempestade no meu peito