Sob o céu de Blackwood
16 Cap. 15 : Casamento
Renesmee
O encerramento do período oficial de luto trouxe de volta a luz do sol às amplas janelas de arco ogival da Mansão Blackwood, mas a sombra dos nossos segredos permanecia intacta. No grande salão de recepções e na capela privativa da propriedade, arranjos imponentes de lírios brancos, gardênias e ramos de mirtilo adornavam os altares de carvalho, misturando seu perfume adocicado ao odor denso de incenso e cera de vela queimada.
No meu quarto, o silêncio era interrompido apenas pelo roçar contínuo dos tecidos. Ajeitei o pesado véu de renda de Bruges que caía pelas minhas costas em uma cascata delicada, observando minha imagem no espelho de toucador de moldura dourada. Ao meu lado, Claire ajustava com dedos ágeis os mínimos detalhes das dobras do meu vestido de cetim marfim, cujos botões de pérola ajustavam-se com precisão ao meu terno corpete. Eu trajava a opulência e a dignidade da Casa Blackwood, mas, sob a estrutura rígida de barretas de baleia, meu peito batia numa corrida desordenada.
— A senhorita está deslumbrante, Minha Lady — murmurou Claire com uma breve reverência, recuando um passo com os olhos brilhando de admiração. — A capela está completamente lotada. Os cocheiros não paravam de chegar desde o amanhecer.
— Obrigada, Claire — respondi com um sorriso contido, respirando fundo e fechando os olhos por um segundo para acalmar a tempestade interior.
Quando as pesadas portas de carvalho trabalhado da capela se abriram, o som grave e solene do órgão preencheu cada espaço. O recinto transbordava com a mais alta aristocracia do reino. Nas fileiras de bancos estofados em veludo bordô, alinhavam-se lordes em suas casacas escuras, condessas cobertas de diademas e joias reluzentes, e velhos aliados do meu falecido padrinho. Entre os rostos atentos, notei a presença elegante do Conde de Clearwater, de Lorde e Lady Cullen com suas expressões sóbrias e distintas, e de outros nobres influentes de Londres que vieram testemunhar a união que a própria Rainha abençoara.
Avancei pelo tapete aveludado com a cabeça erguida, os ombros alinhados e o olhar fixo no final do corredor. No altar, sob a luz colorida que atravessava os vitrais seculares, Jacob me aguardava.
Ele parecia uma figura esculpida em pedra. Trajava uma casaca de gala preta de corte impecável, com a fita escura da ordem ducal sobre o peito. A sua postura ereta e a largura impressionante de seus ombros exalavam a autoridade natural do seu novo título, mas, à medida que eu me aproximava, pude notar a rigidez em sua mandíbula e o brilho intenso e indecifrável em seus olhos escuros. Não havia ali nada do libertino boêmio das noites de Londres sobre o qual ele me alertara, mas sim a imponência de um protetor que assumia diante de Deus a responsabilidade da minha vida.
Quando alcancei os degraus do altar, Jacob deu um passo à frente. Ele estendeu a mão grande e firme, cujos dedos quentes envolveram a minha mão coberta pelo cetim fino. O toque dele foi uma âncora imediata contra o ar gélido e solene da pedra.
O bispo deu início à liturgia. A sua voz grave ressoava sob os arcos antigos, pronunciando os votos sagrados de fidelidade, proteção e honra. Cada palavra dita sobre o amor e a união conjugal parecia carregar um peso duplo para nós dois, uma aliança selada não por romance inocente, mas por sangue, segredos e uma promessa inquebrável de salvação. Ao trocar as promessas e sentir a pesada aliança de ouro, gravada com as armas da Casa Blackwood, deslizar lentamente até a base do meu anular, um arrepio profundo percorreu a minha espinha.
— Pelo poder investido em mim pela Santa Igreja e pela Coroa — pronunciou o bispo, erguendo as mãos sobre nossas cabeças —, eu vos declaro marido e mulher. O Duque e a Duquesa de Blackwood. Pode beijar a noiva.
Um silêncio absoluto baixou sobre a capela. O instante pareceu congelar no tempo.
Jacob voltou-se de frente para mim. Suas mãos subiram devagar até a borda do meu véu de renda. Ao erguê-lo sobre a minha cabeça, revelando meu rosto por inteiro à assembleia, vi um lampejo claro de hesitação cruzar suas feições. Seus dedos roçaram a linha do meu queixo e pararam ali por uma fração de segundo imperceptível para os convidados, mas avassaladora para mim.
Eu podia sentir a tensão latente em cada músculo do seu corpo. Ele estava prestes a cruzar a última barreira entre o rapaz que me vira crescer como alguém da família e o homem que agora tomava o controle do meu destino. Por um momento breve e sufocante, o olhar de Jacob oscilou, dividindo-se entre o respeito quase reverente pela minha fragilidade recente e a posse implacável do Duque que jurara me reivindicar perante o mundo. Ele prendeu a respiração, o peito largo subindo e descendo devagar, enquanto seus olhos desciam para os meus lábios.
A hesitação durou apenas o espaço de uma batida de coração, mas foi o suficiente para fazer meu pulso disparar
Então, Jacob inclinou-se devagar. O calor da sua pele e o aroma sutil de sabão de barbear e carvalho me envolveram antes que seus lábios tocassem os meus. Não foi um beijo apressado nem meramente formal; foi um toque firme, profundo e demorado, carregado de uma gravidade contida que fez meu peito arfar sob o corpete. A sua mão na minha cintura apertou o tecido do vestido com uma firmeza possessiva, sustentando-me como se avisasse a todos os presentes naquele salão que eu agora pertencia à sua guarda incondicional.
Quando ele finalmente se afastou, seus olhos demoraram-se sobre os meus por mais um segundo antes de um vislumbre quase imperceptível de triunfo cruzar seu rosto.
— Respire — ele sussurrou
Jacob ofereceu-me o braço, e eu deslizei meus dedos por sobre o tecido da sua casaca, apoiando-me nele com uma confiança renovada. Voltamo-nos para a nave da capela como marido e mulher. Ao som das palmas contidas e dos cumprimentos entusiasmados dos nobres de Londres, dei meus primeiros passos como a nova Duquesa de Blackwood.
•••
A música suave da orquestra de cordas preenchia o grande salão de bailes da Mansão Blackwood, onde a elite da aristocracia se dispersava em pequenos grupos sob a luz dourada dos grandes lustres de cristal. Taças de champanhe reluziam nas bandejas de prata dos criados e risadas contidas ecoavam entre as conversas sobre política, a temporada em Londres e a aliança recém-selada do novo Duque.
Com o braço firmemente enlaçado ao de Jacob, eu cruzava o recinto cumprimentando os convidados, sentindo o peso do olhar atento de meu marido a cada passo que dávamos juntos.
— A recepção está impecável, Vossa Graça — comentou o Conde de Clearwater ao nos cruzar, inclinando a cabeça em uma reverência polida antes de se afastar.
Antes que pudéssemos avançar em direção aos embaixadores, um pequeno grupo postado próximo às portas de vidro do jardim chamou a atenção. Jacob desacelerou os passos, conduzindo-me com elegância na direção deles.
— Renesmee — disse ele em um tom baixo, apenas para que eu ouvisse —, estes são os Cullen. Uma das famílias mais distintas e antigas a manter negócios e laços de consideração com meu falecido pai.
Aproximei-me, mantendo a postura ereta de Duquesa. Lorde Edward Cullen deu um passo à frente, ajustando a casaca escura. O olhar melancólico e profundo que eu notara durante a cerimônia na capela voltou a se fixar em mim, embora agora estivesse suavizado por um sorriso impecável de cortesia aristocrática.
— Duque de Blackwood — começou Lorde Edward, a voz grave e harmoniosa ressoando com uma nobreza natural ao cumprimentar Jacob com um aperto de mão firme. Em seguida, voltou-se para mim, fazendo uma reverência impecável. — E minha nova Duquesa. Permita-me apresentar minhas mais sinceras congratulações. É um privilégio testemunhar a continuidade da grandeza da Casa Blackwood.
— Agradeço a presença de sua família, Lorde Cullen — respondi com ternura e polidez, sentindo uma ponta de calor inexplicável no peito diante da sua proximidade. — Sei do apreço que meu falecido padrinho nutria por todos vocês.
— O apreço era mútuo, Minha Lady — interveio a senhora ao seu lado, dando um passo à frente com graciosidade fluida.
Sua esposa trajava um vestido de seda azul-noturno bordado com fios de prata que realçavam seus cabelos claros e feições refinadas. Ela sustentava um ar de elegância nata e acolhedora, embora houvesse em seus olhos um brilho perspicaz ao observar cada detalhe da minha figura.
— Esta é minha esposa, Lady Tânia — apresentou Edward, pousando a mão com afeição sobre as costas dela — e nosso filho, Anthony.
O jovem, que aparentava ter alguns anos a menos que Jacob, deu um passo à frente e curvou-se com a postura aristocrática herdada dos pais. Anthony possuía os traços marcantes da mãe e a sobriedade do pai, mantendo o olhar respeitoso fixo em nós.
— É uma honra conhecê-los, Vossa Graça — declarou Anthony, a voz jovem porém firme. — A propriedade de Blackwood nunca pareceu tão radiante quanto no dia de hoje.
— O jovem Cullen demonstra a boa educação de Londres — elogiou Jacob, mantendo a mão espalmada nas minhas costas em um gesto possessivo e protetor que não passou despercebido por ninguém ali.
Ao lado deles, os outros membros da família Cullen acompanhavam a conversa. O patriarca, Lorde Carlisle Cullen, acompanhado de Lady Esme, aproximou-se para reiterar as condolências pela perda do velho Duque William e desejar prosperidade ao nosso matrimônio. Jasper e Emmet, primos de Edward de postura altiva e militar, juntamente com suas esposas Rosalie e Alice, completavam o círculo de uma das famílias mais influentes do reino.
A despeito da polidez e do cumprimento impecável de todos os presentes, havia algo na forma como Lorde Edward e Lady Tânia me olhavam — um cuidado quase imperceptível, uma pausa sutil nas palavras — que fez meu pulso acelerar sob as luvas de cetim.
— Esperamos ter a honra de recebê-los em nossa residência de cidade durante a próxima temporada na capital — disse Lady Tânia, oferecendo-me um sorriso caloroso. — Tenho certeza de que a nova Duquesa será a joia mais cobiçada dos salões de Londres.
— Minha esposa terá tudo o que Londres puder oferecer a seu tempo, Lady Cullen — respondeu Jacob com autoridade serena, inclinando ligeiramente a cabeça. — Mas, por ora, a prioridade é o descanso e a tranquilidade que a nossa propriedade de campo proporciona.
Apertei ligeiramente o braço de Jacob, agradecendo internamente pela sua intervenção rápida, enquanto nos despedíamos da família Cullen com reverências mútuas.
— Meus queridos... — disse Sarah, a voz suave, mas carregada de uma autoridade maternal irrevogável ao pousar uma das mãos sobre meu braço e a outra no ombro de Jacob. — A recepção já se estendeu por horas e a nobreza de Londres já teve o privilégio de saudar o novo casal. Está na hora.
Pisquei devagar, sentindo um arrepio gelado subir pela minha espinha. Ajeitei a postura, tentando manter o semblante calmo de Duquesa, mas o pavor velado de reviver qualquer tipo de expectativa conjugal fez meu peito apertar sob a barreta do corpete.
— Mãe... os convidados ainda estão no salão — comentou Jacob, a voz caindo para um tom grave e controlado. Pude sentir a rigidez imediata nos músculos do seu braço, onde minha mão permanecia apoiada.
— Os lordes e condes saberão se divertir sem a presença dos noivos, meu filho — interrompeu Sarah com um risinho contido, o olhar brilhando de cumplicidade ao encarar Jacob. — Não há nada mais natural nem mais esperado pela sociedade do que a retirada do Duque e de sua noiva para a noite de núpcias. A tradição exige a sua presença no andar de cima.
Ela deu meio passo na minha direção, entrelaçando seus dedos com os meus e me olhando com um carinho transbordante, totalmente alheia à tempestade que suas palavras provocavam em mim.
— Venha, Renesmee, querida — disse ela com um tom protetor. — Eu mesma irei ao seu aposento para ajudá-la a se despir do peso deste vestido e prepará-la para o seu marido. Claire já deve ter organizado as vestes.
A palavra prepará-la ecoou no ar como uma sentença. Senti meus pés congelarem no chão de taco polido.
Antes que a hesitação no meu rosto se tornasse evidente para Sarah, Jacob deu meio passo à frente, cobrindo minha mão sobre seu braço com a sua palma grande e aquecida. Ele segurou meus dedos com uma firmeza reconfortante e inclinou o corpo na minha direção.
Sua cabeça baixou devagar até que seus lábios roçassem a curva da minha orelha, escondidos pela sombra do meu véu de renda. A sua respiração quente contra a minha pele fez meu pulso desacelerar por um instante.
— Respire, Renesmee... — sussurrou ele, em um tom tão baixo e rasgado que apenas eu fui capaz de ouvir. — Lembre-se do nosso acordo... você está em segurança comigo. Ninguém vai encostar um só dedo em você . Eu estarei lá em cima em breve.
O calor de suas palavras e a certeza absoluta em sua voz agiram como um bálsamo instantâneo sobre a minha ansiedade. Jacob ergueu a cabeça devagar, sustentando meu olhar por um segundo com uma intensidade séria e protetora que dizia tudo o que precisava ser dito.
Soltei o ar devagar, sentindo o nó na minha garganta se desfazer. Olhei para Sarah e ofereci um sorriso sereno, devidamente recomposta para desempenhar o meu papel.
— Vamos minha sogra — respondi com suavidade
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