Sob o céu de Blackwood

14 Cap. 13 : Club de cavalheiros



Jacob


O grande salão de audiências do Palácio de St. James transbordava o luxo sufocante da corte vitoriana. O murmúrio contido dos nobres e ministros cessou quase por completo quando o mestre de cerimônias anunciou meu título com a solenidade devida aos altos pares do reino, a voz ecoando entre os lustres de cristal e as colunas de mármore.

Caminhei com passos firmes e ritmados sobre o carpete aveludado, trajando a casaca de luto impecável e o cetim escuro que cobria meu peito. Sentados nos tronos sob o dossel de veludo escarlate, a Rainha Vitória e o Príncipe Albert aguardavam a minha aproximação. A postura severa e compenetrada da soberana suavizou-se ligeiramente à medida que me detive à distância regulamentar e curvei-me em uma reverência profunda, prestando as homenagens devidas à Coroa.

— Erga-se, Duque de Blackwood — declarou a Rainha, sua voz clara e pausada ressoando por todo o recinto. — É com extremo pesar que o recebemos em nossa corte em circunstâncias tão dolorosas para o reino.

— Vossa Majestade é generosa — respondi ao me aprumar, sustentando o olhar da monarca com a gravidade exata que o meu papel exigia. — Venho apresentar meus respeitos e reafirmar a lealdade da Casa Black ao trono.

O Príncipe Albert deu um passo à frente, ajustando a postura antes de se pronunciar, o tom impregnado de uma simpatia sóbria e aristocrática.

— A perda de seu pai, o Duque William, foi sentida profundamente por todos nós, Lorde Blackwood — disse o consorte real. — William era um homem de honra inabalável, um conselheiro valioso e um amigo dedicado da Coroa. Sua partida deixa uma lacuna difícil de preencher na Câmara dos Lordes e nos negócios da nação.

— Guardaremos a memória dos serviços prestados por Vosso pai com o mais alto apreço — completou a Rainha Vitória, inclinando ligeiramente a cabeça. — Sabemos que os deveres que recaem sobre vossos ombros a partir de hoje são pesados para um homem jovem, mas temos plena confiança de que honrará o nome e o legado dos Blackwood com a mesma nobreza de seu progenitor.

— Suas palavras honram a memória de meu pai e confortam minha família, Majestades — declarei, a voz soando firme e solene, cortante o bastante para calar os sussurros dos velhos duques e condes que observavam das laterais do salão. — Dedicarei minha vida e a autoridade do meu título a manter a Casa Black digna da confiança que a Coroa sempre depositou em meu sangue.

Paul, que permanecia um passo atrás de mim como meu acompanhante de honra, deu um passo à frente no momento exato em que a Rainha parecia dar por encerrada a audiência. Sua posição privilegiada como oficial da guarda e amigo pessoal do Príncipe Albert garantia-lhe uma audácia que nenhum outro nobre ali ousaria exercer.

— Se me permite a palavra, Majestades — interveio Paul, com uma reverência impecável, a voz ressoando com a naturalidade de quem transitava com frequência pelos aposentos privados da realeza. — Como amigo leal do falecido Duque e a serviço de Vossa Alteza Real, tomei a liberdade de acompanhar o novo Duque de Blackwood para interceder por uma questão de extrema delicadeza pessoal. Jacob carrega uma súplica que requer a graça e a autoridade direta da Coroa.

O Príncipe Albert esboçou um olhar curioso e benevolente para Paul, enquanto a Rainha Vitória inclinou a cabeça, demonstrando interesse.

— Falai, Lorde Lahote — consentiu a Rainha. — Se está ao nosso alcance confortar a Casa Blackwood neste momento de transição, ouviremos o pedido do Duque.

Avancei um passo, assumindo o controle da situação conforme havíamos arquitetado minuciosamente durante a viagem a Londres. A mentira que eu estava prestes a selar diante dos soberanos do reino era a única arma capaz de aniquilar as pretensões de Arthur Cavendish sem levantar suspeitas sobre o passado recente.

— Majestades — comecei, o tom grave e carregado de uma solenidade contrita que prendeu a atenção de todo o salão. — Venho pedir a anulação do compromisso formal que existia entre Lady Renesmee e Lorde Arthur Cavendish, bem como a benção de Vossas Majestades para que a jovem se uma a mim em matrimônio.

Um murmúrio contido percorreu a audiência dos nobres ao redor. A Rainha ergueu uma sobrancelha, surpresa com a ousadia da petição.

— Uma anulação de noivado é matéria séria, Duque — pontuou a Rainha Vitória, com o olhar perspicaz cravado em mim. — Lorde Cavendish é de uma casa respeitável. Qual a razão para desfazer tal promessa e tomar para si a afilhada de seu falecido pai?

— Não era o meu desejo que as coisas tomassem este rumo, Majestade — declarei, baixando ligeiramente o olhar antes de encará-la com uma firmeza apaixonada e irrefutável. — Lutei contra meus próprios sentimentos por respeito à memória do meu pai e ao compromisso previamente firmado. Contudo... Lady Renesmee e eu descobrimos uma afeição profunda e incontrolável um pelo outro. Somos apaixonados, Majestade. Manter o arranjo com o Lorde Cavendish seria condenar uma jovem inocente e o próprio Duque de Blackwood a uma vida de falsidade e amargura.

Passei a mão pelo peito, simulando o peso do remorso de um homem honrado pego pelo destino.

— Reconheço o transtorno, mas imploro a clemência e a benção de Vossas Majestades para que possamos desfazer o acordo com Cavendish de forma honrosa e selar a união da Casa Blackwood sob a bênção da Igreja e da Coroa.

O Príncipe Albert trocou um olhar cúmplice e compreensivo com a soberana, tocando suavemente o braço da esposa. A Rainha Vitória, conhecida por valorizar a devoção sincera e a moralidade no matrimônio, suavizou completamente o semblante severo.

— O amor verdadeiro e a honra de um Duque não devem ser acorrentados a contratos frios, Lorde Blackwood — declarou a Rainha, sua voz ecoando com autoridade incontestável por todo o salão de St. James. — A Coroa concede a anulação do compromisso com Lorde Cavendish e abençoa a vossa união com Lady Renesmee. Que o vosso casamento traga a paz e a prosperidade que a Casa de Blackwood merece.

— Vossa Majestade tem a minha mais profunda e eterna gratidão — respondi, curvando-me novamente enquanto a sentença real selava, em definitivo e sem direito a apelação, a derrota de Arthur Cavendish.

•••

O odor encorpado de charutos caros, conhaque envelhecido e o perfume adocicado e denso das mulheres da noite preenchiam o ar do St. James Gentlemen’s Club. A penumbra do salão de carvalho e veludo escarlate era cortada apenas pela luz suave dos lustres de cristal e pelo crepitar da grande lareira de pedra.

Acomodei-me na grande poltrona de couro no centro do recinto, soltando uma nuvem densa de fumaça enquanto sentia o peso sufocante da conduta impecável de Blackwood finalmente ruir. Longe do olhar vigilante de minha mãe e da compostura que a mansão exigia, eu era um homem do meu tempo: prático, intenso e nada inclinado à castidade.

— A um homem de sorte, ou melhor... ao mais novo e poderoso libertino de Mayfair! — bradou Embry, erguendo seu copo com um sorriso largo e cínico.

Lorde Embry Call, meu amigo de longa data e parceiro de tantas noites boêmias, acomodou-se no sofá à minha frente, desabotoando o colete de seda com absoluta informalidade.

— Quem diria, Black... conseguir a benção pessoal da Rainha para desfazer um noivado e ainda sair do palácio com fama de romântico apaixonado — provocou Embry, soltando uma gargalhada abafada. — A nobreza de Londres mal sabe o tipo de homem que o novo Duque realmente é quando as portas da corte se fecham.

— O que importa é que o decreto foi assinado e Cavendish está arruinado, Embry — interveio Paul, encostado no aparador de mogno com uma taça de uísque na mão. Sendo meu cunhado e oficial da guarda, sua postura ali misturava a arrogância militar à satisfação de quem vira nosso plano ser executado com perfeição. — Deixe o Duque aproveitar a vitória como bem entender.

Ao fundo, perto da porta de serviço do salão, Quil permanecia de pé, mantendo a postura de valete, mas com um sorriso cúmplice no canto dos lábios. Como meu homem de confiança, ele sabia exatamente como eu gostava de gastar minhas noites na capital.

Não demorou para que a presença do cobiçado Duque atrai-se o cardume de cortesãs luxuosas que circulavam pelo clube. Uma Morena de lábios pintados de carmim e decote ousado, que eu já conhecia de muitos anos atrás em outro país, caminhou na minha direção sem qualquer timidez.

Ela acomodou-se no braço da minha poltrona sem pedir licença, deixando que o calor do seu corpo e o perfume adocicado de jasmim me envolvessem. Passou os dedos de unhas polidas pelo meu colarinho solto, roçando os lábios no meu pescoço antes de sussurrar perto da minha orelha.

— Vossa Graça parecia tão sério ao sair do palácio hoje cedo... — provocou ela, a voz veludosa e carregada de uma intenção explícita. — Mas ouvi dizer que o novo Duque de Blackwood sabe ser muito mais generoso quando encontra a companhia certa nas sombras do clube.

Pousei o copo de conhaque sobre a mesa e passei a mão pela cintura dela, puxando-a para mais perto sem hesitação alguma. Um sorriso sombrio e divertido despontou em meus lábios.

— Você ouviu corretamente, minha cara — respondi, a voz grave e provocante, deslizando os dedos pelas costas do seu vestido de seda enquanto me inclinava em sua direção. — A gravidade do palácio fica na porta da rua. Aqui dentro, os privilégios do título são outros.

Embry soltou uma risada ruidosa, trocando um olhar de cumplicidade com Paul enquanto erguia a taça em minha direção.

Ajeitei a mulher em meu colo, tomando um longo gole da bebida e deixando que a noite de libertinagem em Londres fizesse o seu trabalho, queimando as tensões dos últimos dias antes que eu precisasse vestir novamente a máscara de protetor honrado ao retornar para o interior.

O clima no salão mudou bruscamente quando a porta pesada de carvalho se abriu com um baque seco. A risada de Embry morreu na garganta, e o braço da mulher sobre os meus ombros congelou ao sentir a temperatura do ar despencar ao nosso redor.

Arthur Cavendish passou pelo portal. Estava visivelmente alterado pelo álcool, com a casaca desalinhada e a gravata de seda frouxa no pescoço. Seus olhos injetados procuraram pelo recinto até se cravarem diretamente em mim, no centro do salão, com a cortesã ainda acomodada em meu colo e o copo de conhaque pendendo entre meus dedos.

— Blackwood! — esbravejou Cavendish, dando passos vacilantes em minha direção e ignorando os olhares de desaprovação dos nobres ao redor. — Eu fui informado há menos de uma hora pelos emissários ... O decreto real chegou! Você desfez o meu compromisso com Renesmee!

Paul deu meio passo à frente, a mão instintivamente tocando o cabo da bengala, mas fiz um gesto sutil com dois dedos para que ele e Quil permanecessem onde estavam.

O sangue ferveu nas minhas veias. A visão daquele verme — o canalha responsável pelo sofrimento, pelo sangramento e pelo terror de Renesmee — estando a poucos metros de mim fazia cada fibra do meu ser clamar para rasgar a garganta dele ali mesmo, com as minhas próprias mãos. O impulso de matá-lo era uma fera faminta arrebentando as correntes no meu peito.

Contudo, eu era o Duque de Blackwood. Não estragaria a minha vitória, nem a minha noite, caindo em uma briga de bar. Mas ele precisava entender exatamente com quem estava lidando.

Ajeitei a mulher ao meu lado no sofá com absoluta calma, dei uma longa tragada no charuto e soltei a fumaça lentamente em direção ao teto antes de me levantar.

— Você fala demais para quem acabou de ser descartado pela própria Coroa, Arthur — comecei, a voz caindo para um tom perigosamente grave

— Ela era minha noiva! — cuspiu ele, tentando sustentar o olhar, embora os punhos trêmulos traíssem seu medo. — Você conspirou pelas minhas costas! Usou o seu título para me roubar o que era meu!

Avancei dois passos devagar, encurtando o espaço até ficar a centímetros do rosto dele. Abaixei a cabeça ligeiramente, inclinando-me para que apenas ele pudesse ouvir a promessa de morte que transbordava dos meus olhos.

— Se você pronunciar o nome de Renesmee mais uma vez... — murmurei, a voz rasgada e implacável como uma lâmina afiada —, eu juro pelo meu pai e pelo meu título que não haverá advogados, decreto real ou juiz que consiga te salvar. Eu mesmo vou caçar você. Vou arrancar a sua cabeça com as minhas próprias mãos e enterrar o que sobrar de você onde ninguém jamais encontrará.

Segurei o colarinho da casaca dele com uma só mão, apertando o tecido até sentir o corpo de Cavendish tremer por inteiro sob o meu domínio.

— Ela é minha. Se você tentar se aproximar dela, ou se sequer cruzar o meu caminho de novo, você morre, Cavendish. Eu te mato sem hesitar um segundo. Fui claro?

Arthur legalmente congelou, o pavor absorvendo instantaneamente toda a coragem vinda do álcool. Ele engoliu em seco, paralisado pela certeza absoluta de que eu cumpriria cada palavra.

Larguei o colarinho dele com um empurrão seco, fazendo-o cambalear para trás. Cavendish olhou ao redor, percebendo que Embry e Paul fechavam o cerco às suas costas e que nenhum homem ali ergueria a mão para defendê-lo. Sem ousar emitir mais nenhum som, ele deu meia-volta e tropeçou em seus próprios passos enquanto fugia apressadamente do clube.

Soltei o ar devagar, ajeitando os punhos do meu paletó. Voltei a me sentar na poltrona macia, puxando a cortesã de volta para o meu colo e pegando o copo de conhaque com perfeita naturalidade.

— Onde estávamos mesmo, minha cara? — perguntei com um sorriso de canto, deixando que a noite de prazer e bebida tragasse os restos de fúria antes de retornar para o interior