Sob o céu de Blackwood
11 Cap. 10 : Procurada
Jacob
O ar frio e úmido do interior cortava a névoa matinal que cobria os extensos campos da propriedade rural dos Black. O ranger da madeira dos estábulos e o bater agitado dos cascos sobre a pedra batida espelhavam a tempestade que se agitava em meu peito.
Antes de ir para a cocheira, encarei Rachel no vestíbulo de entrada. Ela mantinha os braços cruzados contra o peito, o queixo erguido e os lábios selados em uma obstinação inabalável. Eu a pressionara com toda a autoridade que o título de Duque me conferia, exigindo que confessasse o destino da garota. No entanto, minha irmã de criação não cedeu um único milímetro. Ela se recusava expressamente a revelar para onde ajudara Renesmee a escapar.
— Se algo acontecer a ela por essas estradas desertas, Rachel, a culpa será sua — avisei, a voz soturna e grave, antes de me virar para os homens reunidos no pátio.
Reuni quatro dos guardas mais leais do meu falecido pai, homens de confiança que conheciam as vilas vizinhas e as florestas da região tão bem quanto os limites do próprio Ducado. Ao meu lado, o Barão Paul já ajustava as rédeas de seu cavalo, pronto para se juntar à busca com uma expressão compenetrada e atenta.
— Aonde vamos primeiro, Duque? — perguntou Paul, ajeitando a cartola enquanto sua montaria relinchava impaciente sob o vento gelado do campo. — Estamos a milhas de distância de Londres. As estradas rurais são vastas e cercadas por matas fechadas. Se não tivermos um ponto de partida, estaremos procurando às cegas.
— Ela está a pé ou conseguiu uma montaria simples, Paul — respondi, montando de um só salto no meu tordilho escuro. — Uma jovem assustada, fugindo no meio da madrugada fria do interior, não iria para o meio do nada sem um rumo fixo. Ela buscaria aquilo que lhe parece familiar ou um ponto onde possa se esconder antes que o dia clareie de vez.
Puxei as rédeas, fazendo o cavalo girar no pátio enquanto as ideias que eu organizara na biblioteca começavam a se alinhar na minha mente.
— Ela sabe que não pode ir direto para a capital pelas estradas principais sem ser interceptada — continuei, encarando os guardas. — Mas há três lugares nos arredores da propriedade onde Renesmee pode ter buscado abrigo ou transporte: o antigo bosque de caça ao norte, onde há uma cabana abandonada que ela costumava visitar quando criança; o vilarejo vizinho de Blackwood, onde fica a estalagem de trocas de carruagens que rumam para o sul; ou a propriedade dos Cullen.
Ajustei as luvas de couro e encarei meu cunhado e os homens armados.
— Dividiremos o grupo — ordenei com a autoridade nata do novo Duque. — Paul, você e dois guardas vão verificar o vilarejo e a rota das carruagens de aluguel. Eu e o restante iremos em direção à propriedade dos Cullen. Se ela tentou se esconder na mata ou encontrar um refúgio antes de seguir viagem, é lá que a encontraremos.
Sem esperar por uma resposta, finquei as esporas na montaria e arranquei em disparada pela estrada de terra, o som dos cascos ecoando pelo campo enevoado enquanto a urgência de encontrá-la antes que o frio ou algo pior a alcançasse me guiava a cada segundo.
O galope do meu cavalo ressoava pesado contra o solo úmido da estrada de terra batida. A névoa do campo começava a se dissipar sob a luz pálida da manhã quando as imponentes grades de ferro fundido da propriedade dos Cullen surgiram entre os carvalhos seculares.
Desmontei de um salto em frente à entrada principal da mansão de pedra, deixando as rédeas com um dos guardas enquanto caminhava a passos largos em direção ao pórtico. Antes mesmo que eu pudesse bater à pesada porta de carvalho, ela se abriu.
Lorde Edward Cullen surgiu no limiar. Trajava uma casaca escura impecável, o semblante sereno e aristocrático revelando a compostura típica de um nobre de vasta linhagem, embora a surpresa sutil em seus olhos entregasse o viés incomum daquela visita tão cedo. Edward, assim como seu pai Carlisle antes dele, fora um dos amigos de meu falecido pai, um homem cuja inteligência e reservas sempre mantiveram certo distanciamento do burburinho da corte.
— Black ? — cumprimentou ele, a voz calma e aveludada ecoando pelo pórtico. — Uma visita inesperada em um horário tão matutino. Suponho que o peso dos negócios do Ducado não o esteja deixando dormir.
— Lorde Edward — fiz uma breve mesura, mantendo a voz firme para disfarçar a ansiedade que me corroía por dentro. — Peço desculpas pela interrupção em suas terras a esta hora, mas venho por um motivo de extrema urgência pessoal.
Edward cruzou as mãos atrás das costas, observando os guardas armados que aguardavam ao fundo da alameda.
— O que aconteceu?
— Renesmee fugiu da propriedade esta madrugada — declarei sem rodeios, recorrendo à versão cuidadosamente elaborada para proteger a honra da garota. — A afilhada de meu pai teve um desentendimento tolo com minha mãe Sarah e, agindo como a menina mimada que às vezes insiste em ser, escapou antes do amanhecer. Ela não conhece os perigos de uma jovem vagar sozinha pelas redondezas do interior.
Edward ergueu ligeiramente uma sobrancelha, um brilho de desaprovação cruzando seu olhar habitual de comedimento.
— Uma fuga no meio da noite por conta de uma discussão doméstica? — murmurou ele, soltando um suspiro pausado. — Lamentável, meu jovem Duque. É a imprevisibilidade da juventude. Moças nessa idade costumam agir pelo impulso das emoções e não pensam direito em seus atos. Se fosse uma filha minha cometendo tamanha leviandade, confesso que eu estaria furioso com tamanha falta de juízo e decoro.
— Precisamente por isso preciso encontrá-la antes que cometa uma imprudência maior — respondi, forçando a compostura. — Como suas terras fazem divisa com a propriedade dos Black, vim pedir sua permissão para que meus homens e eu verifiquemos suas cocheiras e a área do antigo bosque de caça que divide nossos domínios.
— Não precisa sequer pedir, Black — consentiu Edward prontamente, fazendo um gesto cortês com a mão. — Suas buscas têm minha total autorização. Mandarei instruir meus caseiros para que ajudem no que for necessário. Se a jovem estiver escondida em minhas propriedades, você a encontrará. E espero genuinamente que a traga de volta à segurança antes que a notícia de tal imprudência se espalhe pelas vilas vizinhas.
— Agradeço a sua presteza, Lorde Cullen — declarei, tocando a aba da cartola antes de me voltar para a minha montaria. — Com a sua licença.
•••
Adentrando as sombras densas do antigo bosque de caça que separava as terras dos Cullen e dos Black, ordenei que os guardas abrissem o cerco e mantivessem o silêncio. O ar úmido da manhã cheirava a terra molhada e folhas caídas, e apenas o estalar dos galhos sob os cascos do meu tordilho quebrava a quietude da mata.
Foi então que um vislumbre de tecido escuro entre a folhagem chamou minha atenção.
À distância, perto de um riacho seco, lá estava ela. Renesmee tentava acalmar uma égua castanha de selagem simples, com os cabelos acobreados desalinhados e o rosto pálido de exaustão.
— Renesmee! — chamei, a voz ecoando firme pela copa das árvores.
Ao ouvir meu brado e notar minha aproximação, o pânico tomou conta do rosto da garota. Sem pensar duas vezes, ela montou desajeitadamente na égua e cravou as calcanhares no animal, arrancando em uma fuga desesperada mata afora.
— Espere! Parada! — ordenei, fincando as esporas no meu tordilho.
— Me deixe em paz! — ela gritou de volta
Meu cavalo era consideravelmente mais forte, rápido e habituado a galopes intensos em terrenos acidentados. A cada segundo, a distância entre nós diminuía drasticamente. O som dos cascos retumbava no chão da floresta como um tambor de guerra, enquanto o vento frio cortava meu rosto. Eu já podia ver o pavor estampado nos olhos dela quando Renesmee olhava por sobre o ombro, percebendo que eu a alcançaria em questão de instantes.
Eu estava a poucos metros de emparelhar meu cavalo ao dela e agarrar as rédeas para conter a montaria quando o desastre aconteceu.
Uma serpente ou um animal pequeno cruzou subitamente a trilha, assustando a égua. O animal empinou de mancebo com um relincho agudo, desequilibrando Renesmee por completo. Sem tempo para se segurar ou recuperar o apoio nos estribos, a garota foi arremessada no ar e caiu pesadamente contra o solo duro e pedregoso do bosque.
O baque seco do corpo dela contra o chão cortou o ar como um golpe no meu próprio peito.
— Renesmee! — gritei, desmanchando o galope e saltando do cavalo antes mesmo que ele parasse totalmente.
Corri em disparada em direção ao corpo inerte caído entre as folhas secas, o coração disparado e o horror gelado de imaginar o pior congelando o meu sangue.
Ajoelhei-me na terra molhada em um fração de segundo, o impacto das minhas próprias pernas contra as pedras nem mesmo existindo diante do desespero de vê-la ali. O xale dela estava rasgado e coberto de lama, e a pele de seu rosto, antes tão pálida, exibia um arranhão feio no sobrolho.
— Nessie! Por Deus, fale comigo! — pedi, com as mãos trêmulas hesitando sobre seus ombros, temendo mover qualquer osso fraturado.
Ela soltou um arfar doloroso e tentou se apoiar nos cotovelos para se erguer, mas soltou um gemido agudo e caiu de volta sobre as folhas secas, agarrando a lateral do quadril. O impacto da queda tirara todo o seu fôlego, e as lágrimas já lavavam a sujeira de suas bochechas.
— Não... não consigo... — sussurrou ela, a voz fraca e entrecortada pela dor física e pelo terror puro.
Passei meu braço com cuidado por trás de suas costas e apoiei sua cabeça, tentando erguê-la do solo frio.
— Calma, devagar... Deixe-me ver onde dói — murmurei, tentando manter o tom de voz calmo para não assustá-la ainda mais, embora meu coração martelasse contra as minhas costelas.
Assim que percebeu que meus braços a sustentavam e que a fuga havia terminado ali, no chão do bosque dos Cullen, Renesmee agarrou o lapel do meu casaco de montaria com as poucas forças que lhe restavam. Ela se encolheu contra meu peito, balançando a cabeça em negação frenética, os olhos acobreados transbordando um suplício dilacerante.
— Por favor, Jacob... não... não me leve de volta! — implorou ela, os soluços sufocando suas palavras, a voz falhando a cada respiração desordenada. — Eu te imploro... por tudo o que é mais sagrado, não me force a voltar para aquela casa!
— Nessie, você caiu feio, precisa de um médico...
— Não importa a queda! — gritou ela em um sussurro desesperado, cravando os dedos no tecido do meu casaco como se sua vida dependesse disso. — Eu prefiro morrer aqui neste bosque a ter que me casar com aquele velho! Por favor, Jacob... você prometeu que me protegeria! Não me entregue a um homem que tem a idade do meu padrinho... Não me faça viver uma mentira amaldiçoada!
As lágrimas dela molhavam o meu peito, e a fragilidade do seu corpo trêmulo contra o meu fazia o ar faltar nos meus próprios pulmões.
— Se você tiver um pingo de consideração por mim... se sobrou algum afeto pela garota que você viu crescer... me deixe ir — suplicou ela, erguendo o rosto banhado em lágrimas para encarar o meu olhar. — Me deixe sumir, Jacob. Eu prefiro enfrentar a miséria, o frio, qualquer coisa... mas não me force a subir ao altar com um estranho à beira da morte!
Ajoelhado na terra úmida do bosque, senti o mundo parar quando meu olhar desceu do rosto assustado de Renesmee para as saias de seu vestido de montaria.
Entre as dobras do tecido claro, manchadas de lama e folhas secas, uma noda escura e viscosa de sangue começava a se espalhar com uma rapidez aterrorizante.
O horror gelou o meu sangue. O impacto violento da queda contra o solo pedregoso fizera o imprevisível acontecer: Renesmee estava sangrando. Ela estava perdendo o bebê.
— Não... — o murmúrio de pavor escapou dos lábios dela quando notou a minha fixação nas saias. Ao olhar para baixo e ver o sangue se alastrando, o rosto de Renesmee perdeu a pouca cor que lhe restava, tornando-se pálido como o de um cadáver. — Jacob... o que... o que está acontecendo comigo?!
— Fique calma, não se mexa! — ordenei, o pânico lutando para dominar minha voz enquanto a urgência médica atropelava qualquer outra prioridade.
Se ela continuasse ali daquele jeito, no chão frio e sem atendimento imediato, não seria apenas a criança que se perderia, Renesmee poderia esvair-se em sangue e morrer em meus braços antes mesmo do meio-dia. Ela precisava voltar para a mansão Blackwood no mesmo instante.
— Não me leve de volta... por favor, me deixe morrer aqui, mas não me force a casar com aquele velho! — implorou ela entre soluços desesperados, agarrando a gola do meu casaco com as poucas forças que lhe restavam, a dor física misturando-se ao pavor da promessa de casamento.
Segurei seu rosto com as duas mãos, obrigando seus olhos acobreados e aterrorizados a encontrarem os meus. Olhei no fundo de suas pupilas com uma intensidade crua, sem qualquer esquiva, deixando que a gravidade da situação e a verdade absoluta da minha alma a atingissem.
— Escute bem o que vou lhe dizer, Renesmee! — declarei, a voz soando grave, inflexível e carregada de um juramento irrevogável. — Você não vai se casar com o Conde de Oakhaven. Você não vai se casar com nenhum velho à beira da morte!
Ela prendeu a respiração, os lábios trêmulos entreabertos no meio do choro.
— Eu não vou entregar você a homem nenhum neste mundo — continuei, cravando o olhar no dela enquanto a decisão que meu pai previra em sua última carta finalmente se selava no meu peito. — Para proteger o seu nome, a sua vida e a honra desta família, eu mesmo me casarei com você.
Renesmee piscou devagar, o choque daquelas palavras fazendo-a parar de chorar por um segundo eterno.
— Você... o quê?... — murmurou ela, desacreditada.
— Eu serei o seu marido, Nessie — afirmei, a voz rasgando a quietude do bosque com uma autoridade solene. — Eu assumirei tudo perante a sociedade. Mas para que eu possa cumprir essa promessa, você precisa viver. Você precisa me deixar levá-la de volta agora!
Sem dar margem para qualquer objeção, passei meus braços com extremo cuidado por baixo de suas costas e joelhos, erguendo seu corpo franzino e trêmulo do chão. Renesmee soltou um gemido fraco de dor, escondendo o rosto contra o meu pescoço e agarrando-se a mim como se eu fosse sua única ancoragem naquele abismo.
— Eu prometo, Nessie — sussurrei contra seus cabelos acobreados, acelerando os passos em direção ao meu cavalo enquanto a mancha de sangue continuava a marcar o tecido. — Eu vou salvar você
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