Sob o céu de Blackwood
12 Cap. 11 : Minha menina
Sarah Black
O relógio de pêndulo no salão ecoava como um martelo batendo sobre o meu peito a cada segundo que se passava. A mansão Blackwood parecia vasta e fria demais, despida de qualquer calor desde que a notícia da fuga de Renesmee rasgara a nossa manhã.
Caminhei de um lado para o outro no aposento, com o lenço de renda apertado entre os meus dedos trêmulos. A culpa era um veneno lento que corria em minhas veias. Como eu pudera permitir que a situação chegasse a esse ponto? Como deixara meu desespero cego por aparências encurralar uma garota de dezessete anos ao ponto de fazê-la preferir o frio e as ameaças da noite a ficar sob a minha proteção?
— Mamãe, por favor, sente-se — pediu Rachel, ajeitando a xícara de chá sobre a pequena mesa de centro. — O senhor seu filho e Paul já estão no encalço dela. Jacob não retornará sem Renesmee.
Virei-me para minha filha, sentindo as lágrimas quentes finalmente transbordarem e lavarem meu rosto castigado pelo luto e pela vigília.
— E de que adianta Jacob trazê-la de volta, Rachel, se fui eu quem a expulsei desta casa com a minha dureza?! — minha voz saiu embargada, rasgando o silêncio do aposento. — Eu vi o pavor nos olhos daquela criança ontem à noite. Eu vi o desespero quando tentei fazê-la engolir aquele chá amargo, e depois quando aceitei a ideia de entregá-la a um homem velho... Eu falhei com ela!
— A senhora só estava tentando salvar a honra da família e a vida dela daquele monstro do Cavendish — argumentou Rachel, embora seu tom carregasse a mesma rigidez inflexível que exibira durante o café da manhã.
— Não fale de honra para mim, Rachel! — exclamei, aproximando-me da janela e encarando os campos nevoentos do interior, por onde meu filho cavalgava desesperado. — Quando Bella estava em seu leito de morte, com o corpo esgotado e a vida se esvaindo minuto a minuto, eu segurei a mão fria daquela mulher. Eu jurei... jurei pela minha própria alma e pelo sangue do meu marido que cuidaria daquela bebezinha como se tivesse saído do meu próprio ventre!
A memória daquela promessa queimava em minha mente com uma clareza dolorosa. Bella entregara a pequena Renesmee aos meus cuidados confiando que a mansão Blackwood seria um refúgio inexpugnável contra as maldades do mundo.
— William deu a vida para proteger essa menina — continuei, a voz caindo para um sussurro quebrado, sufocado pelos soluços. — E o que eu fiz assim que o meu marido baixou à sepultura? Acolhi a ideia de escondê-la, de sacrificá-la em um casamento de conveniência, de tratá-la como um problema a ser resolvido em vez da filha amada que ela sempre foi para mim... Eu quebrei a minha promessa a Bella, Rachel. Se algo acontecer a Renesmee naqueles bosques... se ela morrer de frio ou cair nas mãos de estranhos, eu jamais poderei olhar para os céus e encarar a mãe dela novamente.
Rachel desviou o olhar por um instante, a postura firme fraquejando ligeiramente diante da dor visceral que transbordava das minhas palavras.
— Ela vai voltar, minha mãe — murmuro Rachel, a voz perdendo um pouco da frieza anterior ao ver o meu estado. — O duque, meu irmão, a encontrará. Ele é o Duque agora, mas antes disso... ele sempre foi o protetor de Renesmee.
Juntei as mãos postas contra os lábios, fechando os olhos e fazendo uma prece silenciosa ao vento que uivava do lado de fora.
Traga a minha menina de volta, meu Deus, supliquei no fundo da minha alma. Traga a minha filha de volta para que eu possa pedir o seu perdão.
•••
O som distante de cascos cavalgando em ritmo frenético cortou o ar pesado da propriedade, fazendo meu coração dar um salto doloroso no peito. Corri para a janela da sala de estar a tempo de ver o alazão de Jacob cruzar os portões de ferro em disparada, levantando uma cortina de poeira e terra molhada.
— Eles voltaram! — gritei para Rachel, a voz falhando pela comoção enquanto eu já me lançava em direção ao vestíbulo. — Rachel, por Deus, eles chegaram!
Desci os degraus de pedra com a pressa que meus anos permitiam, ajeitando o xale sobre os ombros trêmulos. Rachel veio logo atrás de mim, a compostura ruindo ao ver o estado em que o cavalo do irmão parava diante da entrada principal.
Jacob desmontou de um só salto, trazendo um volume precioso envolto em seu próprio casaco de montaria escura. Quando me aproximei do pórtico, o ar faltou em meus pulmões.
Renesmee estava desacordada em seus braços, a pele de um pálido doentio contrastando com os cabelos acobreados emaranhados e manchados de lama. O rosto do meu filho estava rígido, tomado por uma mistura de fúria e puro desespero.
— Chame o médico! Agora! — bradou Jacob, a voz ecoando como um trovão pelas paredes de pedra da mansão enquanto ele passava por nós sem parar, carregando-a contra o peito. — Mandem alguém a cavalo até a vila e tragam o Dr. Geraint imediatamente!
— Meu Deus, Renesmee! — exclamei, levando as mãos à boca e acompanhando os passos apressados de Jacob pelos corredores. — O que aconteceu com a minha menina, Jacob?! O que houve com ela?
— Ela caiu da montaria no bosque dos Cullen — respondeu ele, a voz entrecortada pelo esforço e pela respiração desordenada. — A égua se assustou e a arremessou longe. Ela está ferida, mãe... o corpo está ardendo em febre e ela perdeu muito sangue no caminho!
— Sangue?! — Rachel arfou atrás de nós, a cor sumindo de seu rosto no mesmo instante.
Corri à frente de Jacob para escancarar a porta do quarto de Renesmee e puxar as cobertas da grande cama de dossel. Quando ele a deitou suavemente sobre o colchão macio, vi a cabeça dela pender sem forças para o lado, soltando um gemido fraco e doloroso que rasgou o meu coração ao meio.
Toquei a testa da menina e recuei com o calor escaldante que queimava sob sua pele. O pavor de perder a filha de Bella tomou conta de mim.
— Preparem água quente, panos limpos e ervas para a febre! — ordenei às pressas para as criadas que se aglomeravam assustadas no corredor. — Rápido, não fiquem aí paradas!
Voltei-me para Jacob, que permanecia de pé ao lado do leito, arfando, com as mãos manchadas e o olhar fixo e atormentado na garota que ele resgatara da morte.
O pavor tomou conta do quarto. As criadas dispersaram-se em disparada pelos corredores para cumprir minhas ordens, enquanto Rachel permanecia estática na porta, com as mãos cobrindo a boca e os olhos banhados em lágrimas ao ver o vestido de Renesmee manchado de lama e sangue escuro.
Aproximei-me da cabeceira e me ajoelhei ao lado do leito, tirando com cuidado as mechas acobreadas e úmidas que grudavam na testa escaldante de Renesmee. Ela soltou outro gemido entrecortado, o rosto franzido em uma expressão de dor atroz que parecia vir do mais fundo de sua alma.
— Jacob... o Dr. Geraint precisa chegar logo! — pedi, a voz tremendo descontroladamente enquanto limpava uma gota de suor da bochecha arranhada da minha menina. — Ele já sabe de tudo desde o início, é o nosso homem de confiança... mas esse sangramento... meu Deus, se ele não chegar a tempo, nós podemos perdê-la!
Jacob não se moveu do lado da cama. A figura ereta do meu filho parecia uma estátua de pedra, mas os punhos fechados ao lado do corpo tremiam pela contenção de uma fúria e de uma angústia avassaladoras. Ele olhou para baixo, encarando o rosto pálido de Renesmee com uma intensidade que nunca vi em seus olhos antes.
— Geraint é leal a esta família e honrará o silêncio de sempre, mãe — declarou Jacob, a voz caindo para um tom grave, cortante e absoluto que fez o aposento silenciar. — Ele tratará da febre, estancará o sangramento e fará o possível para salvar a vida da minha futura esposa.
Olhei para ele no mesmo instante, o choque paralisando minhas mãos sobre as cobertas. Rachel deu um passo à frente, desacreditada.
— Futura esposa?! — exclamei em um sussurro arfante. — Jacob, do que você está falando?!
— No bosque, quando a encontrei caída e sangrando, eu fiz uma promessa a ela. Prometi que nenhum velho à beira da morte encostará os olhos nela. E eu mesmo assumirei esta garota perante a igreja e a sociedade.
Um silêncio pesado e ensurdecedor caiu sobre o quarto.
Encarei meu filho, procurando qualquer traço de dúvida em seu semblante, mas encontrei apenas a determinação inflexível do novo Duque de Blackwood. Por um instante, entendi o peso das cartas que William o enviara antes de falecer.
— Você tem certeza do que está dizendo, meu filho? — perguntei, a voz falhando, a emoção me sufocando. — Isso mudará a sua vida e a dela para sempre.
— Eu nunca tive tanta certeza de nada — respondeu Jacob, inclinando-se ligeiramente para tocar com extrema delicadeza os dedos frios de Renesmee postos sobre o lençol. — Ela é minha responsabilidade. Eu a trouxe de volta e vou salvá-la, aconteça o que acontecer.
Nesse instante, a porta do aposento abriu-se apressadamente, e a primeira criada retornou trazendo uma bacia de água fumegante e panos limpos. Jacob deu meio passo para trás para me dar espaço, mas sua postura permaneceu vigilante ao lado do leito, pronto para enfrentar a tempestade que se avizinhava sobre a Casa Blackwood.
•••
Enquanto eu molhava o pano na bacia de porcelana e o torcia com cuidado para pousá-lo sobre a testa ardente de Renesmee, o ruído sutil da água e os sussurros apreensivos do Dr. Geraint ao estancar o sangramento pareciam preencher cada canto do aposento. O médico de nossa inteira confiança trabalhava com a costumeira discrição e perícia, mas meus olhos não conseguiam se afastar da figura de Jacob. Ele permanecia de pé ao lado da cabeceira, altivo como um carvalho secular, a mão grande e forte segurando com extrema delicadeza os dedos pálidos da garota desacordada. A fúria em seu olhar havia dado lugar a uma devoção silenciosa e protetora, a mesma determinação inabalável que vi em meu falecido marido nos momentos mais sombrios de nossas vidas.
Foi ali, naquela penumbra perfumada pelo vapor de ervas e o aroma metálico da tragédia, que compreendi o acerto divino da decisão do meu filho. A ideia de casar Jacob com sua irmã de criação, que a princípio poderia causar espanto aos olhos rígidos da sociedade , agora surgia diante de mim como a única salvação genuína e honrada para aquela casa. Não haveria nobre mais digno, homem mais forte ou coração mais justo no reino para acolher e proteger a garota que prometi guardar.
Mais do que isso, um alívio doloroso e profundo invadiu o meu peito ao constatar a crua realidade médica trazida por aquele acidente: o destino, em sua trágica misericórdia, interrompera a gestação. Renesmee não mais carregaria a marca viva de Arthur Cavendish, nem seria forçada a dar à luz o fruto de uma atrocidade. Ela estava livre daquela sombra . Ao acorda, ferida e empoeirada, ela não encontraria os braços de um nobre decadente prestes a morrer, mas sim o abraço do próprio homem que se erguera como seu escudo, pronto para dar-lhe um sobrenome intocável, o título de Duquesa de Blackwood e a chance de construir um futuro verdadeiramente puro e abençoado sob este teto
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