Sob o céu de Blackwood
10 Cap. 9 : Ela fugiu
Jacob
Havia algo na última missiva de meu pai que agora eu finalmente compreendia, mas que me recusara veementemente a aceitar quando rompi o lacre de cera no primeiro momento. Era uma linha de raciocínio que eu jamais desejara, algo que nunca passou pela minha cabeça enquanto cruzei oceanos nos últimos anos: a insinuação tácita de que a única forma de unir a proteção absoluta de Renesmee ao prestígio de nosso nome seria eu mesmo tomá-la como esposa.
A urgência da situação era inegável, mas eu me recusava a seguir pelo caminho mais fácil e, para mim, mais repulsivo. Essa urgência podia ser remediada se minhas cartas confidenciadas ao velho aliado da alta nobreza fossem respondidas como eu gostaria. Eu sempre protegeria a afilhada de meu pai com a própria vida, mas não estava disposto a subir ao altar com ela — uma jovem que vi crescer —, e tampouco com qualquer outra mulher de Londres. Minha liberdade e minha honra não seriam acorrentadas por um matrimônio de conveniência.
— Duque — a voz grave do Barão Paul ressoou pelo corredor deserto, interrompendo meus pensamentos.
Ele me cumprimentou ao me ver deixar a biblioteca do falecido meu pai, já no avançar da madrugada. Foi uma surpresa genuína encontrá-lo ali àquela hora, considerando que os aposentos dele e de minha irmã Rachel ficavam na asa oposta da mansão Blackwood.
— Vejo que também perdeu o sono, meu cunhado — completou ele, ajustando o roupão de veludo escuro e inclinando a cabeça em um gesto de cortesia que parecia calculado demais para a penumbra do corredor.
— Realmente não tenho dormido muito desde que recebi as cartas do meu pai — respondi, mantendo o tom baixo, o olhar franzido e o semblante pesado pela exaustão. — E hoje não seria diferente. Mal posso acreditar que a menina que vi crescer junto a Rachel passou por um ato tão cruel assim. Ela é apenas uma menina ... Como alguém pode olhar para uma menina e conceber uma atrocidade dessas?!
Paul deu meio passo à frente, descansando os braços atrás das costas. A luz fraca das arandelas destacava a serenidade perturbadora de sua expressão.
— Um ato cruel, sem dúvidas, Duque — disse ele, a voz calma, quase professoral. — Mas Renesmee não é mais uma menina há muito tempo. Ela se tornou uma jovem mulher belíssima, que já chama a atenção dos lordes de Londres há bastante tempo. É ingênuo pensar que o mundo exterior a veria com os mesmos olhos protetores e puramente fraternos que o senhor usa ao olhar para ela.
Ajeitei a postura, sentindo um arrepio incômodo na espinha ao ouvir a naturalidade com que Paul justificava o interesse dos homens da corte sobre uma garota recém-saída da infância.
— Ela continua sendo uma menina sob a tutela deste teto, meu cunhado — retruquei, a voz endurecendo com uma firmeza que não deixava margem para debates. — E seja qual for a tentação que a beleza dela desperte em libertinos como Cavendish, o meu dever é garantir que nenhum deles volte a cruzar o caminho dela sem pagar o preço devido.
Paul sustentou meu olhar por um segundo mais longo do que o necessário, um sorriso enigmático e quase imperceptível surgindo no canto de seus lábios antes de fazer uma mesura respeitosa.
— Claro, meu senhor — murmurou o Barão, dando um passo para trás no corredor. — O Ducado agora está em suas mãos. Apenas certifique-se de que, ao tentar salvá-la dos lobos de Mayfair, o senhor não termine entregando a garota a uma armadilha ainda pior.
Sem esperar por uma tréplica, meu cunhado deu meia-volta e desapareceu na escuridão dos corredores, deixando-me sozinho com o peso das cartas do meu pai.
•••
A grande mesa da sala de jantar de Blackwood estava posta com a prataria fina da família, mas o peso do luto recente ainda pairava sobre a sala como uma névoa invisível. O lugar de meu pai, na cabeceira oposta, permanecia desocupado, uma lembrança silenciosa do vazio que seu falecimento deixara. No entanto, apesar de toda a tensão que nos cercava e do pesadelo que enfrentávamos em relação a Renesmee, estar ali, cercado pelos meus, trazia um alívio genuíno ao meu peito. Depois de tantos anos longe, cruzar o mar e ver a família reunida trazia um aconchego de lar que eu quase havia esquecido.
O tilintar discreto das xícaras de porcelana e o aroma do café recém-passado eram acompanhados por conversas em tom baixo. À minha esquerda, o Barão Paul saboreava sua refeição com a costumeira compostura impecável, enquanto Sarah servia o chá com mãos que ainda demonstravam certo cansaço.
Corri os olhos pela mesa e notei a cadeira vazia ao lado de Rachel.
— Onde está Renesmee? — perguntei, pousando o talher sobre o prato e encarando minha mãe. — Ela costumava ser uma das primeiras a descer.
Sarah suspirou, o semblante carregado de uma preocupação velada.
— Ela deve ter tido uma noite difícil, meu filho. O dia de ontem exigiu demais daquela menina.
Sem prolongar a hesitação, Sarah fez um sinal discreto para uma das criadas que aguardava junto ao aparador de carvalho.
— Vá até os aposentos de Lady Renesmee, por favor — instruiu ela suavemente. — Veja se ela precisa de algo e avise que o café já está servido.
A jovem criada fez uma breve mesura e deixou o salão rápida e silenciosamente. Continuamos em um silêncio comedido, mastigando com a gravidade que o momento exigia. Porém, não se passaram mais do que cinco minutos até que o som de passos apressados e desordenados ecoasse pelo corredor de mármore.
A porta do salão de jantar abriu-se abruptamente. A criada que havia sido enviada retornou acompanhada pela dama de companhia pessoal de Renesmee. Ambas exibiam rostos completamente pálidos, com os olhos arregalados de puro pavor.
— Vossa Graça... Senhora Sarah... — gaguejou a dama de companhia, com as mãos trêmulas agarradas ao avental, a voz falhando pelo pânico. — A... a Lady Renesmee! Ela não está no quarto!
O ar na sala pareceu congelar instantaneamente.
— Como não está no quarto?! — Sarah levantou-se em um pulo, quase derrubando a xícara de porcelana sobre a mesa. — Você procurou no vestiário?
— Procuramos por tudo, senhora! — interveio a outra criada, arfando. — A cama está desfeita, o armário escancarado... e faltam algumas das roupas mais simples e o xale de viagem dela. A porta dos fundos que dá acesso ao jardim estava destrancada!
Sentindo o sangue gelar em minhas veias, coloquei-me de pé, a autoridade de Duque assumindo o controle enquanto a raiva e a apreensão disputavam espaço em meu peito.
— Ela fugiu... — murmurei, a voz grave como um trovão prestes a desabar.
Foi nesse instante que Rachel, que até então mantivera os olhos fixos na mesa em um silêncio perturbador, soltou um longo e audível suspiro de ironia. Ela ajeitou os punhos de renda de seu vestido, recostou-se na cadeira e encarou a todos nós com uma frieza cortante.
— E vocês realmente esperavam o quê? — disparou Rachel, a voz ecoando firme pelo salão estarrecido. — Que ela simplesmente aceitasse calmamente ser vendida e se casar com um velho à beira da morte?!
— Rachel! — repreendeu Sarah, horrorizada com a atitude da filha.
— É a verdade, mamãe! — rebateu Rachel, sustentando o olhar, sem demonstrar um pingo de remorso. — Renesmee tem apenas dezessete anos! Ontem à noite vocês decidiram o destino dela como se ela fosse um objeto descartável para salvar as aparências de Mayfair. Não me surpreende nem um pouco que ela tenha preferido se arriscar nas ruas de Londres a se entregar a um caixão ambulante!
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