Sob o céu de Blackwood
6 Cap. 5 : O retorno de Jacob
Por Jacob
O vapor úmido da chuva persistente de Surrey açoitava o meu rosto, mas eu sequer sentia o frio. Mantenho o galope do cavalo em um ritmo quase inconsequente pela estrada sinuosa de cascalho e lama, exigindo da animal o último fôlego de força. Foram longos anos longe. Anos cruzando portos distantes no Oriente, enfrentando mares revoltos no Caribe e me perdendo nos confins do mundo, tudo para tentar preencher o vazio de uma juventude sem rumo e escapar das amarras aristocráticas que meu nome exigia. Mas a carta do meu pai rompera a distância com a força de um golpe devastador.
O papel amassado no bolso do meu sobretudo de couro carregava a caligrafia firme, porém estranhamente trêmula, do Duque de Blackwood. William Black não era um homem de mandar chamar por capricho, tampouco de demonstrar fragilidade. “Retorne imediatamente a Blackwood, Jacob. O tempo urge, as sombras se aproximam e preciso do meu único filho ao meu lado antes que seja tarde demais.” Não havia explicações detalhadas, nem nomes, nem a cortesia habitual. Apenas o peso sufocante de uma ordem implícita que me fizera abandonar a primeira embarcação no porto de Marselha e embarcar no primeiro navio cargueiro de volta à Inglaterra.
Exatamente um mês se passara desde o dia em que recebi aquele envelope. Corri contra o tempo, trocando de montaria nas estalagens pelo caminho, ignorando o cansaço acumulado nas coxas e a névoa densa que cobria os campos do condado. Dentro do meu peito, um pressentimento amargo me dizia que, para William Black exigir minha presença com tamanha urgência, o mundo que eu deixara para trás estava ruindo.
Quando os altos portões de ferro batido de Blackwood finalmente surgiram entre a bruma e a copa dos carvalhos seculares, o silêncio da propriedade me atingiu como um aviso sinistro. Não havia o burburinho habitual dos camponeses, nem a movimentação dos estábulos, tampouco as carruagens de convidados que costumavam movimentar a entrada. A mansão erguia-se contra o céu cinzento de chumbo como um gigante de pedra adormecido sob o peso de uma tragédia.
Saltei do cavalo antes mesmo que ele parasse por completo, largando as rédeas molhadas nas mãos de um jovem lacaio que me encarou com o rosto pálido e os olhos arregalados, sem sequer ousar pronunciar a saudação de praxe. Subi os largos degraus de pedra a passos largos e empurrei com violência as pesadas portas duplas do hall de entrada.
O ambiente nobre, iluminado por poucos castiçais quase apagados, cheirava a cera derretida, incenso e desespero.
— Lorde Jacob... — a voz trêmula de Thomas, o velho mordomo da família, cortou a penumbra do saguão. Ele mantinha a cabeça baixa, as mãos trêmulas ajustando nervosamente as luvas de algodão branco, a figura curvada como se carregasse um fardo insuportável.
— Onde está o meu pai, Thomas? — exigi, a voz grave e áspera ecoando pelas paredes de mármore e pelos retratos de família. — Onde está William? Onde ele se meteu?
O silêncio que se seguiu foi a pior resposta possível. O velho criado não conseguiu sustentar o meu olhar; seus lábios tremeram e ele apenas ergueu uma mão vacilante, apontando para a grande escadaria de carvalho que levava ao corredor dos aposentos principais.
Subi os degraus de três em três, o pulso acelerado martelando contra as minhas têmporas. Ao alcançar o corredor do segundo andar, encontrei a cena que me congelou o sangue. Lady Sarah estava sentada em uma poltrona de canto, o corpo trêmulo encolhido e o rosto sepultado entre as mãos em um choro silencioso, amargo e convulsivo. Ao lado dela, mantendo-se de pé como sentinelas de uma ruína, estavam Paul e Rachel. O rosto de Paul trazia a rigidez da raiva contida, enquanto Rachel mantinha os olhos vermelhos e o olhar fixo no vazio.
— O que está acontecendo aqui? — perguntei, a voz cortando o corredor como uma lâmina.
Paul deu dois passos à frente, parando diretamente na minha frente. Ele colocou a mão sobre o meu ombro com uma força dolorosa, e a sombra em seus olhos revelou tudo antes mesmo que as palavras saíssem de sua boca.
— Você chegou tarde demais, Black — disse Paul, a voz falhando por um segundo e tornando-se extremamente grave. — O Duque... o seu pai faleceu há menos de uma hora. O coração dele não suportou.
As palavras chocaram-se contra mim como uma onda fria. Pisquei, estático, tentando processar o absurdo irreal daquela frase. Eu havia cruzado oceanos, cavalgado sem descanso durante dias e noites para atender ao chamado de William Black, apenas para encontrar o seu leito de morte.
— O coração? — retruquei, a voz subindo de tom, carregada de uma incredulidade furiosa. — Meu pai era um homem forte como um touro! Nunca teve um dia de doença na vida! O que diabos aconteceu nesta casa para matar o Duque de Blackwood em questão de horas?!
Paul olhou para os lados, garantindo que nenhum criado estivesse por perto, e puxou-me alguns passos em direção à janela do corredor. Rachel cobriu a boca com o lenço, soltando um soluço abafado.
— Uma tragédia abominável caiu sobre esta família enquanto você estava fora, Jacob — revelou Paul, os dentes cravados no lábio inferior e as veias do pescoço saltadas de indignação. — Renesmee... a afilhada de William... regressou de Londres e foi trazida para cá em segredo há três dias. Ela estava em choque, incapaz de falar, destruída por dentro.
O nome de Renesmee trouxe-me a lembrança turva da garotinha de olhos doces e cabelos acobreados que eu vira crescer antes de minha partida, a menina que meu pai acolhera e amara com a mesma devoção dedicada a um filho de sangue.
— O que fizeram com a garota? — perguntei, sentindo meu estômago dar um nó violento.
— Um verme da aristocracia... a coagiu e a violentou nos jardins de uma recepção em Mayfair — disse Paul, a voz tremendo de puro ódio. — Ele a usou, tirou sua honra e a manipula desde então, fazendo-a acreditar que aquela brutalidade era algo normal da corte. Mas o pior não foi apenas o ato imundo, Jacob. Esta manhã, o médico da família examinou Renesmee na tentativa de entender o seu estado... e confirmou o que temíamos. Ela está grávida.
O ar sumiu dos meus pulmões. Senti a mandíbula travar.
— Grávida... — repeti, a palavra amarga queimando na minha língua.
— Quando o médico deu o diagnóstico no escritório, William desmoronou — continuou Paul, apontando para a porta entreaberta do quarto ao fundo. — Saber que a sua menina fora arruinada daquela forma, que a honra da casa fora pisoteada e que a garota carregava a semente daquele canalha sem qualquer honra... o golpe foi pesado demais. O choque e o desgosto dilaceraram o peito do seu pai. O coração dele simplesmente parou de bater enquanto ele chamava pelo seu nome.
Fiquei imóvel no meio do corredor. Olhei para a porta fechada onde o corpo sem vida do meu pai repousava sob os lençóis de linho e, em seguida, para a porta do quarto à frente, de onde era possível ouvir o choro contido e desolado da jovem que tivera sua vida despedaçada.
Lady Sarah deu um passo à frente. O rosto, banhado em lágrimas e marcado pelo traço fundo da dor, perdera qualquer resquício de cor, mas o olhar que ela cravou no meu trazia uma lucidez gélida, um fogo antigo e implacável que eu jamais vira na minha mãe.
Ela caminhou em minha direção sem vacilar, a saia de veludo escuro roçando o soalho de carvalho. Parou a poucos centímetros de mim, estendeu as mãos trêmulas e segurou a gola do meu sobretudo com uma força desesperada, obrigando-me a baixar os olhos para encará-la.
— William não o chamou de volta para chorar sobre o leito dele, Jacob — disse ela, a voz embargada, porém cortante como aço afiado. — Ele o chamou porque sabia que o seu sangue é o sangue dos Black. Ele sabia que apenas o seu filho teria a coragem de fazer o que o decoro e as leis covardes desta nobreza jamais farão
Um silêncio pesado caiu entre nós. Paul e Rachel mantiveram-se imóveis, escutando cada palavra com a gravidade de testemunhas de um juramento sagrado.
— O seu pai morreu de desgosto, com o coração partido ao ver a vida da nossa menina ser estraçalhada por um canalha que se esconde atrás de um título em Mayfair — continuou Sarah, as lágrimas voltando a deslizar pelas rugas de sua face, mas sem que a sua postura fraquejasse um milímetro. — Aquele desgraçado tirou a inocência de Renesmee, manchou o nome desta casa e empurrou o seu pai para a sepultura. William pode não estar mais aqui para ver a justiça ser feita, mas a alma dele não descansará enquanto aquela atrocidade ficar impune.
Ela apertou a gola do meu casaco com ainda mais firmeza, aproximando o rosto do meu.
— É o seu dever, Jacob. Como novo Duque de Blackwood, como filho de William e como o homem que esta família precisa agora. É o seu dever lavar a honra da nossa casa e proteger a afilhada do seu pai. Aquele verme precisa pagar por cada lágrima que Renesmee derramou e por cada segundo de vida que tirou do seu pai.
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