Sob o céu de Blackwood
7 Cap. 6 : Sangue e Honra
Jacob
A chuva não dera trégua desde a alvorada. Uma névoa espessa e cortante pairava sobre o cemitério privado da família Black, onde gerações de duques e lordes repousavam sob os carvalhos seculares e os jazigos de pedra musgosa.
A cerimônia fora mantida rigorosamente restrita. Por ordem minha, nenhum dos falsos aristocratas de Mayfair que costumavam bajular meu pai em vida teve permissão de atravessar os portões da propriedade. O velório e o sepultamento pertenciam apenas àqueles que sangravam pela mesma dor.
O caixão de carvalho escuro com alças de bronze afundava devagar na terra molhada. Eu permanecia de pé à beira da sepultura, trajando o casaco preto de luto pesado que me parecia uma armadura de chumbo. A água escorria pela aba do meu chapéu e encharcava os meus ombros, mas eu recusei o guarda-chuva que o lacaio tentara me estender. Eu precisava sentir aquele frio; precisava que ele cimentasse em minhas veias a promessa que fizera no corredor.
Ao meu lado, Lady Sarah e Rachel trajavam véus escuros e espessos que lhes cobriam os rostos. Os soluços de Rachel eram abafados pelo rugido do vento entre as árvores, enquanto Paul mantinha a mão apoiada sobre o cabo de sua bengala, o olhar fixo na terra que cobria o corpo de William Black.
Renesmee não estava lá. Ela permanecia na mansão, debilitada demais e sob os cuidados médicos para enfrentar a tempestade, uma ausência que tornava a presença da tragédia ainda mais palpável.
Quando o último punhado de terra foi lançado sobre o caixão e o capelão encerrou as últimas orações em latim, a pequena comitiva começou a se recolher em direção às carruagens. Paul aproximou-se, tocando de leve o meu braço.
— O dever chama, Jacob — disse Paul em tom baixo, a voz áspera pela chuva. — Como novo Duque, a corte em Londres exigirá a sua presença para a ratificação do título no Parlamento. E os Cavendish... eles já começam a fazer perguntas sobre o recolhimento de Renesmee.
Olhei para a lápide recém-esculpida, onde o nome de William Black brilhava sob a chuva.
— Deixe que perguntem, Paul — respondi, sem desviar os olhos do túmulo, a voz grave e perfeitamente calma. — O tempo das perguntas de Mayfair está prestes a acabar.
Esperei até que todos se afastassem e ficassem apenas o vento e o cheiro de terra molhada. Dobrei um dos joelhos sobre a grama encharcada, tocando a pedra fria do monumento.
— O senhor me chamou para proteger o seu legado, pai — murmurei para a terra, sentindo uma chama gélida e implacável queimar no meu peito. — Descanse em paz. Eu assumo as rédeas desta casa a partir de hoje. Renesmee estará segura... e Arthur Cavendish aprenderá que a justiça dos Black não se debate nos salões da corte.
Levantei-me, ajeitei o sobretudo e caminhei a passos firmes de volta à mansão, pronto para encarar o futuro que me aguardava nas sombras daquela casa.
•••
O silêncio do segundo andar da mansão era denso, quase palpável, interrompido apenas pelo som distante da chuva que ainda açoitava as janelas de carvalho. Depois de deixar o cemitério da família, tirei o sobretudo encharcado e segui Sarah pelos corredores penumbrosos. Ela caminhava com passos firmes, embora o semblante carregasse todo o peso do luto e da tragédia que destruíra nossa casa.
Paramos diante da porta do quarto de Renesmee. Sarah girou a maçaneta com delicadeza e empurrou a madeira pesada.
O quarto estava na meia-luz, iluminado apenas pela chama fraca de algumas velas sobre a lareira. Encolhida no centro da imensa cama de dossel, envolvida em xales de lã clara e com o rosto pálido como mármore, estava a afilhada do meu pai. Ela parecia incrivelmente pequena e frágil, os olhos acobreados cercados por sombras profundas de noites mal dormidas.
Ao nos ver entrar, Renesmee sobressaltou-se. Seus olhos pousaram em mim e o medo genuíno estampado em suas feições a fez encolher-se ainda mais contra os travesseiros.
— Senhor Jacob... — murmurou ela, a voz fraca e trêmula como o farfalhar de folhas secas.
Sarah aproximou-se da cama e sentou-se na borda, tomando as mãos frias de Renesmee entre as suas com um afeto maternal profundo. Fiquei de pé a alguns passos de distância, mantendo a figura ereta, mas suavizando o olhar para não a aterrorizar ainda mais.
— Minha querida — começou Sarah, a voz suave, porém pontuada por uma firmeza inabalável. — Você não precisa ter medo. Jacob é o novo Duque de Blackwood, o filho de William, e ele está aqui para protegê-la. Mas para que ele possa agir, você precisa dizer a verdade. Você precisa contar a ele exatamente o que Arthur Cavendish fez com você naquela estufa e como ele a manipulou durante todos estes meses.
Renesmee estremeceu visivelmente ao ouvir o nome de Cavendish. Lágrimas instantâneas transbordaram de seus olhos, e ela olhou para mim com o peito arfando de pavor.
— Não... por favor, mamãe! — suplicou Renesmee, a voz quebrada pelos soluços. — Se eu contar... se o ele souber de tudo... o coração dele vai parar como o do padrinho! O meu padrinho morreu por minha causa! O desgosto do que eu fiz o matou!
A dor daquela declaração me atingiu como um soco no estômago, mas mantive a postura gélida para não assustá-la.
— Eu não quero que ninguém mais morra! — continuou ela, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas, transbordando uma inocência tragicamente corrompida. — Arthur... Arthur disse que nós nos amamos, que o que aconteceu na estufa era normal entre pessoas que vão se casar! Ele me disse que eu sou dele agora! Eu tenho que me casar com ele, é o único jeito de consertar essa vergonha e salvar o nome da família!
Aquelas palavras, a pura e perversa manipulação enraizada na mente de uma garota inocente, fizeram meu sangue ferver nas veias. O desprezível Cavendish não apenas tirara sua honra e sua inocência; ele a envenenara com uma mentira torpe, fazendo-a carregar a culpa pelo próprio crime que sofrera e pelo ataque cardíaco do meu pai.
Dei um passo lento em direção à cama. Baixei-me ligeiramente até ficar na altura do olhar dela, forçando a minha voz a soar calma, embora a fúria dentro de mim quisesse demolir Mayfair inteira.
— Olhe para mim, Nessie — pedi, a voz grave e pausada.
Ela baixou as mãos devagar, encarando-me através do véu de lágrimas, o corpo inteiro tremendo.
— Você não matou o meu pai — declarei com absoluta certeza, cada palavra caindo com o peso de uma verdade indiscutível. — O que matou William Black não foi você. Foi a covardia e a brutalidade de um verme que abusou da sua confiança e da sua inocência no escuro de uma estufa.
Renesmee prendeu a respiração, piscando atônita.
— Arthur Cavendish mentiu para você, menina — continuei, encarando-a nos olhos. — O que ele fez não foi amor. Não foi normal, não foi honrado e não faz parte de casamento nenhum. Ele a usou, tirou a sua paz e a chantageou emocionalmente para que você guardasse segredo enquanto ele passeava impune pelos salões de Londres.
— Mas... mas o bebê... e o meu nome?... — gaguejou ela, a mente lutando contra a teia de mentiras que Cavendish tecera ao seu redor. — Se eu não me casar com ele... eu serei uma arruinada...
— Você não vai se casar com Arthur Cavendish — afirmei, com um tom de autoridade que não admitia réplica. — Eu prefiro ver esta casa queimar até as cinzas a entregar você nas mãos do homem que a destruiu. Você não deve nada a ele, e você nunca mais pisará no mesmo ambiente que aquele miserável sem a minha proteção.
Sarah apertou as mãos de Renesmee, olhando para mim com um assentimento solene.
— Escute o meu filho, Nessie — disse Sarah, o rosto banhado em lágrimas. — Conte-nos tudo. Cada detalhe, cada ameaça, cada sussurro com que ele a acorrentou nestes meses. Deixe que o Jacob carregue esse fardo por você agora.
Renesmee olhou de Sarah para mim. Percebi o exato momento em que a muralha de culpa e medo que a sufocara por semanas começou a ruir. Ela engoliu em seco, soltou um longo e doloroso suspiro e, com a voz embargada e pausada, começou a revelar a noite fatídica na estufa de Richmond e a teia de chantagens mentais que o herdeiro de Devonshire usara para mantê-la calada.
Enquanto escutava cada detalhe sórdido da violência e da manipulação, fechei as mãos em punhos ao lado do corpo até que os nós dos meus dedos ficassem brancos. A dor de Renesmee e a memória do leito de morte do meu pai fundiram-se em um único objetivo.
Antes que eu pudesse me levantar da cabeceira da cama para deixar o aposento, batidas discretas e hesitantes ecoaram na madeira pesada da porta. A folha abriu-se devagar e a jovem camareira de Renesmee entrou no quarto mantendo a cabeça rigidamente baixa. Nas mãos trêmulas, trazia uma bandeja de prata com uma única xícara de porcelana fumegante.
Um vapor denso subia do líquido, trazendo consigo um aroma forte, amargo e penetrante, impregnado do cheiro acre de ervas secas e raízes concentradas, algo profundamente distante das infusões sutis e florais de camomila ou lavanda que as damas de Blackwood costumavam tomar.
— O chá que a senhora encomendou com a senhora do vilarejo, Lady Sarah... — murmurou a criada, a voz quase inaudível, enquanto pousava a bandeja sobre a mesa de toucador. Fez uma reverência apressada e retirou-se sem erguer os olhos, fechando a porta com um clique seco.
Sarah levantou-se da borda do colchão no mesmo instante. Caminhou até o toucador e segurou a xícara com dedos que, embora trêmulos pelo luto, moviam-se com uma determinação fria e calculada que me causou um arrepio imediato.
Franzi a testa, o olhar fixo na fumaça escura que cortava a penumbra do quarto. Minha desconfiança, afiada por anos de instinto de sobrevivência longe da Inglaterra, acendeu-se como um alarme no peito.
— Que chá é esse, Sarah? — questionei, a voz grave cortando o silêncio do aposento com uma rigidez imediata. — Por que você mandou buscar uma infusão com uma mulher do vilarejo a estas horas?
Sarah parou a poucos passos da cama, segurando a porcelana aquecida contra o peito, sem encarar diretamente os meus olhos. O rosto dela continuava pálido como cera, mas seus lábios mantinham-se cerrados em uma linha dura, quase impiedosa.
— É pelo bem dela, Jacob — respondeu ela, a voz baixa, porem pontuada por uma firmeza sombria que não admitia contestação. — Renesmee precisa tomar até a última gota deste preparado. Será melhor assim. Para ela, para o nome da nossa casa e para o futuro.
Renesmee olhou da xícara fumegante para o rosto de Sarah, os olhos cor de chocolate arregalados por uma mistura de ingenuidade, pavor e impotência absoluta. Ela não entendia o peso daquele cheiro amargo, mas o meu estômago deu um nó violento. Eu vira ervas semelhantes nos mercados do Oriente e nas cabanas de prostitutas nos portos por onde passei; eu sabia exatamente o que aquele aroma denso significava.
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