Sob o céu de Blackwood

3 Cap. 2 : Dama de companhia


Renesmee


O tempo parecia ter desacelerado em um ritmo quase melancólico nas alamedas da Mansão Blackwood desde a partida de Rachel e Paul. A propriedade de campo, embora mantivesse toda a sua grandiosidade bucólica e a serenidade dos dias ensolarados de Surrey, guardava um silêncio pesado sem as gargalhadas da minha irmã de criação e o burburinho alegre dos preparativos para o matrimônio. As flores de laranjeira que adornavam o altar já haviam secado nas páginas dos meus livros de recordação, e as poucas notícias que recebíamos da viagem de lua de mel pelo continente chegavam apenas em cartas dobradas em papel fino, perfumadas e repletas de descrições sobre as paisagens da Itália e da França.

Tudo mudou na manhã em que uma correspondência com o selo de cera escura deu entrada no escritório do meu protetor. Rachel e Paul haviam finalmente desembarcado de volta à Inglaterra, instalando-se definitivamente na elegante e movimentada residência urbana do casal em Mayfair.

Poucas horas após a confirmação da chegada deles à capital, fui solicitada na biblioteca por Lorde William.

Aos meus dezasseis anos recém-completados, cruzei o corredor de carvalho com o coração a dar saltos tímidos contra o peito. A biblioteca sempre fora meu refúgio favorito em Blackwood, um ambiente solene que cheirava a couro trabalhado, papel antigo, chá de alfazema e o tabaco doce do cachimbo do Duque. Ao abrir a pesada porta entalhada, encontrei-o de pé junto à grande janela em arco, observando os jardins onde, anos atrás, eu corria sem qualquer espartilho ou preocupação com o decoro.

Ao notar minha presença, ele virou-se devagar, ostentando o olhar afetuoso e paternal de sempre, embora sua postura carregasse a gravidade típica dos momentos em que decisões importantes da nobreza eram tomadas.

— Aproxime-se e sente-se, minha querida — disse ele, indicando com um gesto sereno a poltrona de veludo azul diante de sua escrivaninha de mogno.

Acomodei-me com cuidado, ajeitando as saias do meu vestido de tarlatana clara e cruzando as mãos sobre o colo, esforçando-me para manter a postura ereta que Lady Sarah tanto me ensinara a cultivar desde menina.

— Acabo de receber a confirmação de que Rachel e seu marido já estão devidamente acomodados em Londres — começou o Duque, a voz pausada, profunda e calorosa. — E isso me leva ao assunto que venho ponderando há longos meses com sua mãe de criação, Renesmee. O tempo flui com uma rapidez implacável, e você já não é mais a menininha que colhia amoras e corria atrás dos cavalos pelos gramados de Surrey.

Senti as bochechas esquentarem levemente, mas mantive o olhar fixo no dele, ouvindo cada palavra com atenção respeitosa.

— Desde a sua apresentação e o baile em sua homenagem, a alta sociedade de Londres passou a prestar uma atenção fervorosa e quase obsessiva à sua existência — continuou Lorde William, balançando a cabeça com uma leve rigidez no tom. — Ao longo destes últimos meses, enquanto você lia e bordava no silêncio do campo, recebi diversas propostas formais de casamento vindo da capital. Jovens lordes, herdeiros de condados e famílias influentes que desejavam desesperadamente uma aliança com a nossa casa através de você.

Senti um nó súbito formar-se em minha garganta, o ar parecendo escapar por um instante.

— Rejeitei cada uma delas — declarou o Duque com firmeza absoluta, batendo levemente a mão aberta sobre a mesa. — Nenhum daqueles rapazes aristocratas possui a estatura, o caráter ou a integridade necessários para se alinhar à mulher graciosa em que você se tornou. Não entregarei minha afilhada a um título fútil ou a um casamento por mera conveniência social e interesse de salão.

Um suspiro silencioso e profundo de alívio escapou-me entre os lábios antes que ele prosseguisse.

— Contudo, meu dever é protegê-la sem privá-la do seu futuro. Você tem dezesseis anos e não pode permanecer eternamente oculta no isolamento das terras rurais. Agora que Rachel está estabelecida na capital, o momento é perfeito. Ficou decidido que você passará a próxima temporada social em Londres, instalada na casa deles. Você atuará como dama de companhia e protegida de Rachel, o que lhe dará o salvo-conduto e acesso aos melhores salões, às noites de ópera e aos bailes de Mayfair sob a tutela e o olhar atento da sua própria família.

Ele rodeou a escrivaninha com passos calmos, aproximando-se e pousando sua mão grande e quente sobre o meu ombro com infinita ternura.

— Quero que a corte a veja, Renesmee. Quero que você observe os homens, aprenda a decifrar as intenções da aristocracia e, quando o homem certo surgir, alguém verdadeiramente digno do seu coração, da sua pureza e da honra desta família , você possa fazer sua escolha com total liberdade.

Um misto avassalador de ansiedade e encantamento apoderou-se de mim. Londres representava o dinamismo fascinante da alta sociedade, o brilho dos grandes bailes de gala e a alegria indescritível de estar novamente ao lado de Rachel. No entanto, ao encarar os olhos sábios do Duque, compreendi que a inocência protegida da infância ficara definitivamente para trás.

Abaixei os olhos por um breve instante, tentando assimilar o turbilhão de emoções que apertava o meu peito, antes de erguer o rosto e encarar diretamente o Duque. Estendi minhas mãos e cobri a dele com carinho, sentindo o calor e a firmeza daquele homem que sempre fora meu porto seguro.

— O senhor é bom demais para mim, meu padrinho — disse com a voz suave, deixando transparecer toda a gratidão que transbordava em minha alma. — Sei que o mundo lá fora, em Mayfair, vive de conveniências e de alianças frias, mas o senhor sempre se preocupou primeiro com o meu coração e com o meu bem-estar.

Lorde William esboçou um sorriso terno, e o rigor aristocrático em sua expressão deu lugar à extrema doçura de um pai que contemplava a filha. Ele cobriu minhas mãos com a outra sua, apertando-as levemente.

— Eu só faço o que qualquer homem honrado faria por alguém que ama como filha, Nessie — respondeu ele, a voz impregnada de uma emoção contida. — Prometi a mim mesmo, e a sua mãe , que defenderia a sua felicidade a qualquer custo. Você não é apenas uma protegida sob o meu teto; você é um bem mais precioso.

Senti meus olhos umedecerem diante de palavras tão sinceras, e um sorriso involuntário surgiu em meus lábios.

— Prometo que honrarei o seu nome e os seus ensinamentos em cada salão por onde eu passar, padrinho — declarei, erguendo o queixo com uma mistura de modéstia e orgulho. — Não me deixarei deslumbrar pelas lisonjas fúteis da corte e nem aceitarei nada menos do que o homem digno que o senhor espera que eu encontre. Mas confesso... sentiria uma saudade imensa de Surrey, de Lady Sarah e, acima de tudo, das nossas manhãs nesta biblioteca.

Lorde William deu uma leve risada, um som caloroso que pareceu afastar qualquer sombra de gravidade da sala.

— E nós sentiremos a sua falta a cada segundo, minha querida. Mas a Mansão Blackwood estará sempre aqui, de portas abertas, esperando pelo seu retorno. Agora, vá contar a novidade à Sarah. Ela já deve estar organizando os baús com as rendas e seda para a sua partida, e tenho certeza de que exigirá a sua opinião sobre cada vestido.

Ao deixar a biblioteca, meus passos ecoaram suaves pelo tapete aveludado que cobria o corredor do andar superior da Mansão Blackwood. Ao me aproximar das pesadas portas de carvalho do meu quarto, já era possível ouvir o frêmito e a movimentação habitual que antecediam qualquer grande jornada da família.

Ao entrar, encontrei Lady Sarah de pé diante do grande armário de pau-santo aberto, supervisionando duas criadas que dobravam cuidadosamente saias de armação e túnicas de seda fina. Sobre a minha ampla cama de dossel, rendas de Bruxelas, xales de casimira e luvas de pelica encontravam-se dispostos em uma ordem impecável, prontos para serem acomodados nos baús de viagem revestidos de couro.

Ao notar minha presença, minha mãe de criação fez um sinal com a mão para que as criadas nos dessem um momento a sós. Assim que a porta se fechou, Sarah virou-se para mim, ajeitando com elegância a touca de renda branca sobre os cabelos castanhos.

— Pela expressão do seu rosto, minha querida, vejo que William já lhe comunicou o inevitável — disse ela, aproximando-se com aquele olhar carinhoso e perspicaz que parecia ler cada um dos meus pensamentos.

— Sim, mamãe — respondi, usando o modo afetuoso com que sempre a chamara na privacidade dos nossos aposentos, enquanto me aproximava e me sentava na borda da cama. — O Duque decidiu que devo partir para a residência de Mayfair assim que os preparativos estiverem concluídos. Ele deseja que eu sirva como dama de companhia de Rachel durante a temporada.

Sarah caminhou até mim e sentou-se ao meu lado, tomando minhas mãos entre as suas. O calor do seu toque trouxe-me uma sensação imediata de conforto.

— Rachel ficará radiante por tê-la a seu lado naquele imenso casarão em Londres — comentou Sarah, esboçando um sorriso sereno. — E você, Nessie? Como o seu coração está recebendo esta notícia?

Abaixei o olhar por um instante, passando os dedos pelas dobras do meu vestido de tarlatana.

— Sinto um misto de ansiedade e receio, mamãe — confessei com honestidade. — Sei que o padrinho recusou todas as propostas de casamento recebidas até agora por não achar nenhum daqueles lordes digno, e temo não saber como agir diante dos olhares e das cobranças da alta sociedade. Surrey e esta casa sempre foram todo o meu mundo.

Sarah ergueu meu queixo suavemente, obrigando-me a encará-la. Seus olhos transbordavam uma firmeza mãe e uma sabedoria que só os anos na corte poderiam conceder.

— O mundo lá fora pode ser ostensivo e exigente, Renesmee, mas você foi educada sob a honra e o afeto desta casa — declarou ela, com a voz embargada por uma emoção contida. — Não há lady em toda a Inglaterra que ostente maior graciosidade ou pureza de alma do que você. William e eu cuidamos para que você crescesse protegida, mas agora é o momento de dar os seus próprios passos.

Ela levantou-se e foi até a pequena bancada de toucador, pegando uma caixa de veludo escuro decorada com incrustações de madrepérola. Retornou e colocou-a sobre o meu colo.

— Abra — pediu suavemente.

Ao erguer a trava de prata, deparei-me com um delicado colar de pérolas perfeitamente alinhadas, ostentando no centro um pequeno pendente de safira cercado por brilhantes.

— Este colar pertenceu à minha família e me acompanhou na minha primeira temporada social — revelou Sarah, ajustando uma mecha do meu cabelo acobreado para trás da orelha. — Quero que o use no seu primeiro baile ao lado de Rachel. Que ele lhe sirva de lembrete de que, não importa a distância ou as exigências de Mayfair, você nunca estará sozinha. O nosso amor e a proteção dos Black acompanharão cada um dos seus passos.

Senti uma lágrima discreta deslizar pela minha bochecha enquanto abraçava Sarah com todo o carinho que nutria por ela, sabendo que, embora o futuro em Londres fosse incerto, o abrigo que recebera naquela casa permaneceria inabalável em meu peito.