Sob o céu de Blackwood
13 Cap. 12 : O último pedido
Jacob
O Dr. Geraint lavou as mãos na bacia de porcelana, secando-as lentamente com um pano limpo antes de se voltar para mim. O semblante do velho médico era grave, marcado pelo peso de décadas servindo à família Blackwood nos nossos momentos mais sombrios e íntimos.
— A febre começou a ceder com as ervas, Vossa Graça — disse o doutor, dirigindo-se a mim em um tom baixo e comedido. — A vida de Lady Renesmee já não corre perigo imediato, mas o impacto da queda foi severo. A gestação foi interrompida. O bebê se foi.
O silêncio que se seguiu no quarto era sufocante. Minha mãe soltou um suspiro trêmulo de alívio misturado à dor, cobrindo o rosto com as mãos, enquanto Rachel permanecia encolhida ao fundo, pálida como um fantasma.
Assenti devagar. Nenhuma surpresa ou hesitação cruzou o meu rosto; apenas a rigidez implacável que o título de Duque de Blackwood agora exigia de mim. Caminhei até o centro do aposento, onde a governanta, a dama de companhia de Renesmee e as duas criadas que ajudaram com a água e os panos aguardavam enfileiradas, de cabeças baixas e mãos trêmulas.
— O que aconteceu aqui hoje jamais sairá deste aposento — comecei. Minha voz não era alta, mas ressoou grave e cortante como uma lâmina de aço no ar frio do quarto.
Meus olhos varreram cada uma das servidoras, prendendo a respiração de todas elas.
— Para o mundo exterior, para os moradores da vila e para qualquer nobre que arrisque fazer perguntas, Lady Renesmee sofreu um acidente de montaria no bosque dos Cullen enquanto cavalgava pela manhã. Nada mais. Se um único sussurro sobre o que a lady viveu antes deste dia cruzar os portões desta propriedade... eu saberei exatamente de onde veio.
A governanta deu um passo à frente, engolindo em seco, e fez uma reverência profunda.
— A lealdade da casa é sua, Vossa Graça. Ninguém dirá uma única palavra.
— Garantam que assim seja — retruquei, dando um passo em direção a elas, deixando que o peso da minha figura impusesse a sombra do meu comando. — Porque se alguma de vocês abrir a boca, não me limitarei a demiti-las sem referências. Eu me encarregarei pessoalmente de garantir que quem trair a confiança da Casa Blackwood nunca mais encontre teto, trabalho ou abrigo em toda a Inglaterra. Fui claro?
— Sim, Vossa Graça! — responderam as criadas em coro, as vozes falhando de puro pavor antes de se curvarem e se retirarem em ordem apressada.
Esperei a porta se fechar completamente antes de soltar o ar. Voltei-me para o Dr. Geraint, estendendo-lhe a mão em um cumprimento firme e solene.
— Agradeço a sua discrição de sempre, doutor. A sua lealdade à minha família será recompensada como é devido.
— Apenas cuide para que a jovem descanse, Duque — aconselhou o médico, recolhendo sua maleta de couro. — A dor do corpo passará em alguns dias; a da alma exigirá muito mais tempo e paciência.
Assim que o médico deixou o aposento, virei-me para minha mãe e para Rachel, mantendo a postura ereta, assumindo de vez o comando de cada detalhe daquela casa e do nosso futuro.
— Lavem o rosto dela e organizem este quarto — ordenei, com o olhar fixo no semblante sereno de Renesmee, que finalmente dormia sem dor. — Assim que ela recobrar a consciência e estiver forte o suficiente para se colocar de pé, anunciaremos o rompimento oficial de qualquer acordo com Arthur e em breve anunciaremos o meu noivado com ela. Até lá, tudo permanecerá em sigilo.
•••
O estalo suave do tabaco queimando no meu cachimbo era o único som que cortava o silêncio denso da biblioteca. Eu encarava o fogo brando da lareira enquanto segurava um copo de conhaque na outra mão, sentindo o líquido dourado queimar no fundo da minha garganta. A casa finalmente havia se aquietado após o turbilhão da manhã, mas a minha mente continuava uma tempestade sem fim.
Eu digeria a força da decisão que acabara de tomar. O desejo do meu pai, expresso naquelas cartas mantidas em segredo, agora se cumpria pela minha própria escolha. Eu me tornaria o marido de Renesmee. Eu a tomaria para mim perante Deus e os homens, fechando as portas do passado com uma tranca de ferro.
— Vossa Graça? — a voz grave de Quil Ateara ecoou no limiar da porta.
Quil, meu valete de extrema confiança e homem que cresceu comigo na propriedade, deu um passo discreto para dentro do escritório. Ele trazia uma garrafa reserva sobre a bandeja de prata, mas seus olhos atentos captavam cada traço da minha exaustão.
— Não preciso de mais conhaque por agora, Quil — murmurei, soltando uma nuvem densa de fumaça azulada no ar. — Apenas garanta que os cavalheiros da cavalaria do distrito recebam a mensagem sobre o acidente de montaria. Quero essa versão consolidada antes do pôr do sol.
— Já ordenei que os mensageiros levassem a notícia à vila, Jacob... digo, Vossa Graça — corrigiu-se Quil rapidamente, mantendo o tom respeitoso de quem conhecia meu temperamento nos momentos de crise. — A versão sobre a queda do cavalo durante o passeio matutino já é a única que corre entre os servos e os estábulos.
Assenti devagar, levando a bebida aos lábios mais uma vez. Quil fez uma breve mesura e retirou-se em silêncio, fechando a pesada porta de carvalho atrás de si.
Fiquei sozinho por apenas alguns instantes antes que a porta se abrisse novamente. Não houve batida prévia. Minha mãe, Sarah, passou para o interior do recinto, vestindo o xale negro do luto que ainda nos cobria, mas com o olhar livre daquele pavor descontrolado de poucas horas atrás.
Ela caminhou lentamente em minha direção, o som de suas saias roçando no tapete persa até parar do outro lado da minha escrivaninha.
— Quil me disse que você estaria aqui — começou ela, a voz suave, mas impregnada de uma solenidade rara. — Você mal tocou no almoço, Jacob.
— O apetite é um luxo de que não disponho hoje, mãe — respondi, pousando o copo de cristal sobre a madeira nobre e tragando o cachimbo mais uma vez. — Como ela está?
— Dorme. O Doutor Geraint deu-lhe algo para aplacar as dores do corpo — Sarah suspirou, apoiando as mãos sobre a borda da mesa e encarando-me nos olhos. — Vim porque precisamos conversar sobre a sua decisão. Sobre o noivado.
Sentei-me mais ereto na poltrona de couro, sustentando o olhar da minha mãe com a rigidez que o momento exigia.
— Se veio tentar me fazer mudar de ideia, economize suas palavras. A minha decisão está tomada e a palavra do Duque não volta atrás.
— Não vim para isso, meu filho — interrompeu ela, e para a minha surpresa, um sorriso cansado e genuíno despontou em seus lábios. — Vim dizer que você tomou a única atitude justa que um homem com o sangue do seu pai poderia tomar. Pela primeira vez desde a morte de William, sinto que a Casa Blackwood está sob a proteção de um verdadeiro líder. Você fará de Renesmee uma boa duquesa, Jacob...
Inclinei-me ligeiramente para a frente na poltrona de couro, o cachimbo ainda fumegando entre meus dedos, e apoiei os cotovelos sobre a escrivaninha. O olhar de minha mãe permanecia cravado em mim, buscando compreender o que se passara no meu peito durante aquelas poucas horas no bosque dos Cullen.
— Você aceitou esse destino rápido demais, Jacob — pontuou Sarah, a voz baixinha, carregada de uma curiosidade maternal e cautelosa. — Ontem à noite você me falou sobre arranjar um nobre idoso e influente para cobrir a vergonha. O que mudou entre ontem e o momento em que você a trouxe nos braços? O que realmente o levou a fazer essa escolha?
Soltei uma baforada densa de fumaça, vendo-a se dissipar no ar frio da biblioteca antes de encarar minha mãe diretamente.
— O meu pai deixou cartas, mãe — revelei, a voz soando grave e comedida. — Cartas que li nesta própria escrivaninha. William já previa que este dia chegaria. Ele escreveu com todas as letras que a única forma absoluta de proteger o segredo e garantir o futuro de Renesmee seria unindo o meu nome ao dela. Era o desejo dele.
Sarah piscou devagar, o choque sutil suavizando suas feições ao absorver a revelação sobre as intenções de meu falecido pai.
— E você decidiu acatar a vontade do seu pai simplesmente por dever? — perguntou ela.
— Eu não queria isso, mãe — confessei com uma honestidade nua e crua, balançando a cabeça em uma negação amarga. — Nunca esteve nos meus planos me casar com a garota que vi crescer sob este teto. Não era o que eu desejava para a minha vida nem para a minha liberdade. Mas hoje cedo, quando a alcancei naquele bosque... quando a vi caída na terra, sangrando e despedaçada... eu vi o pavor puro nos olhos de Renesmee.
Um silêncio pesado caiu entre nós por alguns segundos enquanto a lembrança do choro desespero de Renesmee voltava a martelar na minha mente.
— Ela implorou para não ser entregue a um velho — continuei, encarando o copo de conhaque sobre a madeira. — Ela disse que preferia a miséria, o frio ou a morte a ser forçada a uma união daquelas. E eu conheço Renesmee o suficiente para saber do que ela é capaz. Se eu insistisse em arranjar um casamento de conveniência com um estranho, ela tentaria fugir de novo. Ela faria outra loucura, e da próxima vez eu não estaria lá a tempo para resgatá-la do fundo de um abismo.
Pousei o cachimbo no cinzeiro de bronze e ergui o olhar para Sarah, com a determinação inflexível do novo Duque estampada em cada traço do meu rosto
— Não vi outra solução. Eu tomei essa decisão pelo bem de todos nós, pela honra da Casa Black, mas, acima de tudo, pelo bem de Renesmee. Para que ela jamais volte a sentir medo dentro desta casa e para que ninguém neste reino ouse feri-la novamente. Eu serei o escudo dela, custe o que custar.
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