Era tarde, o rei caminhou de volta ao castelo, a tempo de ver seu exército ser liberado. Tinha rancor de mandar aqueles jovens para os braços da morte, porém, precisava defender a Bretanha a qualquer custo. Antes morto que escravo. Chegou a seus aposentos, banhou-se e mandou alimentarem mais a lareira. Serviu-se de um pouco de carne de porco feita naquela noite e bebeu cerveja. Lancelot dormia calmamente e Artur foi verificar sua temperatura e, constatando que a febre cedera, agasalhou o primo e deitou-se a seu lado para dormir.

Passaram-se dois dias quando o emissário real chegou em Pellinore e foi recebido por seu castelão, Bam.

O castelo de Lancelot era pequeno, porém completo, e, apesar de estar na costa, situava-se em um ponto de declive o que o tornava fácil de defender. As terras de Pellinore eram férteis e a colheita acontecia até no início do inverno.

Bam levou o mensageiro até o salão principal e lhe ofereceu um aposento onde poderia banhar-se e trocar-se como era de praxe.

Mais tarde, à mesa, o emissário começou a informar Bam:

– Caro Senhor Bam, creio que já deve saber das ameaças ao reino?

– Ouvi rumores.

– Pois muito bem, O Grande Rei ordena que Galahad, príncipe de Pellinore e príncipe regente da Bretanha, seja movido para Bretanha Menor, a fim de ser devidamente protegido por seu tio Bors.

– Sir Lancelot sabe dessa ordem?

– Certamente. Ele deseja que seu filho fique em maior proteção. Pellinore deverá ser defendida por você e seus homens. A Bretanha menor é uma ilha, porém fica no final do reino, o que a torna um dos lugares mais seguros da Grã-Bretanha.

– Entendi. Designarei dois dos meus trinta homens para levar o menino ao reino de Bors. Ele vem à luta?

– Todos os reis vassalos receberam permissão para defender seus castelos. Não há exército suficiente para virem. O rei informa que lutará apenas em companhia de seus cavaleiros, se perdermos ainda poderemos nos defender e os reis vassalos tentarão vencer aos poucos por táticas de guerrilha.

– Entendo. Devo ausentar-me, emissário, tenho que dar as ordens para proteção do castelo e remoção do príncipe.

– Certamente. Amanhã, quando raiar o dia, devo voltar rapidamente para Camelot.

O jovem Galahad brincava com seus cavalos de madeira. Era muito louro e tinha os olhos de um azul bastante brilhante. Em nada parecia com o pai, a não ser na coragem e na habilidade, se ninguém soubesse, poderiam até dizer que era filho do rei.

Galahad assustou-se com a chegada súbita de servos pedindo para ele ir aos aposentos de Bam.

O castelão deu ordens para Galahad ir à Bretanha Menor, o menino estava apreensivo. Mais uma guerra despontaria e ele ainda não vira o pai depois que a última acabara. Entendeu tudo, no entanto, já era bastante grande, iria de boa vontade à casa de seu tio.

Os servos aprontaram a bagagem rapidamente só com mantimentos para a viagem, roupas para alguns dias e o necessário para um garoto em uma viagem. Dois cavaleiros foram selecionados para escoltarem o príncipe.

– Levem o príncipe pelas trilhas de interior, cavalguem o mais rápido possível, levem o garoto na garupa se necessário. Não será necessário que retornem; vocês ficarão responsáveis pelo garoto na Bretanha Menor. Esperem até uma decisão definitiva da guerra ou uma ordem real para se moverem novamente.

– Claro meu senhor, iremos agora mesmo!

A saída do príncipe foi coincidente com a saída do emissário real e Galahad aproveitara para enviar uma mensagem a seu pai:

“Pai,

Sinto muito sua falta, guerras intermináveis nos separam e não pude rever-te. Rezo a Deus para que o senhor volte a salvo e mais uma vez possamos nos encontrar.

Galahad.”

*****

A comitiva do príncipe viajou pelas trilhas interiores segundo as ordens do castelão de Pellinore. Praticamente toda a neve cessara e todo gelo derretera.

Os cavalos moviam-se rápidos e leves. Galahad era um bom cavaleiro, talento herdado do pai. Mesmo assim, a viagem demoraria o suficiente para tornar-se perigosa.

Pessoas saíam às pressas da costa, sabiam que seriam o primeiro alvo. Suas casas seriam destruídas ou serviriam de abrigo para os nórdicos, sem dúvida, mas dos males, o menor.

Os cavaleiros acamparam no fim da noite no local mais seguro possível, pegariam a estrada logo que a manhã chegasse. Galahad, apesar de sentir-se tonto de fome e dolorido de tanto cavalgar, não reclamara durante todo o percurso. Tinha de ser forte, o reino também dependia dele, se perdessem a guerra poderiam ainda tentar desestabilizar os nórdicos de dentro dos castelos e o único elo que ligaria os reinos vassalos se o Grande Rei morresse era ele próprio.

Continuaram a viagem logo após comerem. Já tinham percorrido um terço do caminho e deveriam permanecer nas trilhas interiores até pelo menos dois terços da jornada. Depois, cavalgariam pela costa até chegar ao mar exterior, onde um barco da Bretanha Menor estaria esperando por eles.

Ao final de três dias, chegaram à Bretanha Menor. A ilha era enorme, apesar do nome, e Galahad impressionou-se com o castelo de seu tio, praticamente tão grande quanto Camelot.

Bors recebeu seu sobrinho com festa, ordenando às servas que preparassem o menino para a ceia.

Os cavaleiros que o trouxeram comunicaram ao rei que teriam de ficar por ser muito perigoso tentar retornar àquela altura, e poderiam servir ali mesmo como guardas. Bors mandou que os servos aprontassem um lugar para que os guardas pudessem se acomodar.

Galahad já havia se banhado e vestido com roupas adequadas para um príncipe. Suportara com coragem a viagem mais longa e perigosa da sua vida, estava seguro agora e sua única preocupação era seu pai.

Bors parecia um homem formidável; não muito alto, mas muito forte e pelo que sabia capaz de manipular o machado com igual destreza do povo das fadas.

Ao chegar à sala do trono, Galahad foi cumprimentar devidamente seu anfitrião e tio:

– Boa noite meu tio! Queria desde já agradecer a estadia nesses tempos de dificuldade, meu pai nem tem palavras para agradecer a vossa generosidade!

– Não há nada o que agradecer, meu pequeno, você é da família, e Pellinore não estava em condições de defender sua alteza. Além do mais, o meu irmão não mediu esforços para expulsar os romanos que sitiaram meu castelo tempos atrás, devo minha vida a ele. Mas deixemos de formalidades e vamos comer, Galahad.

– Claro! Depois dessa longa viagem é o que mais desejo tio!

Os dois seguiram entre risos até o salão em que a ceia estava sendo servida. Bors era casado com a rainha Vanora, uma saxã que fazia parte dos guerreiros que fizeram o tratado de paz com Camelot.

A prole do rei era extensa; tinha sete crianças sendo seis deles meninos e uma menina. Todos eram de pele muito clara, e os meninos possuíam cabelos negros vindos da linhagem de Bors. Já a garota possuía belos cabelos louros como os saxões.

Ali em meio a tanto riso e comida, com a simpatia de Vanora e todos aqueles primos, Galahad esquecera por um momento da terrível guerra que se aproximava.