Notas iniciais
Desculpem a demora... Mais um capítulo!

Morgana já estava a meio caminho de Stonehenge. Já se podia notar as flores de primavera desabrochando, sua beleza anunciando o início de mais uma guerra. Já não havia mais neve, nem ventos fortes, substituídos por brisas favoráveis à navegação.

Morgana sabia que os nórdicos já haviam zarpado de suas terras bárbaras em busca de sangue e despojos da Bretanha. Pode vê-los com sua Visão, já tão enfraquecida, que não passara de um vislumbre borrado.

Guínevere a acompanhava. Já não trazia o olhar do medo, mas o da Grande Rainha da Bretanha. Sim, ela era a melhor escolha, apesar de suas próprias crenças.

– Escute com atenção, rainha: deve abrir-se à Deusa a fim de que ela lhe guie na Visão. Encontrarei pelo caminho alguns cogumelos que ajudarão no transe.

– Seja lá o que estivermos fazendo, Morgana, será pela Bretanha e por Artur. Nunca mais quero me envolver com suas bruxarias!

– Você não sabe o que diz Guínevere, mas que seja pela Bretanha então. O treinamento de sacerdotisa leva cinco anos, as meninas que são levadas para Avalon crescem ouvindo sobre a Ilha Sagrada. Você é filha de um rei católico, certamente cresceu ouvindo que Avalon é sinônimo de artes demoníacas. Peço que apenas abra sua mente; os cogumelos ajudarão seu dom natural e a magia de Stonehenge vai favorecer você abrir o portal para o mundo das fadas.

– Mundo das fadas! Pensei que iríamos a Avalon!

– E vamos. Mas para você, nesse momento, seria impossível abrir o portal para a ilha. Além do mais, é necessário estar próximo à Avalon para fazer as brumas baixarem. O reino das fadas é muito mais distante e difícil de chegar do que Avalon, mas pelo menos pode ser acessado de qualquer lugar com magia. Você usará sua Visão para fazer contato com os seres místicos, eles é que irão nos levar para o reino das fadas.

– E o que faremos em tal lugar?

– Você completará seu treinamento.

– Impossível, jamais serei uma bruxa! Você mesma disse que o treinamento leva cinco anos!

– No reino das fadas não há tempo como se conta aqui. Séculos lá poderiam se passar sem que houvesse passado um segundo aqui, ou o contrário poderia acontecer. Tudo depende da vontade das fadas. Lá, você aprenderá sobre nossa antiga sabedoria, redirecionará sua mente, e entenderá a Deusa. Voltaremos regeneradas de magia e poderemos ir a Avalon impedir a guerra.

– Embora ache você cada vez mais desajuizada, o desespero me leva a ouvi-la, prima.

A chegada a Stonehenge era espetacular para os praticantes de magia. O poder emanado pelo templo era monumental, e quem não sabia senti-lo simplesmente via gigantescas pedras circulares.

Guínevere, mesmo sendo uma não iniciada, pôde sentir a força do círculo erguido pelas próprias fadas, e, ao que pareceu a Morgana, estava demasiado calma... Era um começo.

Morgana tomou posse dos cogumelos que permitiam que a Visão viesse mais facilmente, o poder do círculo e o armazenado na rainha fariam o resto. Dessa vez a Dama do Lago só podia esperar que alguma fada ouvisse seu chamado e viesse abrir-lhe os portões.

*****

Artur estava atormentado de preocupações; seu exército estava pronto, mas era muito reduzido, e seus cavaleiros veteranos eram apenas trinta, com Tristão, Gawain e Lancelot à sua frente.

Lancelot já estava bem melhor, até conseguia manejar armas, mas Artur não o permitia treinar por mais de uma hora a fim de se evitar esforços desnecessários. Seu duque não precisava de treinamentos, jamais houvera guerreiro igual. Até o próprio rei, se desarmado da Excalibur, era alvo fácil para sir Lancelot. O que ele precisava mesmo era de descanso.

Observá-lo treinar, o manejar de armas, o dorso nu, brilhando com o suor, que escorria também de seus cabelos tão negros como a lua nova num céu sem nuvens era a única coisa que fazia o rei parar de pensar nos reveses que estava enfrentando.

Morgana também o preocupava. Os nórdicos às portas, e sua irmã fora da proteção de qualquer fortaleza. Fizera uma loucura em deixá-la seguir viagem.

Lembrava-se agora do tempo em que ela tentara roubar-lhe a Excalibur mesmo que para isso tivesse que matá-lo. Não era culpa dela; como Senhora de Avalon jurara proteger à ilha sagrada e o próprio Artur perjurara sobre as insígnias mágicas.

Esse tempo já passara. Artur, como Grande Rei, retratara-se para com Avalon e retomara o direito de usar a espada sagrada. Agora, Morgana era novamente a sua irmã, doce e sábia, capaz de tudo para proteger-lhe, tal qual a Avalon.

Com a iminência do ataque, todos aqueles que não teriam condições de lutar deveriam ficar atrás dos muros de algum castelo da Bretanha, e isso já havia sido feito, mas Morgana, sua irmã, estava desprotegida.

O rei caminhava pelo salão do trono quando um mensageiro veio a sua procura:

– Meu Rei, os guardas da Senhora Morgana retornaram.

O rosto de Artur se iluminou; finalmente Morgana voltara. Tivera êxito em sua missão. O rosto do mensageiro estava pálido. Se Morgana tivesse voltado, não estaria ela mesma nesse salão, sem necessitar de ser anunciada?...

– Onde está minha irmã, está morta?! Ferida?!

– Não, senhor! Ela não retornou de modo algum com os guardas!

Artur estava perplexo, correu até onde estavam os homens que acompanharam Morgana. Mesmo afoito, sua imponência era visível de longe; em parte por causa de sua aparência originária da linhagem dos Pendragon, em parte devido à Excalibur presa em sua cintura.

– Senhor meu rei!

– Onde está a duquesa, guarda?

– A duquesa viajou por muito tempo em vários vilarejos até que resolveu ver a rainha. Pensávamos que era só uma conversa, ou que ela iria ficar por lá junto à rainha, fazendo-lhe companhia durante a guerra. Mas as duas saíram rumo a Stonehenge, e a duquesa nos disse que nossos serviços não eram mais necessários. Tentamos acompanhar, mas elas iam sempre rápido e acabamos nos perdendo na neblina!

– E o que Morgana queria com Guínevere?

– Não sei, meu senhor!

Artur ficou transtornado, agora as duas estavam descampadas! Por que Morgana fizera aquilo?... A Visão! Estava em busca de alguém com a Visão, mas não deve ter achado ninguém. Guínevere devia ter alguma já que conseguira chegar a Avalon sozinha, mesmo que por engano e mesmo sendo cristã, acreditando, portanto, que tratava-se de uma ilha demoníaca.

Morgana planejava usar Guínevere, o que era loucura, já que Stonehenge ficava mais ao norte e próximo de alguns reinos. Assim, tornava-se um alvo em potencial dos exércitos nórdicos.

O Grande Rei foi em busca do seu melhor amigo, precisava de um conselho, estava demasiado perturbado para tomar alguma decisão sozinho.

Notas finais
Leitores fantasma... Por favor... Uma comentáriinho não mata ninguém kkkkkk