Sob o Céu da Bretanha
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Morgana já estava a meio caminho de Stonehenge. Já se podia notar as flores de primavera desabrochando, sua beleza anunciando o início de mais uma guerra. Já não havia mais neve, nem ventos fortes, substituídos por brisas favoráveis à navegação.
Morgana sabia que os nórdicos já haviam zarpado de suas terras bárbaras em busca de sangue e despojos da Bretanha. Pode vê-los com sua Visão, já tão enfraquecida, que não passara de um vislumbre borrado.
Guínevere a acompanhava. Já não trazia o olhar do medo, mas o da Grande Rainha da Bretanha. Sim, ela era a melhor escolha, apesar de suas próprias crenças.
– Escute com atenção, rainha: deve abrir-se à Deusa a fim de que ela lhe guie na Visão. Encontrarei pelo caminho alguns cogumelos que ajudarão no transe.
– Seja lá o que estivermos fazendo, Morgana, será pela Bretanha e por Artur. Nunca mais quero me envolver com suas bruxarias!
– Você não sabe o que diz Guínevere, mas que seja pela Bretanha então. O treinamento de sacerdotisa leva cinco anos, as meninas que são levadas para Avalon crescem ouvindo sobre a Ilha Sagrada. Você é filha de um rei católico, certamente cresceu ouvindo que Avalon é sinônimo de artes demoníacas. Peço que apenas abra sua mente; os cogumelos ajudarão seu dom natural e a magia de Stonehenge vai favorecer você abrir o portal para o mundo das fadas.
– Mundo das fadas! Pensei que iríamos a Avalon!
– E vamos. Mas para você, nesse momento, seria impossível abrir o portal para a ilha. Além do mais, é necessário estar próximo à Avalon para fazer as brumas baixarem. O reino das fadas é muito mais distante e difícil de chegar do que Avalon, mas pelo menos pode ser acessado de qualquer lugar com magia. Você usará sua Visão para fazer contato com os seres místicos, eles é que irão nos levar para o reino das fadas.
– E o que faremos em tal lugar?
– Você completará seu treinamento.
– Impossível, jamais serei uma bruxa! Você mesma disse que o treinamento leva cinco anos!
– No reino das fadas não há tempo como se conta aqui. Séculos lá poderiam se passar sem que houvesse passado um segundo aqui, ou o contrário poderia acontecer. Tudo depende da vontade das fadas. Lá, você aprenderá sobre nossa antiga sabedoria, redirecionará sua mente, e entenderá a Deusa. Voltaremos regeneradas de magia e poderemos ir a Avalon impedir a guerra.
– Embora ache você cada vez mais desajuizada, o desespero me leva a ouvi-la, prima.
A chegada a Stonehenge era espetacular para os praticantes de magia. O poder emanado pelo templo era monumental, e quem não sabia senti-lo simplesmente via gigantescas pedras circulares.
Guínevere, mesmo sendo uma não iniciada, pôde sentir a força do círculo erguido pelas próprias fadas, e, ao que pareceu a Morgana, estava demasiado calma... Era um começo.
Morgana tomou posse dos cogumelos que permitiam que a Visão viesse mais facilmente, o poder do círculo e o armazenado na rainha fariam o resto. Dessa vez a Dama do Lago só podia esperar que alguma fada ouvisse seu chamado e viesse abrir-lhe os portões.
*****
Artur estava atormentado de preocupações; seu exército estava pronto, mas era muito reduzido, e seus cavaleiros veteranos eram apenas trinta, com Tristão, Gawain e Lancelot à sua frente.
Lancelot já estava bem melhor, até conseguia manejar armas, mas Artur não o permitia treinar por mais de uma hora a fim de se evitar esforços desnecessários. Seu duque não precisava de treinamentos, jamais houvera guerreiro igual. Até o próprio rei, se desarmado da Excalibur, era alvo fácil para sir Lancelot. O que ele precisava mesmo era de descanso.
Observá-lo treinar, o manejar de armas, o dorso nu, brilhando com o suor, que escorria também de seus cabelos tão negros como a lua nova num céu sem nuvens era a única coisa que fazia o rei parar de pensar nos reveses que estava enfrentando.
Morgana também o preocupava. Os nórdicos às portas, e sua irmã fora da proteção de qualquer fortaleza. Fizera uma loucura em deixá-la seguir viagem.
Lembrava-se agora do tempo em que ela tentara roubar-lhe a Excalibur mesmo que para isso tivesse que matá-lo. Não era culpa dela; como Senhora de Avalon jurara proteger à ilha sagrada e o próprio Artur perjurara sobre as insígnias mágicas.
Esse tempo já passara. Artur, como Grande Rei, retratara-se para com Avalon e retomara o direito de usar a espada sagrada. Agora, Morgana era novamente a sua irmã, doce e sábia, capaz de tudo para proteger-lhe, tal qual a Avalon.
Com a iminência do ataque, todos aqueles que não teriam condições de lutar deveriam ficar atrás dos muros de algum castelo da Bretanha, e isso já havia sido feito, mas Morgana, sua irmã, estava desprotegida.
O rei caminhava pelo salão do trono quando um mensageiro veio a sua procura:
– Meu Rei, os guardas da Senhora Morgana retornaram.
O rosto de Artur se iluminou; finalmente Morgana voltara. Tivera êxito em sua missão. O rosto do mensageiro estava pálido. Se Morgana tivesse voltado, não estaria ela mesma nesse salão, sem necessitar de ser anunciada?...
– Onde está minha irmã, está morta?! Ferida?!
– Não, senhor! Ela não retornou de modo algum com os guardas!
Artur estava perplexo, correu até onde estavam os homens que acompanharam Morgana. Mesmo afoito, sua imponência era visível de longe; em parte por causa de sua aparência originária da linhagem dos Pendragon, em parte devido à Excalibur presa em sua cintura.
– Senhor meu rei!
– Onde está a duquesa, guarda?
– A duquesa viajou por muito tempo em vários vilarejos até que resolveu ver a rainha. Pensávamos que era só uma conversa, ou que ela iria ficar por lá junto à rainha, fazendo-lhe companhia durante a guerra. Mas as duas saíram rumo a Stonehenge, e a duquesa nos disse que nossos serviços não eram mais necessários. Tentamos acompanhar, mas elas iam sempre rápido e acabamos nos perdendo na neblina!
– E o que Morgana queria com Guínevere?
– Não sei, meu senhor!
Artur ficou transtornado, agora as duas estavam descampadas! Por que Morgana fizera aquilo?... A Visão! Estava em busca de alguém com a Visão, mas não deve ter achado ninguém. Guínevere devia ter alguma já que conseguira chegar a Avalon sozinha, mesmo que por engano e mesmo sendo cristã, acreditando, portanto, que tratava-se de uma ilha demoníaca.
Morgana planejava usar Guínevere, o que era loucura, já que Stonehenge ficava mais ao norte e próximo de alguns reinos. Assim, tornava-se um alvo em potencial dos exércitos nórdicos.
O Grande Rei foi em busca do seu melhor amigo, precisava de um conselho, estava demasiado perturbado para tomar alguma decisão sozinho.
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