Sob o Céu da Bretanha
6 Capítulo 6
Ao amanhecer, os cavalos foram preparados e a comitiva do duque partiu novamente. Lancelot já estava bastante cansado, ferido e já beirando os trinta anos, não era que se podia chamar de jovem.
A viagem continuou em ritmo relativamente acelerado para uma comitiva que estava carregando mais de cem cavalos.
Lancelot precisava chegar ao reino rápido o suficiente para ainda visitar seu filho e organizar a defesa de Pellinore.
Dormiram mais um dia próximos à trilha que daria diretamente em Camelot. Lancelot estava muito pálido e temia que seus cavaleiros descobrissem que ele não estava totalmente recuperado, por isso, fez sua melhor cara e continuou sem reclamar assim que amanheceu.
A chegada em Camelot foi como um sopro de alívio para o Duque. Uma viagem, mesmo que muito próxima, realmente não era recomendável para alguém no seu estado. Além disso, precisava estar pronto para a guerra.
Artur esperava-os e recebeu seu duque com um longo abraço, beijando calidamente sua face, num local bastante próximo a seus lábios. Lancelot despencou nos braços do rei, ardendo em febre e muito fraco. O rei segurou-o e deu ordens para que levassem o duque para o quarto e seguiu os servos rapidamente, dando ordens a Tristão para que ele organizasse e preparasse os cavalos.
Lancelot foi banhado e colocado novamente à cama do rei. Artur tentou fazer com que comesse, mas ele rejeitou.
– Viu, Lancelot? Você nunca deveria ter saído, estava ainda se recuperando demasiado fraco para uma viagem de escolta!
– Tinha que ir, meu rei, precisávamos deles para batalha!
– Sua dedicação pode te matar, meu velho amigo. Sabe que isso também mataria a mim, não sabe?!
– Perdão, meu Rei.
– Descanse, meu caro.
– Não! Preciso partir a Pellinore, preparar as defesas para proteger Galahad!
Artur lembrou-se que o seu primo e herdeiro estava em apuros no reino desprotegido de Pellinore. Devia agir, mas sem recursos, como? Lancelot não iria, isso estava definido.
– Por favor, Artur. Meu filho!
– A única maneira é resgatá-lo. Mandar um emissário para movê-lo para a Bretanha Menor onde reina seu meio-irmão Bors. Creio que você me disse que deixou trinta homens defendendo Pellinore, e para aquele forte é mais do que suficiente. O emissário mandará ordens minhas para que cinco soldados acompanhem meu jovem herdeiro em segurança pelo interior até que cheguem à ilha da Bretanha Menor, ainda há tempo e não usaremos homens do exército principal.
– É certo. Sua habilidade em estratégia é notável. Muito obrigado, senhor!
– Não há o que agradecer, é meu parente também... Estamos a sós, meu caro, até entendo que me trate formalmente em frente aos outros, mas sabe que pode tratar-me pelo nome, primo. Descanse agora, darei as ordens. Não se preocupe!
Artur despediu-se de Lancelot, deixando-o com algumas servas que lhe prepararam compressas para o ferimento, e saiu para comandar a preparação do exército.
O rei chamou seu melhor emissário e mais dois guardas e ordenou que fossem até Pellinore informar aos guerreiros de Lancelot que transferissem o menino Galahad para a Bretanha Menor. Ordenou também que armassem defesas para o castelo, preparando-se então para a guerra que viria. Artur sabia que os nórdicos atacariam primeiro a Cornualha e Pellinore, por estarem mais próximos à costa. Os castelões dos reinos de Morgana e Lancelot deveriam defender as terras até que o exército que Artur preparara, a fim de vencer os bárbaros, chegasse e cumprisse o seu papel.
Já em Camelot, seria possível uma defesa mais efetiva... A única que dispunham.
A noite caíra quando o emissário rumou para Pellinore. Tristão e Gawain se aproximaram de Artur para dar informações a respeito dos regimentos e também para perguntar a respeito do duque.
– Meu rei, a quantas anda Lancelot?
– Ele está com febre, parece-me que o ferimento voltou a umedecer um pouco. Morgana deixou preparados alguns unguentos para emergências. Mas mesmo assim, ele não devia ter ido!
– Entendo. Mas ele era a única pessoa em que confiaríamos tal missão, já que estávamos treinando a nova cavalaria. – disse Tristão.
– A propósito, como estamos?
– Em batalhas terrestres eles são muito bons, quase do mesmo nível que nós. Precisamos aproveitar para aperfeiçoar as técnicas de equitação. – disse Gawain.
– Os nórdicos chegarão em menos de dez dias, sejamos rápidos então!
– Claro, meu rei. Eles só precisam mesmo de alguns melhoramentos, já que o treinamento pesado já havia sido feito antes da grande batalha.
– Creio, então, que teremos uma chance! Devo concentrar-me agora em Lancelot. Ele precisa estar em plena forma. Treinem os homens, mas sem exageros. Deixem que descansem e comam bem. Não precisamos de mais baixas antes do tempo!
– Sim, senhor!
Artur despediu-se dos cavaleiros e caminhou até às torres; subiu na parte traseira do castelo que dava para um grande declive. Lá era calmo, o que ajudou o rei a pensar.
Estava preocupado com Morgana. Havia protegido todos que necessitavam: os camponeses e servos estavam reclusos no castelo, no pátio principal; as damas da rainha tinham voltado a seus reinos, que, apesar de conterem poucos soldados como Camelot, poderiam ser defendidos por se tratarem de castelos e fortalezas. Sua Guínevere estava segura na ilha de Glastonbury. O convento era mais sólido que muitos castelos. Só a sua querida irmã ele deixava percorrer essas terras gélidas em busca de alguém com a Visão, para finalmente poder ir a Avalon e ajudar na guerra. Essa tarefa era por demais importante para ela, e ele confiava plenamente em Morgana, mas os perigos eram infindáveis.
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