Sob o Céu da Bretanha
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Camelot parecia menos destruída a partir do momento em que Lancelot se recuperou e Artur pôde voltar-se à administração do Estado.
Mandou os camponeses reconstruírem as muralhas parcialmente destruídas, preparou novas armas para o pequeno exército que restara, e ordenou que mantimentos e provisões fossem trazidos dos reinos vassalos mais próximos.
Tristão fora pessoalmente a Gales do Norte onde reinou o velho rei Uriens, finado marido de Morgana, e após ele, seu filho Acolon. Acolon fora morto em uma batalha pessoal contra o próprio Rei, cabendo, portanto, o comando daquele país a Morgana.
Gawain ficou para comandar o treinamento de uma nova cavalaria formada por jovens soldados que não foram à grande batalha por ainda não estarem prontos e ficaram protegendo Camelot, o que custou as vidas de alguns. Ainda eram jovens demais, todavia, era a única saída que o rei enxergara.
Lancelot caminhava com dificuldades e ainda sentia dores, ficou responsável pela administração das provisões.
Artur caminhava pelos estábulos, analisando as condições dos cavalos restantes. Muitos potros estavam fracos demais e não conseguiriam lutar. A preocupação estava clara na face do Grande Rei, e Lancelot, terminando de checar o armazenamento das malhas de batalha, foi lhe falar:
– O que lhe perturba, meu Senhor?
– Primo? Pensei que havia ordenado a não me tratar com tanta formalidade.
– Perdão, primo, foi apenas jeito de falar, não pense que esqueci que somos parentes!
– Somos mais que isso, meu caro! Mas são os cavalos que me deixam preocupado. Não venceremos ninguém com eles nessas condições. Lancelot, você já viajou para além dos limites da Bretanha, sabe se os bárbaros nórdicos usam cavalos em guerra?
– Ao que me parece, só os líderes cavalgam, mas nada que se compare a sua cavalaria.
– Mesmo assim, acho que pedirei ao castelão de Lorengrandz para mandar-me mais alazões de guerra.
– Parece-me que Lorengrandz tem um bom número de cavalos. O mesmo não se pode dizer de guerreiros, tomamos a maioria para batalha contra os saxões.
– Estou ciente... Primo, você ficará no comando enquanto eu vou a Lorengrandz.
– O rei sair em tempos de guerra? Impossível, senhor! Sou seu duque de guerra, sei que não há emissários suficientes, além do mais, é necessário um grupo considerável de cavaleiros para trazer os cavalos. Tristão e Gawain estão atarefados, levarei eu mesmo alguns dos cavaleiros veteranos comigo, já que não precisam mais de treinamento.
– Você ainda está fraco, Lance, não pode viajar!
– Minha obrigação primeiro, Artur. Tenho que cuidar dos assuntos mais importantes na ausência do rei, você não pode sair. Se for morto por saqueadores remanescentes do exército saxão ou mesmo capturado para exigirem resgate, perderemos a guerra, todos ficarão sem o líder e acabarão perecendo!
– Sinto tanto que os outros da távola redonda tenham perecido. Eram grandes companheiros! Não posso perder mais ninguém, principalmente você!
– Ainda posso lutar, meu Rei, estou praticamente recuperado!
– Sua devoção não tem precedentes! Meu duque, leve ao menos a Excalibur contigo.
– Seria uma honra acima do meu merecimento. Além disso, você precisa da proteção da bainha.
– Estarei seguro em Camelot, você correrá mais perigos que eu, eu ordeno que a leve!
O rosto de Artur estava firme embora fosse possível notar seus olhos mareantes. Lancelot queria proteger o rei acima de tudo e também notou um sentimento recíproco da parte de Artur, não levar a Excalibur seria desrespeitoso para com sua majestade.
– Sim, senhor, levarei!
Assim que os primeiros raios de sol da manhã seguinte dançaram por entre o manto de neve que começara a derreter, Lancelot saiu com sua pequena comitiva formada por experientes cavaleiros comandados por ele e pelos outros da távola redonda na batalha contra os saxões.
O percurso entre Camelot e Lorengrandz era curto e poderia ser feito em menos de um dia, mas Lancelot optara por seguir trilhas alternativas a fim de despistar possíveis saqueadores.
O local aonde a flecha o havia perfurado doía incessantemente, ele teria de aguentar. Seu rei, a quem ele amava mais do que si próprio, precisava dele. Não poderia decepcioná-lo jamais.
Era fim de tarde quando Lancelot resolveu parar e se alimentar. Comeu pão de cevada impressionantemente fresco para a época e tomou cerveja; por fim, descansou entre umas rochas grandes onde ele montara sua tenda. Um a um, os guardas de seu regimento se revezavam em vigília.
Lancelot não conseguia dormir, o peito latejava e os pensamentos voavam na noite sem lua. Sua esposa Elaine morrera da pior febre de inverno que já tinha visto, ele cuidou dela e sofreu por sua morte apesar de não amá-la. Como estariam seus filhos?
Nimue fora levada à Avalon por Morgana quando tinha apenas cinco anos; agora deveria estar com sete, se Morgana não pudesse reabrir os portões para a ilha nunca mais voltaria a ver sua filha...
Galahad, seu primogênito e herdeiro do trono de Artur, ficou em Pellinore, onde Lancelot reinava. Estaria agora com doze anos, muito jovem para administrar um quarto, quanto mais um castelo! Deixou o filho aos cuidados das aias de Guínevere que foram para lá a seu pedido a fim de não deixar sua propriedade desabitada, já que teria de estar ao lado do seu rei. Deixou em Pellinore, também, homens suficientes para protegê-lo.
A saudade apertava ainda mais o peito do capitão da cavalaria; ele tinha que visitar seu filho antes da guerra e indicar um regente a seu reino no caso de lhe acontecer algo com ele na guerra. Seu filho reinaria em Camelot, Pellinore deveria ser governada por Nimue, se ela conseguisse voltar... Mas primeiro tinha uma missão, e iria cumpri-la.
Lancelot voltou a rumar para Lorengrandz, reino natal de Guínevere, para conseguir cavalos necessários para a luta.
Lembranças dos terríveis acontecimentos que assolaram sua Rainha naquelas terras vieram à tona, mas Lancelot tratou de expulsá-las de seus pensamentos.
As grandes muralhas do castelo foram percebidas bem antes dos cavaleiros chegarem. Foram recepcionados por um criado bem vestido que os anunciou ao castelão do local nomeado pela Rainha para tomar conta do reino.
– A que devo a honra, Sir Lancelot, Duque do Lago, Rei de Pellinore, Mestre dos cavaleiros de Artur?
– Creio que já deva saber da nova ameaça à Bretanha?
– Muito pouco, o rei não mandou emissários oficiais para cá, tudo o que soube foi por meio dos camponeses que transitam entre os dois reinos. Entremos, Senhor. Poderá se lavar, comer algo e explicar o motivo da sua visita.
– Naturalmente.
A parte interna do castelo encontrava-se do mesmo modo que Lancelot vira pela primeira vez quando viera buscar a então princesa de Lorengrandz, Guínevere, para casar com seu primo, o rei. A essa altura de sua vida, Lancelot relembrava como fora buscar a mulher que amou para desposar o homem mais querido por ele.
Ao entrar no salão real, decorado de azul celeste com o estandarte da cruz no mais alto local acima do trono, Lancelot também se lembrara mais uma vez de quando fora resgatar Guínevere das mãos de seu irmão bastardo. Naquele dia mesmo, fizera amor pela segunda e última vez com Guínevere, antes de se casar com Elaine e formar família no distante reino de Pellinore.
O castelão chamado John era uma figura de meia altura, vestido como um nobre em tempos de paz, rosto marcado pelos sinais da idade, embora fosse apenas um pouco mais velho do que Morgana, cabelos bastante louros e à altura da nuca.
Os criados foram chamados e encaminharam Lancelot para um aposento onde ele pôde se lavar, e trocar-se. Quando o duque voltou ao salão, observou que seus companheiros já estavam todos bem atendidos e foi ele também servir-se de carne de javali e pão. Também havia vinho aquecido e cerveja.
– Bem, senhor John, o reino livrou-se dos saxões com a ajuda de todos os reis vassalos, mas agora outros bárbaros querem aproveitar-se das nossas terras e devemos defendê-las outra vez.
John olhava o duque atentamente enquanto Lancelot bebia um pouco de vinho aquecido para aliviar o frio e recomeçava a falar:
– Sei muito bem que não há mais homens a quem possamos recorrer, devemos lutar com os remanescentes do exército anterior, mas o Grande Rei ordena que Lorengrandz forneça novamente cem cavalos para o exército se reconstruir e poder enfrentar os nórdicos de igual para igual.
– Certamente, meu senhor duque! Devo preparar os animais assim que amanhecer para que o senhor não se atrase. A propósito, para quando é esperada a chegada dos bárbaros?
– No fim do inverno, assim que as águas forem calmas o suficiente.
– Então falta muito pouco! Devemos nos apressar! O senhor acha que Lorengrandz precisará de mais defesa?
– Não creio que será necessário, afinal, Lorengrandz fica atrás de Camelot. Se houver algum exército vindo de encontro ao reino, significa que a Bretanha está perdida.
A reunião acabou com um sorriso amarelo e muita tensão, normal para um período de guerras.
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