Sob o Céu da Bretanha
40 Capítulo 40 - Epílogo
Notas iniciais
Após o anúncio oficial de que Victoria seria de fato, a herdeira do Grande Rei, as festividades principais em Camelot finalmente acabaram. Todos os reis vassalos estavam voltando para os seus reinos contentes em finalmente ter uma definição mais sólida de que a Bretanha estava de volta como uma potência perante às nações vizinhas e de que teriam uma herdeira filha do Grande Rei, apoiada pelo filho do Grão-duque, em caso de conflitos futuros.
O solstício de inverno estava próximo e Morgana retornara à sua ideia original de celebrar Yule no castelo. Camlelot estava habitada apenas por Artur, Lancelot, Galahad, Morgana, Nimue, Connor, Tristão e Isolda além de Victoria.
Artur ainda estava um pouco amargurado com a Dama do Lago, limitando-se a trocar apenas palavras estritamente necessárias com a irmã. Todavia, não a absteve de ficar perto da sua filha, o que sugeria à Morgana que sua relação com o irmão não fora totalmente destruída.
Victoria estava sob cuidados constantes das amas que lhe foram designadas, mas sempre era disputada por Morgana, Nimue e Isolda, que estavam encantadas com a inteligência e beleza daquele pequeno ser.
Mas as afeições da menina eram voltadas principalmente a Lancelot. O cavaleiro mal podia entrar no cômodo onde Victoria se encontrava, que a garota logo dava-lhe os braços, procurando chamar-lhe a atenção de todas as formas possíveis, fazendo todos os presentes rirem.
Não era obscuro a ninguém que o duque tinha a habilidade de encantar as crianças como nenhum outro homem na Bretanha. Todos os garotos o rodeavam e ficavam vidrados ao verem o mestre de armas da Coroa mostrar suas habilidades em exibições públicas. Mas nunca antes o mesmo poder fora exercido sobre uma garotinha, muito menos tão jovem quanto Victoria.
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O dia do solstício raiou e Artur percebeu que seria necessário caçar alguma coisa para cearem à noite. Descendo ao Grande salão onde todos estavam reunidos tomando o dejejum, o Grande Rei avisou aos homens sobre o que fariam em seguida deixando-os um tanto quanto animados pela perspectiva de sair do castelo em que há quase um mês não botavam os pés fora devido à rigidez do inverno.
Artur viu Victoria nos braços de Lancelot, que comia distraidamente enquanto a menina brincava com a sua barba, dando sonoras gargalhadas. Para o Grande Rei, aquela foi a visão mais doce que tivera na vida.
O amor para com a sua filha crescera rapidamente depois de passada a surpresa; a semelhança consigo mesmo e a inteligência da garota deixavam os sentimentos do soberano da Bretanha à flor da pele e vê-la junto a seu amado daquela forma era o que o Rei poderia chamar de visão do paraíso.
O Grande Rei, passou pela cadeira do duque, beijou-o no topo da cabeça e sentou-se ao seu lado:
Ela realmente aprecia sua companhia, meu caro! – disse Artur, começando a brincar com a filha.
Ela é um doce de menina, incrivelmente esperta para um bebê!
Deve ser o sangue das fadas – revelou Morgana.
Por certo que sim – atalhou Nimue – ela está fadada a executar grandes feitos quando for crescida o suficiente.
Além de tudo, é linda como um anjo – disse Isolda
Quanto a isso não há dúvidas de que tenha saído ao pai – salientou Lancelot, fazendo o Rei corar da cabeça aos pés.
Lance?!
O que foi? Não disse nada além da verdade; todos veem que ela é a sua cópia.
Que seja; mas vamos logo subir e nos preparar para a caçada antes que o dia perca sua luz – disse Artur, totalmente sem jeito, enquanto subia novamente para seus aposentos levando consigo apenas uma das poucas maçãs que ainda haviam naquela época do ano.
Lancelot entregou Victoria à Morgana, que ficou satisfeitíssima em pegar a sobrinha, e subiu aos aposentos reais.
Adoro esse seu jeito tímido, sabia?! – disse Lancelot abraçando o rei por trás.
Você adora me ver vermelho na frente de todos, isso sim! – respondeu Artur, rindo um pouco.
Não disse nada que fosse surpresa para ninguém; és lindo majestade.
Por mais que seja verdade, existem outros muito mais belos – disse Artur, virando-se para selar os lábios do seu duque.
Vejo que agora é sua vez de me deixar envergonhado!
Aqui se faz, aqui se paga, meu caro! – disse Artur, rindo.
Depois de bem armados e agasalhados, os homens saíram para caçar e garantir uma boa refeição para as festividades de yule.
Morgana organizou o castelo da melhor maneira possível e mandou os servos prepararem as refeições que seriam utilizadas mais à noite. O majestoso pinheiro no salão principal foi regiamente enfeitado por Isolda, que jogava conversa fora com Nimue enquanto ela terminava de confeccionar a estrela, símbolo dos quatro elementos e o espírito, em madeira, para pôr no topo da árvore.
Os homens retornaram quando a luz já estava prestes a se acabar no horizonte e se depararam com uma mesa repleta de frutas secas, pães de cevada e trigo, bolos de aveia e nozes, vinho temperado com ervas e um pouco do forte destilado escocês. Artur, estava exultante; haviam pego um excelente gamo para o jantar, que já estava sem pele e pronto para ser preparado.
Lancelot levou o animal para ser preparado e assado nos grandes fornos da cozinha, retornou ao castelo e se deparou com Morgana dando ordens ás criadas para acenderem os archotes e colocarem mais lenha na lareira.
Parece que você criou um ambiente acolhedor aqui, prima.
É Yule; não podemos passa de qualquer jeito; temos que celebrar!
Por certo, que sim; onde está o Rei?
Subiu para se lavar e se vestir como convém a um nobre dentro de um castelo.
Acho que devo fazer o mesmo então...
Claro, Primo... Lance... Ele ainda está muito magoado comigo?
Ele se sente traído, está receoso em confiar de novo em você; mas dê-lhe mais um tempo para pensar; depois de tudo o que ele passou... É natural, que esteja na defensiva.
Eu sei... Vou dar tempo ao tempo.
Vou tentando abrandá-lo aos poucos; você sabe que por trás daquele guerreiro feroz, existe um coração maior do que esse reino, não sabe?!
.. Só espero não ser tarde demais para nós.
Não será, prima – disse o duque beijando Morgana levemente no rosto e indo direto aos aposentos reais.
Quando Lancelot abriu as portas do quarto encontrou Artur imerso em uma imensa tina de bronze cheia de água. O rei estava com a cabeça recostada e mantinha os olhos fechados enquanto aproveitava a água morna.
Lancelot ajoelhou-se próximo à tina e beijou a face do homem que ali repousava:
O jantar está quase pronto, apenas a carne precisa ser assada – informou Lancelot, massageando os cabelos louros com as pontas dos dedos.
Então ainda temos algum tempo até que tudo esteja aprontado.
Certamente; devo também tomar um banho para ficar apresentável depois da caçada de hoje.
Como sempre, sua mira foi infalível; você é um arqueiro formidável, meu bem...
Não é para tanto; todos sabem que Tristão é o melhor atirador do reino.
Sem dúvida, mas hoje foi você quem acertou o coração daquele gamo.
É... Ele era bastante grande; comeremos muito bem hoje!
Estais esperando que eu saia para poder se banhar?
Não há pressa, meu Rei, pode terminar o seu banho tranquilamente.
Há espaço suficiente para dois aqui, Lance, apenas pegue mais um pouco da água quente na lareira.
Os sentidos de Lancelot se acenderam instantaneamente quando ele ouviu o pedido velado no comentário de Artur. O Grão-duque não demorou para ir buscar a água derramando-a lentamente na tina.
Depois começou a despir-se, jogando suas várias camadas de roupa para um canto qualquer. Quando os corpos se encontraram de fato, sob a reconfortante água morna, Lancelot não pôde mais segurar sua excitação.
Embora a movimentação fosse restrita devido ao espaço reduzido, os toques e beijos apenas aumentavam de intensidade com o passar do tempo. Lancelot explorava cada centímetro da boca do seu rei, que retribuía os beijos com afagos leves nos cachos negros do seu campeão.
As investidas do duque eram precisas e fortes, fazendo com que a água ultrapassasse os limites da tina, molhando todo o chão em volta. Artur praticamente urrava de tanto prazer, nunca havia feito nada do tipo e lhe parecia que a imersão deixava seu corpo muito mais sensível aos avanços de Lancelot.
O soberano da Bretanha chegou ao seu limite um pouco depois do seu duque, que se derramou dentro dele, com seu gemido baixo e rouco capaz de excitar Artur ainda mais.
Os olhos negros se encontraram com os azuis e os sorrisos cansados que ambos esboçavam denunciavam que nenhum dos dois planejaria sair do quarto pelo resto da noite se não fosse o jantar de Yule.
Depois de enxutos e bem arrumados os dois se vestiram de acordo com suas altas posições na corte inglesa. Lancelot trajava uma túnica de lã verde bastante escura conseguida apenas pelas técnicas de tingimento de Avalon, adornada com fios de prata. O visual somado aos cabelos úmidos e a barba cerrada o deixava simplesmente irresistível para Artur, que usava uma túnica branca ricamente cravejada com pequenos rubis além de sua coroa feita em ouro puro.
Vamos descer, meu Rei?
Espere, ainda falta uma coisa – disse Artur, pegando uma fina coroa de prata da mesa de dejejum.
Já ia me esquecendo – afirmou Lancelot, ajoelhando-se perante ao Rei que pôs a joia em sua cabeça dando-lhe um beijo bastante terno em sua testa.
Ela fica linda em você, seus cabelos contrastam muito com a prata; creio que acertei em mandar forjar o seu presente com esse metal – disse Artur, retirando de sua túnica um anel grosso portando uma gema única de uma pedra esverdeada reluzente.
Artur!
Chama-se esmeralda... Segundo o ourives que me vendeu isso na primavera passada, ela pertence a terras muito mais longínquas do que Roma.
É maravilhosa... Não tenho palavras para agradecer... Não devia me dar tantos presentes, isso deve ter custado praticamente uma vila inteira!
Gosto que o homem a quem amo ande condizente a sua posição... Meu anjo, você é modesto demais, mesmo sendo rei por direito de Pellinore, não tem nada além da coroa para indicar sua posição enquanto vejo os outros reis vassalos mais ricamente vestidos do que eu, que sou o Grande Rei... Lance, não quero que me entenda mal, eu te amo também pela sua humildade, mas não há mal nenhum em dar-se alguma coisa de vez em quando; Pellinore é o reino que gera maior receita para a coroa, então não há porque economizar, pelo menos por hora.
Já te disse o quanto eu te amo, hoje?
Já, mas é sempre bom ouvir!
Eu te amo – disse Lancelot selando levemente os lábios de Artur – e falando em pessoas que amamos, quando você vai aliviar o regime de gelo com Morgana?
Ela me machucou bastante, Lance; Eu preciso de mais um tempo para recuperar a confiança...
Entendo; mas vá tentando aos poucos; não precisa beijar-lhe a face ainda, mas não a ignore completamente; tudo bem assim?
Vou tentar.
Muito bom! Vamos?
Claro!
Morgana fala...
Escrevo essas últimas linhas para que todos saibam como realmente se deu a sucessão de fatos na Bretanha. A cerimônia de Yule em Camelot foi minha última ação ritual da roda do ano como a Senhora do Lago; o jantar estava delicioso e o ambiente agradável, apesar dos olhares tristes que Artur me lançava (sabia muito bem que ele nunca deixaria de me amar, mas eu o havia magoado tanto que até eu mesma me martirizava... mas o que tinha de ser feito estava feito), consegui realmente fazer com que todos notassem que o Deus renascia junto com o sol que retornaria dentro em breve à Bretanha.
Depois anunciei a todos que Nimue a partir daquela data seria a Senhora em meu lugar. Connor abençoou o anúncio, como o Merlin, garantindo assim, uma sucessão reconhecida por Avalon.
Retornei para Tintagel aonde reinei por anos pacificamente. A cada reunião dos reis vassalos com o Grande Rei, Artur me parecia menos arredio e mais receptivo. Meu irmão viveu dividindo-se entre Camelot e Pellinore por razões que apenas eu e poucas pessoas conheciam.
Era realmente um pai notável, atencioso e justo; em pouco tempo minha sobrinha possuía todos as prendas requisitadas de uma moça além de talentos bélicos, estratégicos e sacerdotais advindos de uma educação primorosa oferecida em Avalon desde o seu sétimo ano.
Eu, por minha vez, conheci o amor apenas uma vez e desde de que a morte levou Acolon em uma das minhas tentativas de retomar a Excalibur, nunca mais senti o doce sabor de estar apaixonada.
No décimo terceiro aniversário de Victória, Artur abdicou do trono em seu favor, abençoando o seu casamento com Galahad, então rei de Gales do Norte, com 27 anos de idade.
Foi uma oportunidade excelente para ver como estavam as coisas em Avalon. Nimue e Connor já estavam há cerca de treze anos no poder e já haviam treinado os seus sucessores, escolhidos a dedo dentre os jovens que finalmente estavam voltando a estudar na ilha.
Os dois estavam perdidamente apaixonados um pelo outro de uma forma perigosa para dois sumo-sacerdotes, portanto aconselhei-os a deixarem seus cargos o quanto antes, do contrário, não poderiam viver o seu amor de maneira a não atrapalhar os rumos da Bretanha. Os dois comandariam a Ilha Sagrada por mais cinco anos antes de deixarem seus postos para os seus sucessores.
Lancelot havia deixado Pellinore para Galahad e se mudado, junto com Artur para Avalon aonde podiam viver a seu modo sem serem incomodados e ainda acompanhariam os acontecimentos do reino com facilidade.
Mais ou menos nessa época, resolvi, voltar a Avalon e passar meus últimos dias na Ilha que era meu verdadeiro lar. Deixei a Cornualha para Nimue, que casou-se com Connor e começou o seu reinado em Tintagel.
Tristão e Isolda tiveram dois filhos que herdariam Gales e os reinos da Escócia, já que Marcus havia morrido sem deixar herdeiros.
Hoje sou uma das magas conselheiras de Alana, a jovem Senhora do Lago, que divide a regência da Ilha com Brian. Nenhum dos dois têm a Visão de forma pronunciada, mas são disciplinados e justos, tenho certeza de que farão um bom reinado pelo menos até Nimue e Victoria terem filhos descendentes diretos da linhagem real de Avalon para substituí-los.
Enquanto isso, auxilio os dois nos problemas da Bretanha, que graças a deusa não são muitos.
Como antiga Senhora, pude construir minha morada próximo ao Tor de onde é possível ver o mar de verão e o bosque onde Artur e Lancelot dividem um chalé belíssimo.
Os dois visitam-me com frequência, já que não possuo mais a mesma força de outrora e tenho dificuldades consideráveis em me movimentar. Ainda parecem dois jovens, embora a barba de Artur esteja crescida e os cabelos de Lancelot tenham perdido muito o forte tom enegrecido.
Agora, não há mais compromissos, guerras e responsabilidades de morte; gastamos horas nos recordando dos velhos tempos, conversando amenidades e tentando ver com a minha Visão (já bastante reduzida) o que está se passando com as crianças a quem deixamos o reino.
Artur fica com os olhos brilhando de orgulho quando lhe conto como sua filha está reinando sabiamente junto ao seu consorte, enquanto Lancelot praticamente vibra de alegria quando revelo que Galahad tem feito progressos em dominar o manejo das espadas gêmeas do lago.
Por vezes, os dois vêm somente para apreciar a vista que minha casa pode nos oferecer; Artur e eu sentamos na relva macia enquanto Lancelot deita-se em seu colo. Pouco tempo depois, vejo o meu irmão disperso, olhando para as brumas, afagando distraidamente, porém com uma delicadeza de quem lida com um cristal, a barba de Lancelot, que ressona sonoramente sem nem mesmo terminar de tomar o seu chá.
Finalmente posso dizer que somos felizes e que viveremos o fim dos nossos dias sem nos preocupar com o amanhã. Até que um dia possamos, novamente, correr jovens e livres, para sempre, no país das fadas.
Fim
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