Sob o Céu da Bretanha
41 Final Alternativo
Notas iniciais
Esfriava cada vez mais rápido em Avalon. Morgana sentia cada vez mais a necessidade de se enrolar em mantas grossas ou de estar próxima à lareira por longos períodos. Havia chagado à Ilha há algumas semanas e se inteirado da nova posição de Connor; o garoto que há pouco agarrava-se às suas saias, agora dividia com ela o comando de Avalon.
Tudo parecia estar na mais perfeita paz na Bretanha e a única coisa que Morgana precisava fazer antes de entregar de vez o seu cargo de Senhora à Nimue, era avisar o Grande Rei a respeito do filho que teria dentro em breve.
A Dama do Lago apenas aguardava a chegada de Eda à Avalon para poder ir à Camelot e revelar a Artur o que havia feito para levá-lo ao reino encantado naquela ocasião.
Morgana temia o baque que a sua relação com o seu irmão pudesse sofrer depois da revelação, mas sabia que havia feito o necessário para assegurar uma sucessão segura e sem futuros danos. Além do mais, homem algum seria capaz de ficar indiferente ao nascimento de um filho, ainda mais se fosse um homem tão gentil quanto Artur; seu amor pela criança com certeza abrandaria seu coração.
Anoitecera rapidamente e a Morada da Senhora parecia imersa nas trevas, exceto pela lareira acesa, não havia nenhuma outra fonte de luz no lugar. Morgana e Nimue terminavam a suas ceias e estavam prontas para deitar-se quando um leve soar de passos alertou os sentidos de ambas.
Uma mulher, trajando um vestido de seda pura e coroada com juncos de fim de outono, apareceu como que do nada, carregando um bebê razoavelmente grande em seus braços.
– Eda!
– Como eu disse, retornaria em tempo oportuno para entregar-lhes o herdeiro da Bretanha, ou nesse caso, a herdeira!
– Estava apenas esperando a sua chegada para ir para Camelot avisar a Artur sobre sua filha... Vejam só, ela é linda!
– Parece que foi esculpida à imagem do Rei; ninguém poderá negar que é sua filha.
– Ninguém negará! Além do mais, passado o choque, todos terão muito com o que se preocupar dentro em breve!
– Porque diz isso, Eda!
– Morgana, você não viu?! – perguntou a fada como uma sacerdotisa perguntaria à outra – um perigo muito grande se aproxima da Bretanha; um imenso exército irlandês atracará daqui há poucos dias em solo Bretão; julguei que estavam aqui porque fosse o lugar mais seguro da Bretanha e que o Rei já havia sido avisado por você, afinal, a Senhora do Lago deve estar sempre atenta aos perigos que rondam esta terra!
– Pela Deusa, não posso acreditar no que dizes! Devo ter bloqueado minha Visão com tantas reservas que fiz a respeito da reação de Artur ao conhecer a criança... Simplesmente não vi nada!
– Eu também, não! Isso não pode ser possível! – disse Nimue.
– Então creio, que não seja apenas isso que esteja atrapalhando seus poderes Morgana. Mandei minhas filhas interferirem mais uma vez na natureza na tentativa de atrasá-los, mas eles nos conhecem muito bem, são de terras vizinhas às nossas... Todos os soldados portam um amuleto de ferro frio arrancado do ventre da terra e forjado. Nossos poderes não têm qualquer efeito sobre eles; provavelmente também têm o conhecimento para bloquear a Visão das sacerdotisas, não há outra explicação!
– Se eles nos conhecem tanto assim, deveremos avisar Artur o mais rápido possível, porque nada mais poderemos fazer para ajudá-lo... Avalon está impassível diante de um inimigo, não achei que viveria tanto para ter que ver isso!
– Devemos levar a menina conosco?!
– Não Nimue, apenas eu irei à Bretanha, você e Connor como os sucessores em comando, devem ficar na Ilha. Por mais que conheçam nossos segredos será impossível para aqueles ímpios atravessar as Brumas. Se por qualquer razão, eles conseguirem, vocês precisam retirar a Ilha desse mundo... É a única maneira de salvá-la. Minha sobrinha fica aqui, protegida... Tentarei a todo custo resgatar Galahad para que a linhagem de sangue seja mantida mesmo se perecermos. Essa é minha última ordem como Senhora!
– Mas Morgana... Poderíamos ajudar!
– Não minha filha! – falou Eda – ela está certa; não sei como sairemos dessa batalha e Avalon precisa continuar... Levarei Morgana à Bretanha e trarei Galahad aqui magicamente, mas creio que será tudo o que poderei fazer. Lá fora, Morgana será a única com poderes para executar algum encantamento que ajude o exército bretão e disso nem eu estou totalmente certa...
Depois de se despedir de Nimue e Connor, que viera às pressas da Casa dos Bardos, Morgana beijou docemente a testa de sua sobrinha, abençoando-a com o sinal da Deusa e partiu junto com Eda, levando apenas um pouco de tinta, algumas ervas e um cantil com a água sagrada do poço.
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Artur descansava em seu trono em meio a um grande salão completamente vazio; recordava-se com nostalgia os tempos em que sua corte estava sempre cheia de vida e alegria; Lancelot fazia-lhe tanta falta que ele já não podia suportar. Estava decidindo-se se iria à Pellinore no dia seguinte quando duas mulheres surgiram das sombras de um dos cantos mal iluminados do salão, fazendo-o estremecer de susto.
– Morgana?! É mesmo você?!
– Sim, meu irmão.
– Por Deus, como chegou aqui, sem ser vista por ninguém, sem ser -anunciada?
– Isso não importa agora, Artur, quero lhe falar assuntos importantes... De vida ou morte para você e para a Bretanha!
– Mais que assuntos são esses, minha cara?
– Antes você deve conhecer alguém... esta é Eda, a Rainha do povo encantado, Senhora das fadas.
– Sinto-me honrado em conhecer alguém com tamanha realeza, senhora! – falava Artur, impressionado, no meio de uma profunda reverência – sei o que a senhora fez para ajudar a salvar o meu reino... Mas acho que já conheço-lhe, pois não?
– Sim, Rei Artur, e agora é chegado o momento de esclarecermos tudo... Podemos nos sentar?
– Claro, que sim, vamos para os meus aposentos.
Já nos aposentos do Grande Rei, Morgana revelou tudo para Artur com a maior calma cabível àquela situação. O soberano da Bretanha ficou ainda mais pálido do que o usual, seus olhos azuis perderam instantemente o viço.
– Então é isso... No mesmo dia descubro que minha própria irmã voltou a trair minha confiança e que o país pelo qual eu dei a minha vida pode ser destruído num piscar de olhos sem nem ao menos ter uma chance de defesa?
– Artur... Tente entender; eu queria assegurar que Nimue não tivesse que realizar o Grande Casamento com o seu próprio irmão; você sabe como isso foi terrível para nós!
– Você poderia ter conversado comigo; daríamos um jeito! Ao invés disso preferiu me trair.
– Você sabe que eu tentei, mas você simplesmente permaneceu impassível e ainda permaneceria... Eu tinha que fazer alguma coisa! Veja... Eu entendo que esteja magoado agora, mas quando vir a sua garota, você vai entender que tudo isso valeu a pena.
– Será que ainda vou poder vê-la? Não teremos chance sem todos os reis vassalos e seus exércitos aqui para nos ajudar.
– Você está certo, os irlandeses conhecem essa ilha; eles não se importaram em combater com os fortes no litoral porque sabem muito bem aonde fica Camelot; eles virão atrás de você imediatamente – disse Eda – mas Camelot é fácil de se defender; envie mensageiros agora para todos os reis e quem sabe vocês resistam ao sítio até que eles cheguem em seu auxílio.
– É verdade Artur... mesmo sem a ajuda das fadas, teremos alguma chance, porque Eda viu a invasão antes dela ocorrer!
– Que assim seja; enviarei mensageiros agora mesmo. Mas isso não acabou Morgana; se conseguirmos sobreviver a isso, ainda temos muito o que conversar.
Morgana assentiu gravemente e o Grande Rei se ausentou do recinto. Eda também começou a preparar-se para voltar ao reino das fadas e lembrou a Morgana:
– Tenha fé minha menina, ele vai entender... e mesmo que não possa lutar diretamente contra eles, eu posso ajudar; enviarei todas as minhas energias diretamente do mundo encantado, você poderá realizar qualquer encantamento sem se desgastar; poderá executar até mesmo o sortilégio final que os grandes druidas realizaram na sua última tentativa de lutar contra os romanos tempos atrás...
– Mas aquele encantamento só pôde ser feito por quatro druidas tão poderosos quanto Taliesin e mesmo assim todos morreram...
– Se você conhece as palavras, os materiais para fazê-lo e aprendeu como direcionar a energia da maneira correta você sozinha poderá realiza-lo; a energia das fadas estará com você no momento em que eu pisar no reino encantado novamente, confie em mim, você nem mesmo se cansará.
– Se é assim, Eda... Creio que podemos vencer!
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Artur mandou seus mensageiros o mais rápido que pôde; estava tonto por ter que absorver tantas informações em um único dia, nunca sentira tanta falta do seu mestre de armas na vida, Lancelot com certeza o aconselharia sabiamente àquela hora. Naquele momento, tudo o que Artur pôde fazer foi alertar seus capitães para se prepararem para a batalha.
Dois dias depois, Camelot havia se tornado um campo de guerra, os camponeses estavam acabando de se refugiar no pátio externo do castelo trazendo consigo todas as provisões de que dispunham e tudo aquilo que pudesse ser usado como uma arma, os arqueiros estavam prontos para manter o castelo protegido pelo máximo de tempo possível, os ferreiros estavam manejando metais para a fabricação de novas armas e o exército do Grande Rei estava a postos para o combate.
Artur, já estava em sua armadura, portando a Excalibur, nua em sua cintura. Dava ordens para que os soldados se mantivessem mais próximos aos portões para guardá-los melhor, quando ouviu barulhos de cavalos do lado de fora.
O rei subiu rapidamente as escadas de uma das torres dos muros externos, pensava ele que os irlandeses finalmente haviam aparecido; o que viu foi um brasão contendo duas espadas cruzadas aos pés de um majestoso gamo branco; era o brasão de Pellinore.
Artur quase chorou de alegria ao ver Lancelot, a frente do seu exército entrando no castelo.
– Graças a Deus, cheguei a tempo – disse Lancelot, tomando Artur num abraço tão apertado que lhe causou um leve desequilíbrio.
– Lance! Achei que não te veria mais nessa vida!
– Está tudo bem Artur, agora que eu estou aqui, posso liderar o exército contra os irlandeses enquanto você tenta derrubar o máximo de inimigos que conseguir com o arco lá em cima.
– Lancelot... Nunca irei me retirar para dentro dos muros do castelo e deixar você lutar! Não serei covarde a esse ponto.
– Meu bem, escute, não se trata de coragem, mas de estratégia; você tem que permanecer vivo para comandar suas outras legiões quando elas vierem; como o seu duque de guerra, minha função é ganhar tempo para que as forças inimigas não ultrapassem os muros de Camelot antes que a ajuda chegue!
– Lance, com ganhar tempo você quer dizer sacrificar-se e isso eu não vou aceitar; o mais lógico seria que você ficasse com os arqueiros, sempre foste o mais habilidoso com o arco e Tristão ainda não chegou... sabe, é exatamente isso o que vou fazer, você vai ficar nas torres com os arqueiros.
– Nem pensar, Artur, você não me nomeou seu duque para me proteger, mas para comandar seus exércitos quando necessário!
– Grão-duque da Bretanha, vai desacatar uma ordem do seu rei? – A voz de Artur era firme, mas seus olhos entregavam suas reais intenções.
Lancelot ajoelhou-se perante Artur, sua expressão era lívida, de puro terror e desespero.
– Farei o que for preciso para te manter seguro; deixe-me ao menos lutar ao seu lado! Se ainda mantiver sua ordem, meu senhor, então terei que desobedecê-la, e quando todo o perigo estiver longe daqui, eu mesmo empregarei a pena para os traidores da Coroa e com prazer tiro a minha vida...
Artur empalideceu e imediatamente puxou seu duque para um abraço, dizendo-lhe ao pé do ouvido em um sussurro embargado, quase inaudível:
– Nunca mais repita uma coisa dessas! Por todos os deuses, apenas queria te manter seguro, se quiser lutar ao meu lado, então assim será... Só estou assustado, Lance, Perdoe-me.
– Eu que deveria estar te pedindo perdão pela audácia de desafiá-lo, mas se tratando da sua vida, faço qualquer coisa.
Os dois romperam o abraço, sorrindo levemente um para o outro quando foram interrompidos por Morgana:
– Lancelot, Graças a Deusa você chegou; venham agora para o grande salão, preciso contar-lhes uma coisa, que será de primordial importância para a nossa vitória!
Os nobres acompanharam a Senhora do Lago e quando chegaram ao recinto da távola redonda, perceberam que seu aspecto havia mudado um pouco.
Havia ervas espalhadas por toda a circunferência da mesa exceto nos locais correspondentes aos pontos cardeais, que estavam rodeados de sal.
– Não sei se Artur lhe contou, mas eu armei para que ele tivesse um filho com a Rainha das fadas e essa criança nasceu e está protegida em Avalon.
– O quê?! – falou Lancelot, totalmente petrificado com a notícia repentina; quando Artur abriu a boca para tentar esclarecer melhor tudo o que havia acontecido para o duque, Morgana o interrompeu – Agora não é hora, Artur, apenas falei isso para que a informação fique conosco, assim se acontecer alguma coisa com qualquer um de nós os outros saberão o que fazer... Galahad também teve de ser mandado oculto sob encantamentos para Avalon, não posso permitir que a linhagem sagrada se perca.
– Não posso negar que estou um pouco mais aliviado, prima – desabafou Lancelot.
– O importante agora é que as fadas não podem nos ajudar nessa batalha, os irlandeses sabem como evitar suas influências, mas Eda tratou de enviar suas energias para mim e por isso, acho que conseguirei fazer o sortilégio mais sagrado de todos, usado pelos grandes druidas na luta contra os romanos...
– Não me diga que você vai...
– Quase me esqueci de que você também passou tempo o suficiente na Ilha para saber dessa história, Lance; sim, eu vou trazer todos os itens da sagrada regalia para nos ajudar na batalha.
Artur ficou confuso com o que acabara de ouvir; tinha certeza de que já ouvira sua irmã chamar a Excalibur de sagrada regalia, mas pensava ele que se tratava apenas de um outro nome para a arma, até que as lembranças da época de sua coroação voltaram à tona.
– Com a energia das fadas, posso carregar todos os quatro itens ao mesmo tempo; o prato da terra é capaz de transformar todo o alimento que é colocado sobre ele. Qualquer um que o comer terá a força de dez homens correndo por suas entranhas; o cálice da água faz o mesmo com toda a água que é posta nele, só que seu efeito é o de acelerar a cura de ferimentos, até mesmo um ferimento de morte, poderia ser curado em apenas um dia. A lança do ar foi forjada do mesmo metal das suas espadas gêmeas Lancelot, só que ela realmente veio das mãos das fadas, seu poder de confundir os sentidos do inimigo é bem mais pronunciado. Você deve usá-la em combate. Por fim, a Excalibur, filha do fogo, com a habilidade de cortar toda e qualquer coisa sem nunca perder o fio...
– Você pode conjurá-los até aqui?!
– Creio que sim, conheço o encantamento... Agora, Artur, ponha a espada no círculo de sal correspondente ao sul, por favor; já mandei as servas prepararem pães para distribuir aos soldados e colocarem jarras de água da chuva nessa sala; devo começar imediatamente.
Artur fez o que lhe foi indicado e Morgana logo começou a traçar o círculo mágico, ficando no centro perfurado da mesa, dessa forma equidistante de cada marco aonde cada uma das relíquias estariam dentro em breve.
Tudo o que os nobres puderam ver foi uma grande luz percorrendo o corpo da sacerdotisa e tomando todo o salão; quando seus olhos pararam de ser ofuscados por aquela aura brilhante, Artur e Lancelot enxergaram as quatro relíquias da sagrada regalia em cima da távola redonda, ao alcance das mãos.
Um doce aroma das flores das macieiras percorreu o recinto e Morgana teve certeza de que o encantamento foi realizado com extremo sucesso. A sacerdotisa colocou com suas próprias mãos consagradas, os pães em cima do prato da Terra e depositou com cuidado a água da chuva por sobre a copa da água. Cada um dos nobres comeu do pão, sentindo seus corpos se energizarem como nunca antes haviam sentido.
Artur e Lancelot pegaram suas armas e foram para o pátio, ordenando aos capitães para levarem seus soldados, em pequenos grupos para comer do pão depositado no prato sagrado.
Os exércitos reais começaram a se organizar para cumprir as ordens do Rei quando Lancelot pôde ouvir o som de tambores ao longe.
– Artur, eles estão se aproximando, temos que ser rápidos!
– Claro, tome seu cavalo, Lance. Atenção todos, apressem-se em entrar no salão e depois que tiverem comido, formem-se diante dos portões do castelo, o combate vai começar!
A pressa se instaurou no exército bretão, mas a organização ainda se mantinha em níveis aceitáveis e pouco a pouco, os homens começaram a se organizar à frente do castelo em posição de batalha.
Artur e Lancelot ordenavam os esquadrões ao mesmo tempo em que se juntavam à cavalaria; os exércitos inimigos estavam visíveis, subindo o monte que dava acesso ao castelo. Seu número era assombroso. Ganhava em três ou quatro vezes dos números das forças aliadas, porém Artur não teve medo. Morgana havia achado uma excelente saída e Lancelot estava ao seu lado; nada poderia abalá-lo naquele momento.
A batalha começou; os soldados irlandeses eram bastante atrozes e habilidosos derrubando vários dos homens bretões com suas flechas. Os arqueiros aliados eram bastante eficientes e também conseguiam produzir baixas nos inimigos.
O confronto corpo a corpo se deu de forma surpreendente; os homens do exército bretão conseguiam derrubar mais de cinco homens inimigos com uma facilidade incalculável, todavia, a habilidade e o maior número dos exércitos irlandeses começaram a mostrar suas forças à medida em que os soldados bretões começaram a ser surpreendidos com golpes fatais, impedindo que a maioria dos soldados fossem levados para serem curados por Morgana, quase como se os inimigos soubessem o que se passava dentro dos muros do castelo.
Os números bretões estavam mínimos, os irlandeses conseguiam superar os exércitos reais apesar dos encantamentos de Avalon. Artur via-se perdido em meio a tantos inimigos quando viu, ao longe, dois estandartes conhecidos marchando até Camelot.
Gales e Gales do Norte vieram em socorro de sua majestade; apesar de atemorizador, seu atraso foi providencial: atacaram o inimigo por trás, surpreendendo o exército irlandês, que teve que batalhar em duas frentes, dividindo suas atenções.
Lancelot recuperou o seu ânimo e começou a atacar os inimigos com mais afinco; sua lança era incrível, as ilusões que provocava com seus movimentos tornavam a defesa do adversário praticamente impossível, somado a isso, sua força estava aumentada devido ao pão encantado que comera.
Sua animação não chegou a durar. Tomados pelo desespero, os irlandeses passaram a concentrar todos os seus ataques no Grande Rei. Chuvas de flechas voavam sobre Artur que se defendia como podia. Sua armadura era muito resistente, rechaçando por ela mesma a maioria das flechas, mas apesar da sua resistência, ela não foi capaz de suportar uma lança empurrada com toda a força no peito do Rei.
O duque praticamente voou com seu cavalo para o local onde Artur jazia, caído. Um golpe lateral seco com a sua lança foi o suficiente para mandar vários homens, que se aproximavam a fim de terminar de vez com a vida de Artur, para longe.
O nobre tomou o seu Rei nos braços, recuperando sua montaria e começou a cavalgar para a segurança dos muros do castelo. Mal havia chegado ao pátio uma dor aguda no peito fez o campeão do Rei se desestabilizar e cair do cavalo, levando sua majestade consigo.
Morgana foi capaz de ver toda a cena, com sua Visão aprimorada pela força das Fadas. Logo a sacerdotisa enviou servos para transportarem os nobres para os aposentos reais.
Ela chegou no quarto em seguida e logo percebeu que apenas Artur estava ferido de fato, Lancelot caíra por conta do encantamento que unira os dois. O sangue do Rei praticamente jorrava de seu peito deixando-o pálido como a própria morte. Morgana tratou de dar-lhe a água do cálice sagrado; todavia, ela sabia que não seria suficiente. Seriam necessárias horas para que ele estivesse bem o suficiente, mas o sangramento o mataria em minutos.
Imediatamente, a Senhora do Lago foi em busca da bainha as Excalibur que extinguiria a hemorragia por tempo suficiente.
Ao aproximar-se do Rei com a bainha em mãos, Morgana pôde notar o olhar assustado de Artur, que reuniu todas as forças que tinha para falar:
– Morgana, não ouse, aproximar essa bainha de mim... Você sabe o que acontecerá com Lancelot! – sua voz era nada mais do que um sussurro sôfrego.
– Artur, não faça isso, eu aguento o tempo que for necessário! Morgana faça logo o que tem de ser feito, a vida do Rei é mais valiosa!
A Senhora de Avalon assentiu, colocando a bainha próximo ao Grande Rei, que não tinha sequer forças para protestar.
Segundos depois ela pôde atestar que a ferida do rei parara de sangrar; foi o momento ideal para começar a limpar e suturar o ferimento. Quando se encontrava na metade do trabalho, o Grande Rei recobrou um pouco de suas energias e começou a falar:
– Morgana, eu te disse claramente para não se aproximar de mim com essa bainha; olhe para Lancelot... Minha irmã, ele está perecendo!
Morgana limitou-se a olhar o resultado já conhecido da sua atitude; o duque parara de sentir as dores do seu rei, mas seu semblante empalidecera e agora ele respirava com muita dificuldade.
– Não posso te separar da bainha até que tenha terminado as suturas, de outro modo, você sangrará até a morte!
– Ele não aguentará por mais tempo, Morgana, dê-lhe da água do cálice!
– Um dano dessa magnitude não poderá ser desfeito em menos de um dia, Artur, ele não tem mais do que alguns minutos de vida – disse Morgana, sem ao menos parar o que estava fazendo.
Tortuosos minutos se passaram até que Morgana tivesse concluído o seu trabalho de cura. Artur mal esperou a agulha afiada deixar a sua pele e virou-se para aninhar o duque em seus braços.
Lancelot abriu os olhos por um breve momento e com extrema dificuldade falou:
– Agora posso ir com maior tranquilidade, estás se recuperando bem, meu amor!
– Não! Não ouse me deixar Grão-Duque! Não parta sem mim ou me destruirás – disse Artur, em meio a lágrimas.
Lancelot levou uma de suas mãos ao rosto de sua majestade, limpando com uma gentileza trêmula suas lágrimas.
– Vença por nós, proteja meu filho, meu senhor e não se esqueça... Eu posso terminar os meus dias hoje, mas meu amor por você é eterno!
Artur limitava-se a balançar repetidas vezes a cabeça, como se estivesse em seu poder mudar os rumos dos acontecimentos; sua mão acarinhava delicadamente os pelos crescidos da barba de seu mestre de armas.
– Ah... Isso é bom! Seu toque é tão delicado, meu anjo... Não; não chores por favor, eu não sinto dores, partirei nos braços do meu senhor. Não haveria morte melhor para um guerreiro!
Artur assistiu desesperado, a luz abandonar os olhos do seu duque; o Rei tratou de jogar a bainha o mais longe possível, esforçando-se ao máximo para ir pegar o cálice sagrado, derramando um pouco da água em sua boca.
Morgana não sabia mais o que fazer; Artur estava com Lancelot em seus braços, as lágrimas caiam desenfreadas de seus olhos, seus urros de agonia podiam ser ouvidos por todo o castelo. A sacerdotisa jamais havia visto tamanho sofrimento em toda a sua vida.
O Grande Rei estava tomado pelo desespero; todas as tentativas de aproximação feitas por Morgana eram rechaçadas imediatamente. O soberano da Bretanha limitava-se a embalar seu duque num ritmo desconexo, tomando seus lábios vez por outra.
A noite caía na Bretanha e Morgana sabia que o sol não voltaria mais a brilhar para o seu irmão.
Morgana Fala:
A última guerra de nossa geração foi vencida por um preço alto demais. O funeral de Lancelot foi o acontecimento mais triste de toda a minha existência. Ele estava deitado, com sua armadura em um esquife de carvalho negro projetado sob medida. Seu semblante era tranquilo e mesmo sem vida, o duque conseguia demonstrar toda a sua elegância, tão própria de si mesmo que nem mesmo Artur com toda a pompa das majestades, jamais superaria.
Galahad estava inconsolável; o pobre garoto, jovem demais para reinar sobre dois reinos, com certeza havia perdido o seu norte, seu pilar de sustentação. Nimue vertia lágrimas de profunda tristeza, embora seu choro fosse praticamente inaudível, Connor a assistia com um olhar pesaroso e acolhedor.
O Grande Rei estava destruído; já não chorava, mas em sua expressão não se podia notar nada mais do que dor. Ele mesmo ateou o fogo do crematório, despedindo-se de uma vez por todas da pessoa mais importante da sua vida.
A Bretanha estava a salvo e Artur reinaria até que sua filha tivesse idade suficiente para tomar o seu lugar, todavia, eu mais do que ninguém sabia que meu irmão preferiria por mil vezes acompanhar o duque em sua jornada além-vida.
Não havia mais nada que eu pudesse fazer a não ser ficar do lado do Rei e ajudá-lo a criar a princesa; com certeza ele a amaria, mas eu não tenho certeza se ele poderá demonstrar esse sentimento novamente.
A terra havia exigido o seu sacrifício, porém dessa vez, apesar do sangue do Gamo-Rei ter jorrado, não foi a sua vida o preço cobrado pela segurança da Bretanha; por mais uma das viradas do destino, o preço cobrado foi sua felicidade, sua paz...
A Visão me foi dada mais uma vez e eu pude compreender que o tormento do Senhor da Bretanha só acabará junto a sua vida, mesmo assim ele reinará pelo bem do seu povo... Tamanho sacrifício será cantado pelos bardos por todas as eras, mesmo que a história se perca de geração para geração, mesmo que os fatos aqui vivenciados sejam modificados pouco a pouco, o Grande Rei Artur será eterno assim como o valoroso cavaleiro que o amou mais que a própria vida.
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